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As grandes impotências mundiais
27.02.2017
Alepo, no desmoronar de uma cidade e de um povo, foi um dos exemplos mais tocantes do último ano. Todos os dias víamos a mesma imagem: bairros sem uma casa inteira, crianças e velhos a fugirem sem saber para onde, nuvens de fumo negro a sufocar tudo e todos, bombardeamentos frios e cruéis sobre inocentes.



O assunto cansou a comunicação social. Morrerem mais cinquenta ou cem já era uma não-notícia. Nos telejornais do jantar, as consciências já não estremeciam, os políticos estavam ocupados com os problemas do seu país e do seu partido. Os narradores – os jornalistas – também sofreram grandes baixas. Era inútil e incómoda a sua presença, pois grande parte dos políticos e dos cidadãos em geral não queria saber de uma guerra que não lhe pertencia e que só incomodava com notícias ensanguentadas a hora do jantar. Para agravar, havia outros pontos de tensão e guerra no mundo: bombas, atentados, atos terroristas de toda a ordem. De Roma, da sua pequena capela na celebração da Missa da manhã, continuava Francisco a falar aos seus “paroquianos” contra essa e outras guerras, pedindo pela paz. Num tom que se repercutia pelo mundo fora. Mas nesta matéria era tão venerado como ignorado.

As forças do Ocidente passaram pelo lugar e ofereceram algumas ferramentas, mas não se quiseram demorar em nome da sua paz, cansados do Vietname, do Golfo e do Afeganistão, de África e de outros lugares esquecidos. Os pacifistas ficaram mudos e a legítima defesa media a distância entre o agressor e o agredido. O povo, mesmo sem guerra, estava e está cansado das guerras que todos os dias lhe entram em casa pela janela maior da televisão. Os analistas têm pouco que analisar. Os estrategas ainda continuam a folhear os seus manuais de bem vencer uma guerra que já não é o que era.

Tudo isto apenas para chegar ao estado em que se encontra a nossa consciência perante e guerra, a injustiça, o esmagamento dos mais fracos, a desestruturação do sistema mundial onde se não sabe o que é a ideologia, os continentes, os pactos, as capacidades de diálogo dos senhores do mundo que se sentem ou fazem impotentes perante conflitos que não lhes trazem proveito nem melhoram o seu lugar no xadrez do poder. Sempre foi assim. É uma desculpa para respirarmos por uns momentos e aconchegarmos a consciência na tranquilidade de que não mandamos no planeta e não abrimos nenhuma guerra, além das pequeninas e subterrâneas violências de bairro, intrigas de vizinhança, agressões e calúnias ao nome dos outros, ou mesmo nos benefícios prestados para que revertam em favor do nosso bom nome.

Felizmente que o mundo não começa nem acaba aqui. O terreno da esperança é mais vasto que todos os campos de medo que os espetáculos de guerra nos possam oferecer.
Foto: UNICEF/Zayat