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A terceira escolha
02.01.2017
«Deus não vê como o homem: o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração.» (1Sm 16,7) Foi esta a resposta de Deus a Samuel quando Deus Se preparava para escolher o pequeno e frágil David para sucessor, como rei de Israel.
Os projetos de Deus desviam-se imenso das escolhas lógicas e óbvias da nossa razão, e mais ainda quando elas se encontram marcadas por interesses pessoais.

Foi assim que o anjo Gabriel se dirigiu a uma jovem desconhecida, da recôndita Nazaré, que nunca fora citada na Bíblia, mas já se encontrava preparada, desde o princípio dos tempos, para ser a Mãe de Deus. Como referem os Padres da Igreja, já beneficiara, por “singular privilégio” da obra redentora do Filho de Deus, ainda que, paradoxalmente, Ele ainda estivesse para nascer e entrar na história dos homens, morrer e ressuscitar.
José era o noivo dessa jovem, também ele desconhecido até então. Ambos têm em comum o facto de parecerem uma terceira escolha, fora, portanto, das figuras ilustres das famílias reais ou das boas aparências, tal como o jovem David. Têm em comum um projeto de vida pessoal, que Deus aproveita para relançar o seu próprio projeto divino: o do nascimento do seu Filho.
Diante das duas opções naturais, prosseguir as suas vidas com o projeto inicial, recusando a proposta divina ou perante a pressão das prescrições legais, arranjarem uma forma de saída, acabaram por fazer a terceira escolha. Prosseguir com os seus planos, mas imbuídos da presença divina, que os levará a fazer escolhas difíceis, certo, mas de uma abrangência que inclui a Humanidade inteira.

Acresce ainda a história dos magos. Vieram por caminhos incertos seguindo uma estrela. Quando finalmente encontraram e adoraram o Salvador, decidiram regressar a casa por outro caminho. Fizeram uma terceira escolha, que nem os levava pelo caminho que fizeram, nem para Herodes, dadas as intenções. É claro que a interpretação deste texto nos convida à mudança de vida, deixando a rotina habitual da busca de um sentido para o que fazemos, como o de nos afastarmos das propostas interesseiras e oportunistas de quantos se aproveitam desses momentos de vulnerabilidade, mas optando, em vez disso, por seguir o caminho que Deus vai indicando de variadas maneiras.

À semelhança de Maria, José e de tantas personagens da Bíblia, o caminho da esperança requer uma fé reforçada na confiança em Deus. A sua palavra convida-nos à paciência, à misericórdia, ou seja, ao amor, que nos torna mais caridosos e pacíficos nas adversidades, quaisquer que sejam.
Hoje, o mundo precisa desses operadores de paz. No dizer do Papa Francisco, na mensagem para o 50.º Dia Mundial da Paz que celebramos neste 1 de janeiro, «o próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano.» E aqui, frisa o Papa, é fulcral o papel da família na construção desses sentimentos de respeito, da tolerância, da não-violência: «Se a origem donde brota a violência é o coração humano, então é fundamental começar por percorrer a senda da não-violência dentro da família.»

Deparamo-nos continuamente com a necessidade de fazermos escolhas. Deus gosta de intervir nessas opções para deixarmos as rotinas habituais, sem nos tornarmos reféns de outras opiniões, interessantes ou não, mas que não se coadunam com a verdade de Deus.
Apesar dos percalços, das incertezas e das quedas, temos sempre uma segunda oportunidade para fazer uma terceira escolha: a que combina com a vontade de Deus, que nunca nos deixa ficar mal, mas potencializa ao máximo as nossas capacidades, que são dons de Deus, que aguardam a sua intervenção para produzirem frutos mais abundantes.