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Arte e Fé voltam a juntar-se na Bienal de Veneza
20.03.2018
O Vaticano apresentou o seu Pavilhão para a Bienal de Arquitetura de Veneza, que irá decorrer em maio próximo. Depois de duas participações na Bienal de Arte, chega a vez da presença na Bienal de Arquitetura. «No último século, ocorreu um divórcio horrível entre arte e fé. Sempre foram irmãs», disse o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, na conferência de imprensa que serviu para apresentar o pavilhão da Santa Sé no certame.

 
Devido a essa separação, continuou o cardeal, «adaptámo-nos ao horrível que se instalou nos novos bairros urbanos das periferias, com os seus esquemas agressivos de arquitetura, que criaram modestos edifícios que estão despidos de espiritualidade, beleza ou de encontro com as novas linguagens arquitetónicas que entretanto estavam a ser criadas», explicou.
 
Foi por isso, para reencontrar a «sintonia» entre «o teólogo e o artista»,  que a Santa Sé fez este esforço para levar a cabo este projeto. Um projeto que contará com a presença de um português, Eduardo Souto Moura, um dos dez arquitetos convidados para elaborar uma das capelas.
 
D. Carlos Azevedo, bispo português que integra o Conselho Pontifício para a Cultura, falou em exclusivo à Família Cristã sobre esta participação da Santa Sé na Bienal de Veneza, e sobre o facto de um dos dez arquitetos ser português. «A escola de arquitetura de Portugal afirmou-se internacionalmente já várias vezes, e portanto quando os comissários de uma exposição de arquitetura olham para o panorama internacional, seria uma negligência esquecer Portugal, e daí convidarem um arquiteto português de nome internacional para estar presente», afirmou.
 
As capelas, em si, serão construídas em tamanho real, e as pessoas poderão entrar, refletir e experimentar a sensação do divino. «A exposição da Santa Sé vai ser montada numa ilha, no meio de um espaço verde. Isso favorece o parar, porque é num bosque e isso ajuda as pessoas a percorrer os lugares. Não há concorrência de outras coisas, pelo que penso que será uma boa ocasião para o confronto do grande público com a arquitetura contemporânea para uma igreja», afirmou.


 
Mudar os «arquétipos» para «aceitar a expressão do contemporâneo»
É hábito ouvirmos muitas vezes que as referências das pessoas no que diz respeito à arquitetura religiosa estão radicadas no passado, nas grandes igrejas, nos grandes estilos que marcaram a história da Igreja. Mas D. Carlos Azevedo refere que é importante que todos percebam que a Igreja não tem estilos. «Alguns prendem-se pensando que o estilo barroco é que é, ou o neogótico, mas a Igreja falou sempre a linguagem do contemporâneo, da época, e transmite sempre a “Alegria do Evangelho”, para usar a expressão do Papa Francisco. Transmite-o no tempo e na linguagem do contemporâneo», referiu, acrescentando que é preciso «educar o gosto pelo contemporâneo».
 
Um dos esboços do projeto do arquiteto Souto MouraFoi também por isso que a Santa Sé embarcou nesta «aventura», explica o prelado português. «É um investimento grande, do ponto de vista económico, e felizmente Portugal também deu o seu contributo [a Sociedade Francisco Manuel dos Santos é uma das patrocinadoras do pavilhão], mas é uma aventura pesada, porque todos sabem que, neste momento, o mecenato cultural está muito difícil. Mas não deixámos de marcar a qualidade que hoje se exige para a construção de um espaço litúrgico. Não pela pompa da construção, e dos gastos, que seriam um atentado às necessidades gerais do mundo, mas sobretudo pela qualidade simples dos espaços, mas belos. Qualidade estética, apesar da simplicidade. Continua a ser necessário para o povo de Deus ter lugares belos para afirmar a sua fé, e encontrar também muitas vezes a coesão que em bairros e em cidades não encontra em mais lado nenhum. Ter um espaço, um lugar de referência que unifique as pessoas, porque não apela para interesses, mas para Deus, continua a ser fundamental para marcar as nossas cidades», sustenta D. Carlos Azevedo.
 
Espaços estes que, quando acolhidos pelas pessoas, proporcionam experiências de «silêncio» e de «sair de si mesmo e encontrar-se com o outro». «Quando as pessoas vão a estes espaços e se desprendem e aprendem a linguagem do contemporâneo, começam a sentir-se bem e a sentir que esses espaços proporcionam silêncio, sair de si mesmo e encontrarem-se com o outro. Estas experiências de sair de si e encontrar espaços diferentes, mas que são tocados pela beleza e por isso são capazes de ir ao centro da alma. Os espaços são uma linguagem, como a música e as palavras», conclui.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e maquetes do Conselho Pontifício para a Cultura
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