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«A mulher é um ser frágil pelo qual a Igreja deve dar tudo»
01.01.2017
O Pe. Luciano Ferreira é missionário vicentino e um homem com grande experiência no trabalho missionário em África e na Europa. Reconhece a necessidade da Igreja dar mais importância à mulher no reconhecimento do importante papel que ela já hoje desempenha dentro das estruturas da Igreja.

 
Como é que a Igreja olha para a mulher?
O ensinamento da Igreja em termos do matrimónio e da família, no que tem a ver com a mulher, mostra uma preocupação, principalmente no discurso oficial da Igreja desde o Concílio Vaticano II para cá, na dignificação em geral da mulher. Não apenas promoção exterior, mas promoção a partir do Evangelho e do que são os valores profundamente cristãos e evangélicos.
 
Mas é isso que acontece na Igreja?
O problema depois está na prática. Há disparidade na forma como a Igreja tem aplicado, ou não, por exemplo no contexto africano, esta dignificação da mulher. Esta dignificação pode ser aplicada em geral, como no II sínodo africano, que disse que educar uma mulher é educar um povo, por causa da influência que a mulher tem no desenvolvimento das populações. Outra coisa é a nível interno da Igreja, e sabemos que, na realidade, na maior parte das comunidades, a sua vitalidade é sustentada, orientada e animada pela enorme doação que as mulheres põem nos ministérios que elas podem realizar. Deveria haver, da parte dos pastores, muito mais empenho em fazê-las aceder a diversas instâncias de gestão e governação da igreja, que deveriam ter mais presença feminina.
 
E onde poderia haver essa presença?
Nos conselhos económicos, em certas comissões que preparassem as conferências dos bispos, nos direitos humanos, justiça e paz, na educação da mulher. Tudo o que é uma emancipação genuína, humanamente equilibrada e profundamente evangélica, em relação ao conjunto da sociedade, onde o homem continua a esmaga-la de muitas maneiras. A mulher, em grande parte, é escrava, objeto, aquilo que não deveria ser. Até dentro da Igreja, há muita masculinização, e muito caminho a andar.
 
Parece-lhe que a questão do diaconado feminino pode ser uma solução para criar essa figura que dê mais suporte à mulher?
Penso que o Papa faz um esforço para ir ao encontro das demandas e das expetativas para ver que passos se podem dar a nível de dar mais responsabilidades hierárquicas, de se voltar a um envolvimento mais pleno, regressando a modelos que existiram até à Idade Média, da mulher dentro da Igreja. Como ele também tem explicado, não é pela sua ascensão aos ministérios do presbiterado, porque Maria teve um papel de relevo e não se pôs esse problema.
Mas essa tradição antiga, que fez com que a mulher fosse diaconisa ao estilo do tempo, é uma possibilidade. A figura do diácono evoluiu, e agora há que ir ao encontro das demandas. Os diáconos chegaram a ser mais importantes que os presbíteros, em torno do bispo e da influência na Igreja logo no princípio, no encargo com a diaconia. A diaconia é tudo o que tem a ver com a caridade, serviço aos pobres, gestão económica, etc, e até que ponto essa figura pode ser útil e importante hoje para a mulher, dando-lhe um acesso a essa ordenação no diaconado. Ali é duvidoso se se chegou ao que é uma imposição das mãos e uma forma de ordenação que depois foi evoluindo e se concretizou mais à frente naqueles primeiros séculos.

 
Essa é a solução?
Se vai solucionar a sede que algum movimento feminista dentro da igreja manifesta de maior responsabilização, ou a resolução de alguns problemas de falta de ministros, não creio. Na minha experiência em Moçambique, a mulher tem tido um papel preponderante na subsistência da Igreja. Durante a guerra e o período marxista, foi o pulmão que aguentou o fogo do Evangelho, aquilo que é principal na Igreja, evangelização, celebrações, visita aos doentes e todas as formas de criar presente o Cristo, mas sempre como leigas comprometidas, fiéis em Cristo, na Legião de maria, nos movimentos vicentinos, nas várias formas de participação nas comunidades, nas paróquias. Irradiam no seu meio, de forma espontânea e simples, o Evangelho. Ordená-las ou fazê-las participar num processo de diaconisas, mesmo que seja muito inseridas no seu povo, não sei se teria vantagem, porque por tendência as pessoas responsabilizadas na igreja, mesmo em Portugal, tendem a achar-se mini padres, ou mini diáconos, aproximando-se do altar e falando de cima dos ambões, e isso é um equívoco, é uma clericalização inútil.
 
