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«As comunidades precisam de ver que os jovens existem»
11.01.2018
O Pe. Filipe Diniz é o novo diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil (DNPJ). Em ano de Sínodo dos Jovens, fala à FAMÍLIA CRISTÃ sobre este desafio que agora tem, com a experiência já adquirida de alguns anos a trabalhar com jovens na diocese de Coimbra.

 
Como é que olha para este desafio que lhe colocaram?
Com um sentimento de humildade, de aceitar este desafio com humildade, como cristão, como alguém para quem esta não é uma realidade nova. Este desafio com os jovens transmite-nos sempre qualquer coisa, estamos sempre em novidade e isso exige muito da minha capacidade de estar sempre em novidade.
Assumir este organismo nacional em que o mais importante é o jovem tem vários desafios. O primeiro objetivo, e já o comecei a fazer, é o contacto com cada realidade do nosso país, com cada secretariado. Utilizamos métodos de trabalho diferentes, somos diferentes, o nosso país é belo por essa diferença, e a partilha das diferentes realidades vai-nos levar a um novo estilo. Quero receber um bocadinho de cada e assim pensar num projeto futuro. Aquilo que nos une é o aspeto juvenil nesta Igreja de Jesus Cristo. Formas e métodos diferentes, mas é isso.
 
A sua experiência no Corpo Nacional de Escutas (CNE) mostra-lhe uma realidade juvenil que tem dificuldade em integrar-se na vida comunitária. Como é que se consegue manter a individualidade dos grupos e ao mesmo tempo conseguir integrá-los na dinâmica pastoral das comunidades?
Eu não pinto essa realidade de uma forma tão negra. É preciso que a comunidade paroquial tenha a noção do que é aquele movimento, seja ele qual for, a sua espiritualidade e carisma. Da parte dos movimentos, devem ter noção, através do seu carisma e espiritualidade, de que a Igreja não é uma “comunidadezinha”, ou o “meu” movimento, mas sim eu estar inserido na Igreja local, em contexto paroquial, em estreita ligação com o pároco ou a diocese. Eu acompanho o CNE como assistente regional e uma das minhas preocupações que vou sempre fazendo referência aos chefes de agrupamento é que se envolvam, que não se instale o separatismo, mas que haja espírito de comunhão e relação com o pároco, que não sejam um movimento à parte, e pelo que vou ouvindo não vejo uma distância grande, vejo muita proximidade nas comunidades.
 
Mas o escutismo, mesmo assim, tem uma base paroquial, o que facilita a integração. Muitos movimentos, pelo contrário, não têm e congregam jovens de várias paróquias. Como é que se trabalha com esses movimentos transversais a várias paróquias?
É importante que os responsáveis dos movimentos tenham o discernimento de tornar claro nos jovens de que isto não é uma Igreja minha, e que o movimento é melhor que a paróquia. Às vezes, as paróquias não oferecem caminhos, e o que se faz é levar os jovens todos para um movimento que ofereça possibilidades para os jovens. Mas isso é um risco, porque depois os movimentos têm de andar a cuidar dos seus, e vivemos tão preocupado em criar dinamismos nos nossos movimentos que depois esquecemos o sentido paroquial. É verdade que o contexto paroquial vai ter de mudar, e há locais onde as paróquias já não têm dinamismo. Os movimentos têm de ter esta capacidade de partilhar, de ir ao encontro dos párocos e dizer “olhe, nós somos o movimento X, temos estes jovens das suas comunidades”, e dar-se a conhecer, em vez de ficar à espera que o padre, inserido em mil e uma coisas, venha saber coisas deste movimento. Tem de haver um bocadinho de parceria e relação entre os movimentos e as realidades paroquiais. Porque depois andamos todos preocupados que andamos a “roubar” jovens uns aos outros, e isso é muito mau.
 
E os párocos, estão disponíveis para fazer esse caminho de acolhimento, ou levantam muitas resistências?
Sim, e isso é o mais difícil. Nós temos um conceito muito individualista da nossa comunidade. Dizemos “os meus jovens, os meus catequisandos”, e enquanto pensarmos isso, ficamos melindrados quando os “nossos“ jovens vão para este ou aquele movimento, mesmo que, na verdade, na comunidade não ofereçamos nada para eles.
É preciso abrir muito as perspetivas. Se não forem os grupos de jovens nas comunidades, estas daqui a uns anos serão um deserto. Mas temos de ter consciência que as comunidades do interior do país têm cada vez menos jovens, porque eles saem e já não voltam, e isto origina frustração e tristeza nos párocos. Há realidades em que os párocos colocam as mãos à cabeça, e há muita desilusão, muita frustração nos párocos mais velhos, que se entregaram às comunidades e veem a realidade mudar imenso, sem que possam fazer nada. Isto obriga a um discernimento, e estes desentendimentos que existem não são nada bons.
 
