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A Esperança de Ana: Dar um sentido à dor
20.04.2016
Arrancou no primeiro trimestre deste ano o primeiro retiro do projeto português A Esperança de Ana, cujo objetivo é ajudar casais com problemas de fertilidade ou que tenham perdido filhos durante a gravidez ou nos primeiros momentos ou dias de vida a lidar com um luto que nem sempre sentem ser reconhecido.

 Ana e Diogo criaram o projeto A Esperança de Ana
 
Da dor e do luto também se pode reconstruir a esperança, e das lágrimas e da perda também se pode acalmar o coração. Mesmo que muitas vezes tenha de ser o próprio a encontrar a solução.

Foi o que pensaram a Ana Mansoa, 33 anos, enfermeira, e o marido Diogo, 30 anos, gestor de marketing, quando idealizaram o projeto A Esperança de Ana. «A ideia surge depois de um caminho de dor. Eu e a Ana perdemos dois filhos em 2013 e sentimos falta do passo a seguir. O que é que podemos fazer com esta dor que nos aconteceu?» Procuraram ajuda, mas não encontraram uma «resposta estruturada», explica Ana.

Uma dor quase ilegítima
O que lhes faltou em espaço de partilha sobrou-lhes em silêncio. «É quase como um luto escondido. É uma dor que é tida quase como ilegítima. É um filho que as outras pessoas não chegaram a conhecer, houve uma barriga que cresceu, mas não houve uma consequência disso. Portanto, muitas das vezes estas dores são vividas em silêncio», recorda a enfermeira.

Mas não só. A expressão «coração que não vê, coração que não sente» é experimentada, através dos outros, pelos dois corações que não precisam de olhos para sentir, os dos pais. E que passam a acumular duas dores, a da perda e a da falta de reconhecimento. «Às vezes, choca algumas pessoas quando nos referimos a estes dois bebés que perdemos como nossos filhos. Para a maioria das pessoas nós tivemos dois abortos, não tivemos dois filhos», lamenta Ana.

Maria José Vilaça, uma das psicólogas orientadoras dos retiros d’A Esperança de Ana, explica que nem todas as pessoas reconhecem numa gravidez uma vida, nem a possibilidade de os pais, àquela altura, já estarem profundamente ligados aos filhos. O seu luto é, por isso, semelhante em tudo a qualquer outro luto «com a agravante que não têm a possibilidade de o expressar da forma como normalmente se expressa. Esse luto não tem forma de expressar, não tem acolhimento.» E isto «agrava a dor», garante a psicóloga.

Ana Paula e João sentiram falta de apoio e compreensão«Uma dor acutilante»
Ana Paula, 30 anos, enfermeira numa unidade de neonatologia, e o marido João, 32 anos, motorista de autocarros, descrevem isto mesmo. «Casámos em 2011 e um ano e tal depois é que surgiu o nosso primeiro filho e foi uma alegria imensa que não se consegue explicar; isto foi em final de 2012 e foi também no final de 2012 que o nosso bebé morreu. Na altura procurámos vários apoios e batemos a algumas portas, mas não encontrámos propriamente a assistência que desejaríamos ter», afirma Ana Paula. E a ajuda que desejavam era a de encontrar um lugar onde pudessem expressar a sua dor, sentindo-se acolhidos.

À semelhança do casal promotor do projeto, encontraram um caminho silencioso e solitário. «Só dizer que temos outro filho além do Matias [um filho nascido entretanto] não é muito bem aceite, acham logo que vivemos de forma patológica o nosso luto ou que ainda estamos perturbados com a perda. Não é muito bem aceite até quando é puxado como tema de conversa ou se falo no meu bebé como algo real, as pessoas ficam de algum modo, não sei se “feridas”, mas ficam um bocadinho desconfortáveis», assegura Ana Paula.

Católicos praticantes, pertencentes às Equipas de Nossa Senhora, encontraram algum apoio no seio do grupo e junto do conselheiro espiritual, mas continuava a faltar uma vivência estruturada em comunidade e em Igreja.

À falta de braços que acolhessem a sua dor, Ana Paula e João tentaram resolver o seu luto, fazer o seu caminho. E achavam até que tinham conseguido, até se terem deparado com a possibilidade de «remexerem na ferida» durante o retiro d’A Esperança de Ana. Nessa altura, perceberam que a «dor acutilante», como lhe chama Ana Paula, continuava lá, que ainda não estava transformada, ainda não tinha sentido.

É possível dar um sentido à dor? Os responsáveis do projeto acreditam que, pelo menos, é possível transformá-la numa «experiência de esperança e de fecundidade», explica Ana Mansoa.

De lágrimas nos olhos...
Talvez assim se explique «um fim de semana de lágrimas nos olhos», descreve o Pe. Jorge Anselmo, que acompanhou os casais. «Dois dias de muita escuta, de muito acolhimento, de muita compaixão, de ser rosto de Igreja que acolhe esta dor. Vários destes casais, senão todos, sentiam esta necessidade. São cristãos, participam mais ou menos ativamente nas suas paróquias e precisavam de viver isto em Igreja, na comunidade cristã e alguns ainda não tinham sentido que, em Igreja, podiam partilhar tudo isto, podiam ser acolhidos em toda esta dor que têm vivido.»

Durante o fim de semana são trabalhadas todas as fases do luto, a culpa – «porque as próprias mães às vezes sentem “o meu corpo não foi capaz de reter o bebé”», continua a psicóloga –, as zangas. «Muitas vezes, as pessoas vêm zangadas com alguém… que orientou mal, que diagnosticou errado, ou até mesmo com Deus; porquê isto a mim?»

E no final, a transformação deu-se, a avaliar pelo balanço dos diferentes participantes.

Jorge Anselmo diz que, à semelhança do rosto de Ana, mãe de Samuel (figura bíblica que inspirou o nome do projeto), o rosto destes casais estava mudado no último dia do retiro. «A tristeza, a sombra, o peso com que entraram tinha-se diluído aos poucos e no domingo havia mesmo rostos que transmitiam alegria e muita paz.»

Foi assim para o casal Ana Paula e João. «O que acho que aconteceu com os vários casais é que esta dor acutilante se transforma num amor e numa dor de saudade um bocadinho diferente daquela com que chegámos ao primeiro dia. E é muito importante dar um sentido à nossa dor e àquela perda, porque senão nós não conseguimos reaprender a viver com a ausência de um filho», descreve Ana Paula.

O objetivo do casal Ana e Diogo foi cumprido com estes casais. Por isso, esperam poder chegar a mais gente ainda este ano, com mais um ou dois retiros, mas também com acompanhamento posterior de casais e com momentos de oração, para que, como em Ana, depois do choro (por não conseguir ter filhos) saiam daquele espaço e «não haja mais tristeza nos seus rostos».

Leia o artigo completo na edição impressa.
 
Texto: Rita Bruno
Fotos: António Miguel Fonseca e Ricardo Perna
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