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Acolher o dom de Deus
06.03.2017
O encontro de Jesus com a samaritana, narrado em Jo 4,5-42, é um marco nas formas surpreendentes, relatadas na Bíblia, com que Deus Se torna dom para cada homem e mulher.
O contexto desse encontro era desfavorável a qualquer espécie de diálogo. Os judeus não se davam com os samaritanos. Um rabino não conversava com mulheres. A situação conjugal da samaritana afastaria os mais puritanos. No entanto, o gelo dos preconceitos é desfeito pelo intenso calor que leva Jesus a pedir de beber, surpreendendo com uma atitude de aproximação humilde e despretensiosa. Intrigada, a samaritana enceta um diálogo com Jesus que progride numa espiral de revelações que a encaminha, da expressão inicial com que se dirige a Jesus: «Tu sendo judeu», ao anúncio: «Não será o Messias?» De facto, ao escutar e acolher a Palavra de Jesus, na ânsia de resolver de vez o problema da sede, a samaritana acolhe Jesus que revelou ser o Messias, portador de uma água que se torna, para os que O acolhem, «nascente que jorra para a vida eterna». Não foi um encontro fortuito.

«Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece acolhimento, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil», diz o Papa Francisco, na sua mensagem para a Quaresma, intitulada «A Palavra é um dom. O outro é um dom.»
O texto evangélico que o Santo Padre escolheu é o da parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31). «Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida.»

Somos desafiados pelo Papa a ver a Palavra de Deus como um dom, a mesma Palavra que fez todas as coisas, confiando ao Homem toda a criação para que a “subjugasse”. A expressão que o autor sagrado usou, em hebraico, significa dominar com respeito, cabendo ao homem e à mulher, que têm um lugar único no seio de toda a criação, o dever de zelarem por ela que é a “nossa casa comum”. Para que isso aconteça, devem começar por garantir a harmonia e a paz entre os seres humanos, como afirma o Papa na Encíclica Laudato Si, no n.º 229: «É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. […] Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por nos colocar uns contra os outros na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.»

Lázaro é “o outro” que é dom, porque nos dá a oportunidade de respondermos com obras de misericórdia, a par da oração e de formas de penitência, à pergunta que o Senhor nos faz sobre o estado do nosso próximo. Assim cresceremos no diálogo e na comunhão com Ele, que não deixará de nos surpreender com a sua resposta, podendo, então, ver o jejum e as orações atendidos (Is 58,7-10), porque o coração se torna dócil e atento à intervenção divina.

Acolhendo a Palavra como dom, saberemos adequar a nossa atitude de vida aos desafios do Evangelho. Seremos mais corajosos e humildes na partilha do que adquirimos; mais ousados, sem subserviências, no apelo, aos cristãos mais abastados, a partilhar os seus bens. Conseguiremos, assim, sair de um certo comodismo, pautando o nosso comportamento por uma maior disponibilidade e prodigalidade no auxílio aos necessitados ou às carências mais urgentes das nossas comunidades, evitando que sejam constantemente os mesmos a abrir as suas portas: os mais pobres, que, sempre generosos e disponíveis, não hesitam em repartir o que mais falta lhes faz.