Há quem ache que esta geração de jovens está afastada da Igreja e não volta, e outros que acham que eles apenas precisam da proposta certa e aderem… o que acha?
Bom, eu não tenho propriamente uma teoria acerca disso [risos]. Eu falo por mim. Há muitos jovens que, quando vêm um padre num contexto diferente, de lazer, questionam: «mas este é padre?», ou «tu vais a outras atividades com o Sr. padre?»
Para nós, o rosto do padre ainda é uma referência. Hoje em dia, temos leigos muito verdadeiros, e com um espírito de Igreja fantástico, mas o padre ainda é a referência e passa testemunho. Mesmo com os jovens, eles questionam e estão recetivos. Na minha opinião, precisamos é de uma Igreja, ou de rostos na Igreja com visibilidade que estejam mais fora, porque, do que vou sentindo e partilhando, se formos fazendo isto, muitos vêm e ficam sensibilizados.
Mas será que se cuida do adro da Igreja? Será que o padre tem tempo para estar no adro da igreja, para falar com as famílias, de estar com elas? Quantas vezes é que eu me faço de convidado para ir a casa de uma família? Ou quantas vezes é que eu acompanho os jovens numa festa, num evento, enquanto amigo de outros jovens? É que apresentar o padre como um amigo vai levar a que cheguemos a outros jovens, seus amigos.
Temos de trabalhar ad intra, mas também ad extra, para que outros sintam o nosso testemunho.

 
Uma das questões que levantava é o que é que as paróquias têm para oferecer aos jovens. No fim da catequese faz-se o Crisma e vão embora, porque as paróquias não têm ofertas...
Não existem muitas respostas. Temos o formato de grupo de jovens, por onde pode continuar, ou eventualmente outro movimento que haja, mas penso que esse deve ser um dos grandes objetos de reflexão que a Igreja deve fazer, porque há muito pouco para além do Crisma. Mesmo a perspetiva do sentido do processo de catequese, é um processo quase escolar, em que se chega ao final do percurso e “toma lá o sacramento, estás crismado”. Isto está errado, mas acontece. E muitos estão cansados logo durante o tempo de catequese, e andam tão obrigados que depois saem quando acaba. É preciso que o jovem, depois de um processo de Crisma, chega ao final e diz “Ok, eu sou cristão, acredito em Deus, e quero fazer caminho”. Teria de haver um bom grupo de jovens que o auxiliasse a fazer caminho, que as comunidades paroquiais criassem formas de os acompanhar e envolver, torná-los mais participativos e participantes, assumir responsabilidades… há tanta coisa que eles podem seguir, e eles continuam fechados no seu grupinho, sem visibilidade.
Os jovens têm de fazer mais, não para serem vistos, mas para serem testemunhas vivas diante das comunidades. As comunidades precisam de ver que os jovens existem, estão lá, dão nas vistas no bom sentido. Fazerem parte do grupo paroquial, fazer leituras… o que por vezes é difícil, em virtude do problema geracional, que dificulta. Aquele coro que sempre foram os mesmos, e depois vem lá aquele jovem cheio de coisas novas…
 
Faria sentido que o Crisma deixasse de ser o ponto final no percurso catequético, que fosse dado mais cedo, e assim o jovem percebesse que não acabava ali o seu percurso?
É sempre complicado colocar o Crisma como uma parte da formação. Eu preferia que o Crisma fosse num momento em que o jovem, depois da sua caminhada ou num dado momento, numa etapa final em discernimento, até poderia dizer que não se sente maduro para receber. O Crisma não devia fazer parte dos anos de catequese, devia ser quando o jovem e o seu catequista entendessem que ele estava preparado. Para mim é muito difícil dizer onde colocar, mas devia ser um momento em que seria uma formação à parte, onde poderíamos ter jovens com 13 ou 14 anos, e outros com 20 ou mais, porque chegaram ao final da sua etapa.
 
Daqui a três anos, o que é que gostaria que a Pastoral Juvenil tivesse crescido?
É uma boa pergunta [risos]. Confesso que ainda não pensei nisso, mas falando a mais longo prazo, gostava de ter um bom espírito e de ter uma boa equipa de responsáveis dos secretariados diocesanos de pastoral juvenil, em ligação com o DNPJ. Isso é algo que me toca profundamente. Mais vale ter uma boa equipa, do que cada um trabalhar por si. Depois, três anos é muito pouco, e quando dermos por nós já lá estamos, e há muito projeto que terá de ser bem pensado, mas gostava que, depois deste trabalho em conjunto, possamos ter um subsidio qualquer que fosse lançado para os jovens, criar parcerias com algumas entidades para podermos fazer um trabalho juntos, acho que isso é extremamente importante, e tornarmo-nos uma igreja mais viva e em comunhão.
 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna
 
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