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A Grande Guerra Islâmica
20.03.2016
A Síria está a ser dilacerada por várias guerras. A primeira, e mais óbvia, é aquela que se trava pelo controlo do país, entre o governo e os rebeldes, mas há outras mais importantes a longo prazo. Uma delas envolve o Irão e a Arábia Saudita, que lutam pela primazia no mundo islâmico; outra, diretamente relacionada com esta, é a guerra milenar que opõe xiitas a sunitas.
 
A guerra civil na Síria começou em 2011, com uma revolta popular contra a ditadura do Partido Baath, que dominava o país há mais de 50 anos. De início, a rebelião parecia genuinamente nacional, atravessando quase todas as divisões étnicas e religiosas, mas foi preciso pouco tempo para se perceber que essa imagem era ilusória.

No final de 2012, já era notório que o conflito se tinha tornado claramente sectário: de um lado os xiitas (entre os quais estão os alauítas, a minoria a que pertence o presidente Bashar Al-Assad), que apoiavam o governo; do outro, os sunitas, que procuravam derrubá-lo.

Foi neste contexto que a guerra civil na Síria se internacionalizou. O governo de Assad, que há décadas era apoiado pelo Irão xiita, continuou a ter esse apoio, e mais reforçado. Atualmente, boa parte do poderio militar do regime assenta na ação dos conselheiros militares iranianos e dos milicianos do Hezbollah, o partido xiita libanês que é suportado pelo Irão, que combatem ao lado das forças governamentais.

Do outro lado, os inúmeros grupos rebeldes sunitas são apoiados, em maior ou menor grau, pelas monarquias árabes, das quais a mais importante é a Arábia Saudita. Essas monarquias partilham a mesma versão estrita do islamismo sunita, o wahhabismo, que inspirou duas organizações extremistas que também participam na guerra civil síria: o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.

O fundamentalismo islâmico wahhabita surgiu nos confins da Península Arábica no séc. xviii e caracteriza-se pela sua intolerância face a todas as outras crenças religiosas, incluindo mesmo as que fazem parte do islamismo. Os wahhabitas mais extremistas reservam um especial desprezo para os xiitas, que são o mais importante ramo minoritário do Islão, com 10 a 20% de todos os crentes. Os xiitas são maioritários em apenas quatro países do mundo: Irão, Iraque, Bahrain e Azerbaijão.

A ascensão do sunismo wahhabita e da família Saud estão absolutamente interligadas, mas só nos últimos 35 anos é que a casa real exportou essa ideologia religiosa para todo mundo islâmico, e não só. Essa decisão foi a resposta saudita a três acontecimentos do ano de 1979: a Revolução Iraniana, a invasão do Afeganistão pela União Soviética e a tomada da Grande Mesquita de Meca, o lugar mais santo do Islão, por um grupo de extremistas sunitas que queriam derrubar a família real, e que só foram derrotados ao fim de duas semanas de combates ferozes.

Esses três acontecimentos convenceram os Saud de que o seu domínio do país estava em sério risco e que a sua resposta teria de passar pelo reforço da sua legitimidade religiosa, enquanto guardiães da pureza da religião muçulmana e dos lugares santos de Meca e Medina.

Por isso, internamente, o governo tratou de impor à população uma versão cada vez mais estrita do fundamentalismo wahhabita, ao mesmo tempo que, externamente, tratou de a exportar através do financiamento de grupos e entidades religiosas.
O que aconteceu nas décadas seguintes é bem conhecido: os clérigos wahhabitas mais extremistas propagandearam uma visão cada vez mais extremista e violenta da sua fé, e muitas vezes organizaram grupos armados para a levar à prática. Os seus principais inimigos eram os ocidentais, os judeus e, principalmente, os xiitas, que são, de longe, o grupo mais numeroso das suas vítimas.

Esta disseminação do fundamentalismo sunita procurou contrabalançar a expansão do fundamentalismo xiita lançada pelo Irão, sob o comando do ayatollah Khomeini. Tal como o wahhabismo, a versão do islamismo proposta pelo líder iraniano acentuava a necessidade do regresso à pureza inicial dos ensinamentos de Maomé, mas depois divergia em dois aspetos fundamentais: onde os wahhabitas apelavam à guerra contra os xiitas, por estes serem apóstatas, Khomeini e os seus seguidores defendiam a união das duas fações; onde os sunitas aceitavam a subordinação do poder religioso ao poder político, os xiitas iranianos punham o poder religioso à frente do poder político. No Irão, o ayatollah Khomeini era o Líder Supremo, cujo poder ultrapassava o do próprio Presidente da República, e assim continua a ser com os seus sucessores.

Como é fácil de calcular, isto era inaceitável para a família real saudita. A doutrina de Khomeini não só implicava a destruição do seu governo como a de todos os outros da região, uma vez que nenhum deles tinha uma liderança religiosa.

Para os sauditas, havia ainda uma ameaça interna a ter em consideração: dentro das suas fronteiras, existe uma minoria xiita significativa, e muito discriminada, que ainda por cima habita as principais zonas produtoras de petróleo do país. O medo de uma potencial agitação dessa minoria, incitada pelo Irão, é um fator sempre presente nas relações entre os dois países.

A juntar a tudo isto temos ainda a divergência na relação com os Estados Unidos. Apesar de a grande maioria da opinião pública árabe ser hostil aos EUA, devido ao seu apoio a Israel, a Arábia Saudita mantém uma aliança antiga e forte com os norte-americanos. Já o Irão revolucionário adotou uma posição exatamente oposta, uma vez que o governo de Washington era o grande sustentáculo do anterior regime, liderado pelo Xá Reza Pahlavi.

Para o ayatollah Khomeini, os Estados Unidos eram o “Grande Satã” e, por isso, o seu governo combateu os interesses norte-americanos em todo o mundo, recorrendo mesmo ao terrorismo. O sequestro, pouco depois da Revolução Islâmica, de dezenas de diplomatas norte-americanos que trabalhavam na embaixada dos EUA em Teerão foi um dos acontecimentos mais humilhantes da história norte-americana das últimas décadas e deu enorme prestígio a Khomeini e ao novo regime em grande parte do mundo árabe.

Como é fácil de calcular, a comparação com o Irão, nessa altura, não beneficiou a monarquia saudita, acusada por muitos de ser um mero fantoche dos interesses petrolíferos norte-americanos.

De então para cá, o fulgor do regime iraniano desvaneceu-se, mas a rivalidade entre a Arábia Saudita e o Irão permaneceu, porque a realidade geoestratégica assim o impõe. São dois países grandes em território, população e recursos petrolíferos, mas que estão divididos pela religião e pelo tipo de regime político que têm. São rivais naturais na luta pela liderança do mundo islâmico, e isso dificilmente mudará.
 
 Texto: Rolando Santos
 
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