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«A sério?»
27.03.2018 16:00:00

Tenho uma memória (ou não tenho) que nunca me permitiria fazer aqui um lençol descritivo da quantidade de vezes que digo “a sério?”
A sério que eles fizeram isto? A sério que disseram aquilo?

Se por um lado poderia apenas desejar que esta minha característica ingénua mudasse de poiso e me fizesse passar menos vezes pela “vergonha” de parecer “uma tontinha” que não consegue acordar para a vida do seu sono de beleza, por outro só posso continuar a desejar dizê-la tantas vezes que se torne também uma expressão característica dos que me estão mais próximos (como as miúdas).

Vou continuar a preferir ficar incrédula com o que ouço e vejo do que normalizar situações que deixam muito a desejar do ponto de vista do coração ou do carácter. E têm sido muitas, infelizmente. Desde líderes mundiais que tomam decisões que nos afetam a todos como se estivessem a jogar Monopólio, a figuras de influência que magoaram e traumatizaram muita gente e tiveram anos de amnésia sem se lembrar de que o tinham feito… responsáveis de instituições que saltitam entre o que deveria ser a nobreza da ajuda ao próximo e um mundo escuro de alegado aproveitamento pessoal… dirigentes desportivos que fazem arruaceiros parecer meninos de coro… figuras políticas a quem não chega o próprio currículo. São só alguns exemplos, grande parte dos quais só neste primeiro trimestre do ano, de que me consigo lembrar e que tantos “a sério?” me arrancaram.

Não é má esta escolha pela indignação, o que é realmente mau é o estado permanente de incredulidade com que temos de conviver por serem tantas as atitudes do lado errado da pergunta.

Geralmente essa pergunta sai-me genuinamente indignada ou espantada. O melhor uso que posso fazer disso é transformá-lo em momentos “mãe-filhas”, explicando-lhes o mundo, na esperança de que cresçam com valores e mantenham a mesma capacidade de se espantar com o que não bate certo.

“A sério, mãe?” Mas isso é muito injusto, isso não faz sentido nenhum, como é que alguém é capaz de uma coisa dessas? A resposta a isto é cansativa (obriga a ponderar e a ajustar os argumentos à sua idade), mas não é que seja difícil. E não deixa de ser bonito ver a justiça, a retidão e até a clareza e simplicidade do “preto e branco” que lhes movem as questões. Piores de responder são os que vêm depois, com as consequências. E tantas vezes as consequências não são nenhumas, ou são ridículas. E isso é tão mais difícil de explicar sem que percam a fé nos homens; isso é tão mais difícil de explicar quando lhes queremos provar que os seus atos têm consequências às quais têm de responder; é tão mais difícil quando lhes queremos mostrar que a justiça existe, funciona e é equilibrada e proporcional.

É bom manter a capacidade de nos questionarmos, mas convém que a pergunta faça sempre sentido e seja sempre real e não apenas um tique de linguagem adquirido.

É um dos meus desejos. Que o número de “a sério?” sem um correspondente “ah, bom, afinal não era normal” possam, pelo menos, diminuir e que as consequências dessa “anormalidade” sejam visíveis e proporcionais.

Para que nos possamos indignar com frequência, para que possamos continuar a responder “sim, isto espanta-me muito” quando alguém condescendente sorrir à nossa ingenuidade, e para que nos importemos com o que acontece à nossa volta… SEMPRE.