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«Pessoas traficadas passam por torturas desumanizantes»
07.02.2017
Gabriela Bottoni é missionária comboniana e há dois anos que coordena a Rede Internacional da Vida Consagrada Comprometida contra o Tráfico de Pessoas (Talitha Kum). Esteve em Portugal para um seminário e deu uma entrevista exclusiva à FAMÍLIA CRISTÃ.
 Foto: Talitha Kum
O que é o tráfico de pessoas?
– É a mercantilização da vida, as pessoas tornam-se objetos de lucro de pessoas que não têm escrúpulos e acontece a partir de três elementos: um ato, um meio e uma finalidade. Os atos podem ser recrutar, transportar, alojar. Os meios podem ser a fraude, o engano, o rapto, o abuso de autoridade. O que eu acho que o muito importante é que a finalidade é a exploração. A exploração que pode acontecer para a exploração sexual, que é muito mais do que a prostituição, é a exploração laboral em diferentes áreas e setores da economia, servidão doméstica, tráfico de órgãos, pode ser a mendicância – pessoas que são exploradas para pedir esmolas – e há o tráfico para fins criminosos como os meninos soldados ou mulheres e homens obrigados a transporte de droga sob ameaça, ou o casamento forçado. Temos também alguns casos de mulheres traficadas para serem usadas como barrigas de aluguer. Dessa pequena listagem de formas de exploração dá para perceber que o tráfico de pessoas é muito amplo e as formas de explorar o corpo e a vida são muitas. No final o que conta é o dinheiro que a exploração da vida pode produzir. Continuamos tendo uma percentagem maior de mulheres e meninas.

Qual é o trabalho concreto da rede internacional?
– O tráfico de pessoas é uma realidade altamente complexa. Em alguns casos, também nos deparamos com ações de organismos criminosos que, através da corrupção, têm uma grande capacidade de penetração nos organismos que deveriam, pelo contrário, combater as organizações criminosas. A nossa ação é principalmente de prevenir, sensibilizar, ajudar as pessoas a abrir os olhos e ver que a realidade do tráfico muitas vezes acontece ao nosso lado e não conseguimos ver.
Ainda agora aqui em Portugal no final do seminário alguém dizia: «Puxa vida, mas tem aquela menina que pede esmola na frente da Igreja. Tem algo de esquisito porque tem sempre alguém controlando essa menina.» As pessoas percebem que acontece mais próximo do que pensamos.
O segundo trabalho é colocar em rede quem já vem trabalhando nessa área e não deixar essas pessoas sozinhas, seja quem trabalha no atendimento direto às vítimas seja quem trabalha na prevenção, porque através da prevenção entramos em contacto com os casos reais do tráfico. É um crime que precisa de juntar as forças de toda a sociedade, todas as forças de boa vontade.

Como fica uma pessoa que foi ou é vítima de exploração?
– O problema do tráfico é que cada realidade é diferente. As pessoas que passaram pela experiência do tráfico passaram por torturas desumanizantes. São feridas profundas que magoam e deixam rasto para a vida. Em alguns casos é muito difícil. Vamos pensar na servidão doméstica. Essas pessoas são invisíveis, estão dentro das casas das pessoas, é muito difícil de as encontrar. Há pessoas que se encontram em posições privilegiadas, por exemplo, na saúde: quando chegam mulheres que sofreram violência sexual ou física, tentar entender o contexto de onde isso aconteceu. Ou grupos que trabalham com mulheres prostituídas ou exploradas sexualmente, aproximarmo-nos mais para perceber qual foi o caminho. Pessoas que trabalham com migrantes também, porque muitas das pessoas vêm exploradas durante a viagem ou quando chegam. São exploradas no trabalho e na prostituição, mas eu vejo «migrante».

