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A Igreja, os recasados e a salvação das almas
23.01.2018
A Igreja portuguesa, com alguns ecos na Igreja internacional, foi abalada nos últimos dias com a publicação do documento “Edificar a casa sobre a rocha”, da Arquidiocese de Braga. Um abalo visto por muitos como uma bênção e, por outros, como uma catástrofe.

O subsídio da arquidiocese de Braga é muito vasto e toca em muitas áreas onde a intervenção da Igreja é urgente e necessária, desde a preparação para o matrimónio remota, com a sugestão da criação de grupos de namorados nas paróquias, até ao acompanhamento regular e organizado dos jovens casais por casais mais experientes, passando por uma preparação imediata do matrimónio mais incisiva na proposta da integração dos casais nas comunidades. Mas é no ponto sobre a integração das famílias em situação irregular que o documento foca mais as suas atenções, e as de todos os interessados.

Em resumo, o documento defende que é possível, não garantido, aos divorciados recasados poderem aceder aos sacramentos, segundo as indicações do Papa na Amoris laetitia (AL) e dos bispos argentinos no famoso documento enviado ao Papa, que Francisco validou e definiu como sendo Magistério. Para isso, Braga define um itinerário de discernimento exigente, que pressupõe uma caminhada com um diretor espiritual de alguns meses a fim de conseguir compreender se, de facto, há condições para o regresso aos sacramentos.

E aqui é que o obstáculo aparece: como conseguir conciliar a questão da indissolubilidade do matrimónio, uma doutrina milenar, alicerçada na Tradição da Igreja, nos pronunciamentos de Papas e santos, e nas próprias palavras de Jesus, com esta procura da misericórdia e da integração de todos. É neste ponto que se geram as discórdias, pois o acesso à comunhão implica um estado de graça, sem pecado, que não é possível aos recasados, à luz da doutrina atual, que defende que qualquer relação fora do laço sagrado do matrimónio é adultério e, por conseguinte, um pecado que não acaba, já que as pessoas não desistem de estar casadas com essa segunda pessoa.

A única forma encontrada de conseguir conciliar as coisas, até à data, é a de questionar a doutrina da indissolubilidade, que, apesar das bases fortes, não é um dogma de fé. Só assim parece ser possível esta integração, com o assumir de que os laços do matrimónio não são inquebráveis e que, infelizmente, o Homem, com o seu livre arbítrio, pode contrariar a proposta que Deus tem para ele. Esta é uma tese que iria colocar meio mundo católico em caos, principalmente aqueles casais que, estando em situação irregular, aceitaram viver como irmãos, em abstinência sexual, por sacrifício perante o seu casamento falhado.

No entanto, considerar que a única solução para a reintegração destes casais é sugerir-lhes que vivam como irmãos ou abandonem a segunda relação é muito pouco, e uma proposta que não faz muito sentido a muitas pessoas (nem à própria Igreja quando dessa segunda relação já surgiram filhos). E, quer queiramos quer não, a Igreja não pode fechar-se numa única proposta, correndo o risco de ficar sozinha a pregar algo que ninguém segue. A Igreja existe para os homens, não para ficar fechada em si mesmo, embora também não possa mudar tanto que se desvirtua. O desafio está em encontrar o equilíbrio, que é o que o Papa procura fazer, por estes caminhos meio tortuosos, de abrir à reflexão e revisão temas que, à partida, muitos considerariam fechados.

A questão é pertinente, mas há algo que é preciso que todos tenhamos consciência. Se pegarmos no universo de todos os casais em situação irregular e os conseguirmos sensibilizar para a necessidade de inverterem a sua situação (o primeiro grande desafio, que uma mentalidade fechada como a anterior nunca conseguiu fazer), eu arrisco dizer que 80 a 90% das situações irregulares dizem respeito a matrimónios que não são válidos, porque, infelizmente, a preparação remota para o matrimónio tem sido escassa e a preparação imediata não consegue levar a esse discernimento, e muitos casais uniram-se sem a noção do verdadeiro significado do sacramento (para além de outras razões que podem justificar a nulidade do sacramento). Como tal, serão nulos, sacramentos que nunca aconteceram, e essa declaração resolve a questão nessas casos, tornando as pessoas habilitadas a contraírem matrimónio.

Dos 10 a 20% de matrimónios que falharam e que são válidos, muitos dos casais terão culpas graves no definhar das relações e não poderão sequer ser considerados para acesso aos sacramentos, coisa que o processo de discernimento irá permitir perceber e explicar a esses casais, de um modo que eles possam entender e, ao mesmo tempo, respeitar (uma mais-valia que este caminho vem trazer).

Destes, restarão 3 a 4% que, no final do processo de discernimento, até poderão compreender que o mais indicado será o que já estava definido (não terem acesso aos sacramentos, mas conseguirem viver bem com isso), e uma pequena minoria que faça o seu caminho até à integração. Esta pequena minoria até poderá comungar fora da sua comunidade, para não ser ocasião de escândalo, como já se ia fazendo ainda antes do Sínodo da Família em ocasiões pontuais, por este ou outro caminho de discernimento, com um ou outro pastor ou bispo que o ia permitindo, em casos pontuais, ou na própria comunidade, consoante o discernimento dos interessados e o caminho feito pela comunidade.

É que, no final de tudo, e como diz o Papa na AL, ninguém se pode substituir à consciência de cada um, e cabe a cada um discernir o que fazer e arcar com as consequências disso agora, nesta vida, ou mais tarde, quando, perante Deus, avaliar aquilo que foi a sua vida e as suas ações. À Igreja cabe propor, claramente, o caminho. Ao fiel cabe a decisão de aderir ou não.

Este caminho que a Arquidiocese de Braga está a trilhar pode ter o condão de conseguir que pessoas afastadas da Igreja retornem, na procura destes sacramentos, e sejam acolhidos. Mesmo que não consigam aceder aos sacramentos, terão passado por um processo de discernimento que os poderá aproximar de novo da Igreja, mesmo sem os sacramentos que tanto desejavam, mas que se calhar nunca pensaram que não poderiam mesmo ter e agora compreendem. E este é um ganho enorme que este subsídio pode trazer à Igreja de Braga e, seguindo o seu exemplo, a outras das dioceses do país. Mesmo que, no fim, nenhuma pessoa seja considerada apta a receber os sacramentos, o caminho estará feito e já estarão devidamente integradas nas comunidades, com consciência da sua situação e em paz consigo mesmos, o que não acontece agora.