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Amoris Laetitia dá «oportunidades para inculturarmos a fé»
02.06.2016
Os bispos africanos estão muitos satisfeitos com a mais recente exortação do Papa Francisco. D. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, esteve em Abuja, a capital da Nigéria, a discutir com os bispos desse país a exortação “Amoris Laetitia”, em particular o seu ponto 3, onde o Papa Francisco defende que «na Igreja é necessária uma unidade de doutrina e de prática, mas isto não impede que existam diversas formas de interpretar alguns aspetos da doutrina, ou algumas consequências que decorrem dela. […] Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, «as culturas são muito diversas entre elas e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado», pode ler-se no ponto 3.


Sobre esta matéria, o arcebispo de Freetown, na Serra Leoa, D. Charles Tamba reconhece que «ficou na dúvida» quando leu o documento pela primeira vez. «Fiquei a pensar se não estaríamos a seguir por uma estrada de relativismo e de falta de ética», declarou ao sítio web do Conselho Pontifício para a Família. «Depois, ao ler com mais atenção, percebi que o que nos fala é de irmos mais ao fundo da missão que Cristo nos confiou e de nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo».

É que, diz o prelado, esta autonomia local não significa decisões tomadas de forma isolada. «Quando uma igreja local propõe uma solução para um problema no matrimónio, discute-se o assunto com os outros da mesma conferência episcopal, que também conhecem a realidade, não é algo que se faça isoladamente. Por isso, não há risco de relativismo moral. Para além disso, há uma hierarquia de verdades na Igreja que é intocável, e essas eu não posso dizer que ensino de maneira diferente na minha paróquia», diz D. Charles Tamba.
Para este bispo, a grande vantagem é a possibilidade de «adaptação» das questões pastorais. «Nós, bispos africanos, sempre pedimos a oportunidade de inculturar a fé. E acho que o Espírito guiou o Papa Francisco para que nos permitisse sermos criativos no processo de inculturação. Não apenas na tradução de hinos, mas também noutras questões pastorais, podermos ser mais criativos, sempre num diálogo com as outras igrejas», referiu.

D. Ignatius Kagaima, presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, também esteve no encontro e refere que esta exortação é um «texto inspirador». «Há muitos assuntos que nos dizem respeito, e com este livro como manual nas nossas mãos, não podemos errar», diz.
 
O prelado nigeriano considera que as «raízes culturais» das famílias africanas estão a «sofrer erosão com a globalização e a influência do Ocidente», e destaca a poligamia como uma dos principais problemas que têm de enfrentar. «Vivemos lado a lado com muçulmanos, que têm 3 ou 4 mulheres, e isso influencia os cristãos, que também vão viver em união poligâmica, e isso é um problema. Tentamos abrir as portas a todos, porque o Papa nos pede, e esperamos que, através da catequese e da aproximação comunitária, eles se possam reaproximar», refere o bispo.
 
D. Tamba Charles, por seu lado, destaca o problema do acompanhamentos dos casais nos primeiros anos de matrimónio, assunto que também vem referido na exortação. «Quando um sacerdote se ordena, não o “atiramos” logo para uma paróquia, pomo-lo sobre a orientação de um sacerdote mais experiente. Um jovem advogado também aprende com um mais experiente quando termina o seu curso. E é isto que a Igreja quer que façamos: acompanhar os casais jovens nos primeiros anos da sua vida matrimonial. Talvez com a ajuda daqueles cujos casamentos tiveram sucesso e podem ser modelos para esses jovens», referiu.


D. Vincenzo Paglia lança questões para reflexão local
Na sua intervenção perante os bispos nigerianos, D. Vincenzo Paglia, no entanto, foi mais longe. «As ameaças à família hoje na África são muitas: a dissolução da moral, atentados à unidade do casamento; o afrouxamento dos laços entre os membros da família; a proliferação de uniões de facto, mas também a pobreza, o desemprego crescente que não permite aos pais assumirem adequadamente as suas responsabilidades. Qual é a via nigeriana, africana para responder a tais decisivas questões?», perguntou.

O responsável do Vaticano pela área da família refere que a «sociedade africana atravessa um tempo de profunda e rápida transformação», e por isso lança mais perguntas: «Permanece aberto o tema da consideração da mulher na sociedade africana, da violência e da opressão nos seus confrontos. Em termos pastorais nos perguntamos: como ajudar os nossos homens para serem bons maridos, pais melhores? Como apoiar os homens africanos a assumir plenamente as responsabilidades derivadas do cuidado da família? Como ajudar os pais a encontrar um caminho para a educação e amadurecimento dos seus filhos num contexto de modernidade e globalização onde os desafios são muitos e novos comparados ao mundo fechado de apenas vinte anos atrás?», perguntou aos bispos.
Questões que os bispos ouviram e refletiram, sem apontar ainda caminhos de resolução.

A visita de D. Vincenzo Paglia, segundo o sítio Web family.va, concluiu-se com uma ida a um campo de refugiados perto da capital Abuja, onde o prelado, acompanhado pelo cardeal Onayekan e os líderes da comunidade islâmica, entregou, em nome do Papa Francisco, uma primeira parcela de ajuda humanitária a um grande grupo de famílias de refugiados que fugiram de áreas onde o terrorismo é galopante.



 
Texto: Ricardo Perna (com family.va)
Fotos: family.va
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