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A globalização «está a mudar os valores que eram passados às nossas famílias»
13.04.2018
Representantes do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (SECAM) estão reunidos em Fátima para debater os «efeitos da globalização sobre a Igrejas e as culturas na Europa e na África», conforme anunciaram os promotores do encontro, que se está a realizar em Portugal.

 
Num encontro com jornalistas ao início desta tarde, os presidentes da CCEE e do SECAM explicaram as razões deste encontro. D. Gabriel Mbilingi, presidente da SECAM e arcebispo do Lubango, foi muito crítico em relação aos aspetos menos positivos da globalização em África. Afirmando que «não se pode fugir à influência da globalização», falou de situações de «conflito e instabilidade» que ocorrem em diversos países africanos, onde «o convívio entre cristãos e muçulmanos é muito forte». Um dos aspetos mais significativos da sua intervenção foi precisamente o de ligar as dificuldades com a globalização a países onde a intervenção islâmica é mais visível na sociedade.
 
Na África de Leste, o arcebispo do Lubango afirma que «algumas culturas acolhem bem a ideia do Islão, mas outras resistem a este fenómeno por causa de uma ideologia que se opõe necessariamente aos valores que recebemos da tradição cristã», enquanto na África austral há o confronto com «a realidade das religiões tradicionais».
 
No ponto mais negativo, D. Gabriel aponta que a globalização «está a mudar os valores que eram passados às nossas famílias». «Nós temos uma ideia de família muito enraizada no nosso pensamento, e são esses valores que estão a ser bombardeados pela globalização, que coloca em causa o matrimónio, a fecundidade que a globalização procura desvalorizar, e sabemos as consequências disso, e a desestabilização entre as diferentes gerações, porque as atuas são feitas de pais que nasceram num contexto de mudança provocada pela globalização», lamenta o prelado.
 
D. Gabriel Mbilingi critica também os deputados cristãos que, nos parlamentos, aprovam leis contrárias aos ensinamentos da Igreja. «Os nossos parlamentos têm na maioria deputados cristãos, mas que quando chega a hora de fazer leis para o seu país, aprovam leis que promovem o aborto, valores contra a vida, leis que não respeitam os direitos e a dignidade da pessoa. São pessoas que professam a fé cristã, mas na prática das instituições estão constrangidos a viver de acordo com esta política internacional», afirmou.
 
«Estamos a precisar de políticos cristãos que conheçam o fenómeno da globalização, e que respeitem o seu eleitorado, que não comunga desses valores», pediu.
 
Ásia é um «monstro» onde «o Evangelho ainda não chegou»
D. Gabriel Mbilingi, presidente do SECAMQuestionado sobre o movimento de sacerdotes africanos que vêm para a Europa em missão, D. Gabriel afirmou que essa é uma «alegria e uma preocupação». «Alegria porque a presença da igreja africana no continente europeu é sinal de que o Evangelho foi bem acolhido, produz fruto e que a Igreja que está em Africa quer ser adulta, e só o é quando sai e consegue ter missionários, quando não se fecha em si mesma», afirmou.
 
Mas ao mesmo tempo uma «preocupação», diz D. Gabriel Mbilingi, uma vez que África gostaria de «ir com a Europa para outros continentes, outras realidades onde o Evangelho ainda não chegou». «Gostaríamos de ser uma força, um movimento que se aliava à Europa para levar a força do Evangelho à Ásia, que é um monstro, mas onde o Evangelho ainda não chegou. Portugal lançou a semente, mas quando começa a dar os seus primeiros frutos, a Europa começa numa crise de fé, que afetou o modo e o estilo de vida de ser cristão aqui na Europa», afirma o arcebispo do Lubango.
 
Bispos europeus defendem que «não deve haver medo da globalização»
O Cardeal Angelo Bagnasco, presidente da CCEE, começou por dizer que o fenómeno da globalização não é para ignorar ou combater, mas para «conhecer». «Há que saber governar este fenómeno para não sermos dominados por ele, pois esse é o risco. Conhecê-lo passo a passo, para saber o que tem de bom e o que é falso, ilusório e de menos bom», disse aos jornalistas.
 
Referindo que o fenómeno da globalização permite «a diversidade de vivências», alertou para o risco de este «aumento de informação e interligação» da informação levar as pessoas a «pensar que tudo está bem e é aceitável», o que não é a mesma coisa. «Isto seria liquidificar a pessoa, seria receber a globalização de forma acrítica», e isso não pode acontecer, segundo o cardeal.
 
Neste sentido, propõe que a Igreja trabalhe sobre um «nervo delicado», o da «consciência». «A abordagem da Igreja deve ser a de sempre: anunciar Jesus Cristo e formar as consciências, para que possam ter os instrumentos, a coragem de escolher de entre as diversas informações o que é verdade, bom e o que não é». O Cardeal Bagnasco fala da «consciência individual de cada pessoa, mas também a consciência de Estado, ou de continente, para que também um continente tenha uma consciência».
 
O cardeal italiano agradeceu a «ajuda pastoral» que o clero africano dá na Europa, e defendeu que essa é uma das «riquezas» a Igreja. «A beleza da Igreja é este intercâmbio de missionários, que é uma resposta ao que o Senhor disse no Evangelho. A Igreja será sempre viva. Pode diminuir num ponto da terra, mas crescer noutro», sustentou.
 
O Cardeal Angelo Bagnasco defendeu ainda que a presença de clero africano na Europa vem «purificar e reforçar a nossa fé europeia, com a sua paixão e novidade interior», que os europeus parecem já ter esquecido ou deixado de parte.

Cardeal Angelo Bagnasco, presidente do CCEE
 
«A globalização está na sua terra em Portugal»
D. Manuel Clemente foi o anfitrião do encontro e esteve presente na conferência de imprensa. Segundo o Cardeal Patriarca de Lisboa, «Portugal vive bem com a globalização», já que «foi aqui que começou a ligação marítima entre vários continentes, e a primeira viagem de circum-navegação foi feita por um português». «É algo de inato, nascemos com ela», garantiu.
 
Defendendo que em Lisboa vivem «cerca de 100 nacionalidades, e não estou a falar de turistas», e que no seu clero diocesano tem «25 nacionalidades» representadas, D. Manuel Clemente disse que o desafio principal é o da interculturalidade. «Não basta estarmos de várias proveniências sociais, é preciso que nos encontremos com aquilo que cada um transporta, integrando usos, costumes que são próprios da proveniência de quem está nesses países. Se se entender a globalização como pessoas que transportam tradições, é muito enriquecedora», garantiu.

 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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