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A liberdade de expressão
08.01.2018 17:55
A “liberdade de expressão” tem sido dos valores que mais vejo obrigada a “defender” nos últimos anos. Penso que o ponto em que me apercebi desta nova luta a que me “dedico” tenha sido o ataque à redação do Charlie Hebdo.
 
Apercebi-me claramente, nessa altura, da “conveniência” de um valor que serve enquanto for para cada um se defender e às suas ideias. Da mesma forma, a sua inconveniência é total quando não está de acordo com o que professamos: de acérrimos defensores da liberdade, passamos todos a ser vítimas de crimes vis e uma opinião contrária ou que nos ridiculariza passa a ser passível dos desejos das mais severas punições e, no mínimo, de ser retirada de circulação.
 
O sentido de humor é uma coisa volátil, também me apercebi, e a vida só tem piada se não gozarem com aquilo que defendemos. Facilmente tudo se passa a sobrepor à liberdade de expressão. Senão vejamos como estes argumentos ganham vida: «a liberdade de expressão não pode ser a qualquer custo»; «não se brinca com as crenças das pessoas»; «isso é uma discriminação, é um preconceito», etc, etc.
 
Declaração de posição: sou absolutamente a favor da liberdade de expressão. Sem mas. Embora tenha sérias dificuldades em lidar com pessoas ignorantes, mal-educadas, insensíveis - como todas as pessoas de bem - defendo que mesmo a estupidez tem direito a expressar-se.
 
Quando a liberdade de expressão configura efetivamente um crime, porque se acusou alguém de um facto muito específico (e não apenas a sua opinião sobre alguma coisa, ou a sua crença) que é mentira e essa mentira prejudica esse alguém, os tribunais lá estarão para o julgar e condenar. Agora, querer, por exemplo, que sejam banidos cartazes porque fazem piadas com a religião, que livros desapareçam porque associam meninas ao cor-de-rosa e meninos ao azul, ou transformar todas as opiniões contrárias ao politicamente correto em crimes de “incitação ao ódio” ou “discriminação” é um caminho muito, muito perigoso. Queremos mesmo ir por aí?
 
Em nome de uma suposta tolerância, caminhamos para a falta de liberdade não só de expressão, mas já mesmo de pensamento. Porque quando temos bom fundo, queremo-nos tolerantes, queremo-nos abertos, queremo-nos bons para os outros e, na fase em que estamos, qualquer “desacordo” ou até mesmo só dúvida com o pensamento politicamente correto nos transforma seres preconceituosos e discriminatórios. E não queremos ver-nos assim, por isso, facilmente nos auto-censuramos.
 
Eu preferirei sempre a máxima: «Posso até não concordar com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo.»