Mas a mulher, com todo esse trabalho, acaba por ser ignorada nos órgãos de decisão, muito masculina…
Se o diaconado desse maior visibilidade à mulher, para ser ouvida em determinados momentos de decisão, orientação e discernimento, poderia ser uma vantagem, mas também se poderá desenvolver essa maior atenção nos órgãos principais da paróquia e da diocese, sensibilizando os pastores, a hierarquia. Se elas já fazem parte efetivamente, de forma espontânea e participando nos órgãos onde já está prevista a sua participação, deveria prestar-se a atenção que seria normal, independentemente de ser masculino ou feminino, e isso era uma forma da Igreja contribuir para a verdadeira emancipação da mulher e para o que é a igualdade fundamental com que Jesus trata a mulher, dando-lhe até alguma prioridade.
 
Também é por isso que o Papa tem falado nisto, e que até indicou Maria Madalena como apóstola?
Penso que sim. E logo a abertura da ultima carta da Misericórdia, apanha ali a mísera, a mulher entregue aos caprichos de quem manda na hierarquia que se deixa conduzir friamente pela lei e pelo “podemos” e “devemos”, apanha a criatura feminina tão fragilizada e muda a sua situação.
No contexto africano, os que são ordenados padres e bispos têm uma tentação horrível de mandar.
 
Poderíamos ter a possibilidade de ter ordenar mulheres diaconisas, equiparadas a um diácono permanente?
Do meu ponto de vista não vejo que pudesse ser contra a doutrina, porque o diácono e a diaconisa nunca se poria o problema de exercerem um ministério do tipo de presbítero, que preside à eucaristia, unge os doentes e confessa os pecadores, tudo coisas ligadas ao ministério dos apóstolos. Isso não foi pedido a Maria nem a nenhuma das grandes mulheres do princípio, que são conhecidas e evocadas.
Na linha de um diaconado que não é para realizar as funções que o presbítero não pode, ligadas ao altar, à liturgia e ao canto, mas que deveria ser muito mais como capacidade de poder rentabilizar a evangelização, organizando e orientando a comunidade, com uma sensibilidade muito maior para os pobres, como o Papa pede.
 
Uma igreja com uma voz da mulher mais incisiva seria mais rica?
Seria mais rica, e de certa maneira resolveria uma necessidade mais básica que a Igreja sempre tem proclamado: a mulher é um ser frágil pelo qual a Igreja deve dar tudo, não apenas por compaixão, mas porque aquele olhar de Jesus, aquela forma de atuar, deve ser a da Igreja. Agora, na maior parte destes países, a Igreja não pode fazer sozinha e de forma paternalista, sem se apoiar nos responsáveis locais e nacionais, porque ela não resolve tudo sozinha.
 
Seria mais difícil aceitar uma mudança no estatuto da mulher nas periferias, ou nos países mais desenvolvidos?
Eu penso que, culturalmente falando, seria mais difícil para os países da periferia aceitar isso. O caminho de aceitar e envolver num crescimento e dignificação da mulher que lhe dê uma participação de nível igualitário, fraternal, sem favores, é mais difícil para eles. Penso que seria mais fácil na Europa, se bem que muito do nosso povo teria de ser trabalhado. Da parte dos pastores, seria preciso um grande trabalho com a comunidade para os sensibilizar para isso, para além de formar os próprios pastores.
Algumas comunidades vivem numa ilusão, porque veem as suas pequenas igrejas cheias e não fazem mais. Há uma grande volta que é preciso dar na legítima emancipação da mulher. Já temos as palavras, as ideias e os conceitos, falta torna-la prática, sem cair nos extremos das ideologias de género e outras coisas.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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