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As Obras de Misericórdia Corporais na primeira pessoa
26.10.2016
A Igreja Católica define como Obras de Misericórdia as «ações caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais». Estes atos de misericórdia para com o próximo são um dever de todos os cristãos, e de todas as pessoas de boa vontade, mesmo não crentes, pois não são ações de devoção, na maioria dos casos.



Durante o Ano da Misericórdia, que agora está a chegar ao fim, a Família Cristã correu o país à procura de pessoas que levassem a cabo as Obras de Misericórdia na sua vida. De propósito, não procurámos sacerdotes ou irmãs, mas sim pessoas leigas, que comprovassem este mesmo princípio e pudessem servir de inspiração a todos os cristãos, que assim perdem a desculpa de “eles são religiosos, têm tempo para isso”.

Seja no exercício da sua profissão, seja no decurso de ações de voluntariado, ou na relação dentro da sua própria família, todos temos oportunidade de levar a cabo estas Obras de Misericórdia.

Neste artigo, damos a conhecer sete exemplos de leigos que levam a cabo as Obras de Misericórdia Corporais, instituídas quase todas por Jesus no Evangelho de Mateus (a última, sepultar os mortos, vem do Livro de Tobias, do Antigo Testamento). Podem conhecer toda a história clicando nos links para cada um dos artigos sobre uma determinada Obra de Misericórdia.
 
Dar de comer a quem tem fome é a primeira Obra de Misericórdia na lista, até porque há poucas mais básicas que comer e beber. Respirar, talvez, mas isso ainda é de borla e não aflige muita gente. Mas comer, e beber, infelizmente não é para todos.
 
Vamos ao encontro de Marta Antunes, 37 anos, assistente social de profissão, que dedica todo o seu tempo livre no Apoio Fraterno da paróquia da Charneca de Caparica, diocese de Setúbal, onde há um ano ajuda na distribuição de cabazes de comida a cerca de 100 famílias. «Ontem [a entrevista foi feita no início de dezembro] fomos visitar dois sem-abrigo que vieram de Lisboa para este lado do rio morar num barracão sem quaisquer condições. Mexe muito connosco olhar nos olhos das pessoas e não precisarmos que elas digam muito, porque nos apercebemos logo da sua situação. Fomos logo fazer um cabaz de emergência, para lhes dar alguns alimentos que permitisse que eles se aguentassem até à distribuição mensal do avio», conta.
 
Estes agentes da misericórdia agem não por eles, mas por Deus, embora as recompensas, essas, fiquem para quem pratica a misericórdia. «Sinto que é por Deus que faço isto. Enquanto voluntária, é dessa forma que penso e trabalho diariamente. Esta é das obras de misericórdia mais elementares e talvez, pode ser pretensão minha, aquela que mais bem-estar e conforto me proporciona também a mim», confessa esta leiga.
 
Mas como só nem só de pão vive o homem, dar de beber a quem tem sede é tão importante como o ato de comer. Por isso, Fernando Espírito Santo dedicou-se de alma e coração ao projeto Água e Instrução que levou a cabo em Moçambique, em 2007, quando lá esteve ao serviço de uma ONG dos jesuítas de Itália. «A água é um bem primário, essencial à vida. Quando alguém precisa de água e tem de caminhar quilómetros para a recolher, ou recorre a um poço de água imprópria, é porque essa pessoa está desesperada», conta Fernando, que se recorda de como as pessoas reagiam à construção dos poços. «Durante as obras havia sempre muitas pessoas presentes, muitas crianças a acompanhar os acontecimentos. Sempre que era necessária ajuda das populações havia muita disponibilidade para as tarefas. Quando jorrava água pela primeira vez, havia sempre cânticos de alegria», recorda com saudade.
 
Fernando não sabe dizer se era um agente da Misericórdia de Deus, «mas em todos os projetos em que estive envolvido tentava sempre implementar muitas ações, partilhar a água, muitas vezes sem tempo para levantar a cabeça, sempre confiando que Ele é que guiava os acontecimentos, e que garantia que o bem maior estava a ser conseguido», confessa.
 
Embora comer e beber sejam atos essenciais à vida do homem, garantir a sua dignidade é também algo de muito importante. Como tal, vestir os nus foi algo que sempre esteve no pensamento da “jovem” Sílvia Catarino, que, aos 81 anos, está todas as semanas na paróquia de S. Tomás de Aquino, em Lisboa, para acudir a quem lá aparece só com a roupa que tem no corpo. «Às vezes estou na cama, muito aconchegada, e dou por mim a pensar “Meu Deus, há tanta gente que está na rua, sem nada para os cobrir”. É por isso que a questão da roupa sempre foi das principais para mim», confessa esta voluntária, enquanto conversamos na sala de trabalho entregue ao grupo das conferências vicentinas, onde Sílvia faz voluntariado desde que o grupo foi criado em 2009.
 
Sílvia agradece a Deus a oportunidade de ajudar quem precisa. «Digo “Pai, obrigado porque me apareceu esta pessoa para ajudar”. Tanto recebo que tenho essa preocupação de dar uma parte. Fico contente e dou graças a Deus por ter 81 anos e ainda tenho saúde para andar por aqui», afirma.

