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A imperfeição da síntese
31.07.2017
Deficiente é a palavra deficiência. Quando a ouvimos acerca de alguém pensamos, em abstrato, numa série de hipóteses e enfrentamo-las com o padrão ideal e perfeito. E raramente nos colocamos a pergunta sobre o que é ser perfeito física e espiritualmente. Quando recuamos em eventuais quadros da evolução do homem e tentativas de aproximação por desenho, perdemo-nos na composição da imagem e no aglomerado de qualidades intelectuais e morais que constituem a “normalidade”.

Que nos diz tudo isto? Primeiro, que não temos dados suficientes para definir com rigor o ser ou não ser deficiente. Em seguida, precisamos ter limpo o nosso olhar para não precipitarmos juízos ou tomarmos atitudes que conduzam alguém, próximo ou distante, a um estado de marginalidade em relação aos nossos padrões. Também aqui é fácil ver o argueiro nos olhos do outro e recusarmo-nos a retirar a trave que está diante dos nossos olhos. E somos conduzidos à reflexão sobre os modelos de homem ou mulher, jovem ou adulto, o que é belo, o que o universo cor-de-rosa das imagens nos oferece como os grandes padrões para as nossas referências e para onde deveremos caminhar. Aqui se entra numa rampa perigosa da fácil exclusão e dos juízos condenatórios que se convertem em lógica e prática de vida que acaba por não distinguir o orgulho da crueldade.

O nosso olhar parte do nosso coração. É a benevolência, a escuta, a limpidez de perceção e a capacidade de acolher que modelam a justiça que nos habita e que intervém nas relações com os outros. Isso é tão genuinamente cristão como a originalidade do perdão – a novidade e a exigência mais provocadoras da história que nos foi ditada por Jesus. É dessa essência que se compõem os santos e que constitui o primeiro pórtico do caminho da perfeição a que todos somos chamados. Aqui, talvez, se desenha a fronteira das nossas grandes opções, sobretudo de sermos consequentes com as exigências do nosso batismo.

Releio estas palavras e pergunto onde as fui copiar. E aqui me socorrem tantos textos a que todos temos acesso. Desde o primeiro dos nossos livros, a Bíblia, com um olhar particular sobre a grande novidade de Jesus que a todos deixou perplexos com a originalidade do perdão. Nunca ninguém falou e agiu assim. N’Ele o pensar, o dizer e o agir foram e são um só. Lembro, a seguir, o admirável livro da Liturgia das Horas, grande compêndio de oração e manual do saber recolhido do Grande Livro e dos mestres espirituais, cofre precioso do orar e do ensinar dos primeiros tempos da Igreja e prolongado nos séculos. E aí, se temos tempo e olhar, podemos, a cada dia, mergulhar no deslumbramento de tantos homens e mulheres que ao longo de dois milénios souberam induzir e traduzir os grandes Livros da Bíblia – sobretudo os Evangelhos – e a pureza das primeiras comunidades. É talvez o lugar que melhor faz a síntese do orar e pensar da Igreja desde os seus primórdios. Tal como os salmos, que passaram pelos lábios de Jesus e que conservam a frescura da oração que tem na Ceia o seu ponto culminante. Tudo isso foi dito e meditado por aqueles que nos precederam na fé e criaram esse fio ininterrupto que chegou até nós desde o raiar da criação até aos nossos dias. Com Jesus a marcar o Alfa e o Ómega.

Conforta-nos que tudo tenha caminhado para a perfeição, mas que tenha a marca da deficiência e debilidade da natureza humana. Sem ar científico ou doutoral. Sem negar todos os dados que as diversas histórias do saber ofereceram à Igreja e ao mundo. E sem excluir o mundo, onde também está Deus.

É bom sentarmo-nos sem um livro na frente e partilhar as nossas sínteses que têm a marca perfeita da nossa imperfeição. E reconhecermos que não temos dados suficientes para julgar os outros e ainda menos para os condenar. Até a história esconde segredos, que só um olhar complacente pode descobrir.