Foto: UNICEF Uma das coisas de que se fala, e a UNICEF vem denunciando, é que, na Europa, há crianças refugiadas obrigadas a prostituir-se, a roubar, etc. Tem experiência disto?
– Isso é real. Algumas irmãs estão no desembarque acolhendo as pessoas. Têm trabalho nas ruas, porque muitas pessoas são aliciadas e recrutadas para exploração sexual, quando não desaparecem para outros cantos. Mas eu vou dizer a verdade: a questão é tão complexa e são muitos os migrantes que estão chegando que mais do que uma irmã que trabalha na Sicília diz: «Vemos as meninas que são levadas diante dos nossos olhos e temos uma grande impotência.» Devia haver um maior compromisso do Governo italiano e dos outros para garantir uma vida de dignidade a essas pessoas.

Participou num seminário aqui em Portugal. A realidade espantou-a?
– Fiquei não tanto espantada, mas impressionada em ver o espanto das pessoas que participaram que não esperavam que o tráfico de pessoas existisse aqui. É um sinal que chama a atenção e convida a sociedade civil portuguesa a querer e a pedir mais informações. Como o Papa Francisco diz, o tráfico de pessoas é um crime contra a humanidade. Não é um crime que afeta só aqueles que estão longe de nós. É um crime que afeta toda a humanidade. Todos somos feridos e atingidos.

– A que sinais é que as pessoas comuns devem estar atentas para poder detetar casos de tráfico? As tais antenas?
– Por exemplo, aquilo que deveria envolver mais as pessoas aqui em Portugal é desconfiar de propostas de trabalho que oferecem muitas coisas. Pesquisar se aquele trabalho tem garantias de verdade. Ter cuidado também com os meios de comunicações sociais. Os pais terem cuidado com os contactos e alertar os filhos para que pessoas desconhecidas podem entrar no chat, no facebook, podem querer marcar encontros. Avisar os filhos para não irem sozinhos, para que possam proteger-se. Não é criar medo e cortar todos os espaços relacionais, mas oferecer garantias de segurança, sobretudo de crianças e adolescentes.

– O que a tem marcado mais neste trabalho?
– Na última viagem que fiz à rede de Talitha Kum nas Filipinas, visitámos um centro de crianças vítimas de tráfico para fins de exploração sexual, sobretudo o cibersexo. É exploração que acontece em frente a uma câmara, que pode acontecer num quartinho e ao lado de casa, é muito fácil de se realizar e é seguro para os traficantes.
As crianças são chamadas a exibir-se frente a uma câmara de computador e a ouvir o que dizem do outro lado, pagando. A exploração é muito real. É muito difícil de ser identificado. Mas pode ser e estas meninas foram resgatadas. A criança mais pequena tinha dois anos e tinha sido resgatada com pouco mais de um ano de idade. Ela tinha sido explorada sexualmente via streaming, mas não significa que seja virtual. A exploração é real. Isso marcou-me muito. Marcou-me muito porque nós como humanos devíamos cuidar das crianças, cuidar dos outros. Nós, entre os animais, somos aqueles que não conseguimos ser autónomos logo depois de nascer. Precisamos de desenvolver essa atitude diante das criancinhas para proteger a vida, para que haja um futuro, e aquilo que me marcou muito foi mesmo isso. Como é possível?! Temos de parar para tomar consciência e para mudar, transformar aquilo que está a destruir-nos.
A nossa sociedade criou-nos a ilusão de que com o dinheiro podemos tudo e que o bem-estar se tornou o centro das nossas relações e aquilo que manda, digamos assim. Temos de resgatar outros valores que são os valores das relações humanas, os valores da alteridade, da amizade, construir confiança entre pessoas, esse apoio que é aquilo que nos faz sentir vivos e dá sentido à nossa vida. Talvez seja a melhor forma de combater o tráfico, porque os traficantes conseguem entrar nesses sonhos de consumo, nesse desejo/ganância do dinheiro e do prazer que de facto nos tornam uma sociedade de escravos.
 
Entrevista conduzida por Cláudia Sebastião
Fotos: Cláudia Sebastião


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