Marta Antunes, Sílvia Catarino e Fernando Espírito Santo em ações de Misericórdia.
 
Peregrinos, doentes, presos e mortos: todos merecem a Misericórdia de Deus
 
A Obra seguinte nada tem a ver com estas. Dar pousada aos peregrinos é uma obra tornada realidade pela Fernanda e a sua família que, há 15 anos, acolhem peregrinos do Caminho de Santiago em sua casa, em Vitorino de Piães. Chegados de uma longa jornada, os peregrinos tomam banho, comem, descansam e partilham o dia. «A partilha é a parte mais importante. Aqui somos uma família, nem que seja só por uma noite», explica, enquanto estamos sentados no alpendre do anexo que construiu nas traseiras da sua casa para acolher os peregrinos.

Quando perguntamos se se sentem agentes da misericórdia de Deus, Fernanda conta um episódio curioso. «Eu devia ter sete ou oito anos quando vi pela primeira vez um peregrino de Santiago. Era um verdadeiro peregrino, com roupa velha e o cajado aos ombros com um farnel na ponta. Pensei: “Onde é que este homem vai assim, sozinho, a meio da noite?”, e tive pena dele. Acho que esse foi o primeiro sinal que Deus me deu desta missão», diz.
Tudo isto por amor a Deus. «O que nos une é o amor, e é o que eu digo muito aos peregrinos, muitos deles sem fé ou de outra religião. Isso é o mais importante, e se amarmos o outro, estamos a louvar a Deus», diz.
 
Mas há aqueles que não caminham, antes ficam em casa por estarem doentes. Visitar os doentes torna-se também um importante Obra de Misericórdia, levada a cabo por Rui Franco, da paróquia de Santa Isabel, em Lisboa. Quando ficou reformado, resolveu fazer algo mais pelo próximo. «Estava reformado, e precisava de me ocupar, e como toda a vida tive esta preocupação com o próximo, assumi este [compromisso]», conta. «Sinto que sou agente da misericórdia de Deus, porque a alegria com que eles me recebem, e o que partilham comigo, hoje sobretudo a Ana, faz de mim um elo de apoio muito grande para ultrapassarem as dificuldades. Ela mesma diz que desde que os visito que é um ar novo que vai ali a casa, assim como o ministro da comunhão que lhes vai levar a comunhão, que passou a fazer parte da vida deles», explica o Rui, que leva a cabo esta obra de misericórdia por uma questão de vocação. «Deve haver um esforço de praticar todas as obras de misericórdia, mas praticamos com mais intensidade aquelas com as quais sentimos mais vocação», afirma.
 
Mas nem só os doentes precisam de visitadores. Também é preciso visitar os presos, tarefa à qual se dedica Armando Toscano, que não se sente um agente da misericórdia de Deus, mas sim um veículo dessa mesma misericórdia. «Não me sinto agente, mas sei uma coisa: quando começo a falar sobre um texto bíblico, as palavras vêm-me sem eu ter necessidade de pensar nelas. Sou antes um veículo da misericórdia de Deus, mas um veículo muito fraco, sem as quatro rodas e o motor avariado», conta, entre risos.
 
São já anos dedicados aos presos, com histórias que tocam quem torna viva esta obra de Misericórdia. «A parte que deslumbra mais quem visita os reclusos é que a presença de Deus é muito real ali», sustenta. E também aqui, como noutras obras de misericórdia, se recebe muito mais do que se dá. «O que se ganha na prática de uma qualquer obra de misericórdia é uma perceção muito viva e concreta do que é o amor de Deus na nossa vida, porque recebemos mais do que damos», confirma.

Rui Franco, Fernanda, António Balcão dos Reis e Armando Toscano são voluntários da Misericórdia de Deus.
 
A última Obra de Misericórdia corporal é a única que não permite um contacto físico entre quem a pratica e quem a recebe. Por isso, enterrar os mortos assume uma peculiaridade própria, principalmente quando se acompanham pessoas que não têm ninguém nesta terra que os queira acompanhar.
 
É essa a tarefa de António Balcão dos Reis, de 77 anos. «Eu aderi a esta obra de misericórdia porque a todos nós já aconteceu estar na rua e ver uma carreta a passar sem ninguém atrás, às vezes sem uma flor sequer. Isto mexe connosco, e a mim tocou-me. Quando me reformei, colocaram-me esta questão, e eu disse que também queria ir. Se eu sentia isso, era lógico tentar impedir que essa situação se reproduzisse», conta-nos.
 
Outras pessoas, conta, têm motivações diferentes. «Alguns não conseguiram enterrar os seus familiares, pois o corpo só foi descoberto anos mais tarde, outros já enterraram filhos e sentem-se realizados acompanhando estes que ninguém quer… as motivações dependem de cada um, e as recompensas que cada um retira de fazer esta obra de misericórdia são também muito pessoais», explica.
 
Sente-se um agente da misericórdia de Deus, embora o título o “assuste” um pouco. «Bom, quando põe as coisas dessa forma fica mais estranho… (risos), mas sim, sinto que levo a misericórdia de Deus, pois tenho o desejo de, com este gesto, a colocar em ações concretas», defende.
 
Sete Obras de Misericórdia, tornadas reais por sete pessoas no quotidiano do seu dia a dia.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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