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Paralímpicos: quando a deficiência não interessa nada
01.09.2016
À chegada ao Centro Hípico da Costa de Estoril, vê-se logo o local onde Ana Mota Veiga treina, fazendo círculos com o cavalo. O treinador Hugo Serrenho vai dando indicações. Quem a vê em cima do animal não adivinha qualquer deficiência. Ana Mota Veiga nasceu com paralisia cerebral. Usa muletas para se apoiar. Mas, no Centro Hípico, move-se sem elas, deixando-as encostadas junto às cavalariças. Nota-se que está em casa. «Tenho algumas limitações, mas as coisas acabam por se adaptar e faz-se tudo na mesma», diz com um sorriso. Aliás, o sorriso há de marcar toda a conversa.
Ana tem 42 anos e trabalha como audiologista nos serviços médicos da TAP. A relação com os cavalos começou muito cedo. «O médico aconselhou a fazer hipnoterapia quando era muito pequenina, quase desde bebé. Primeiro comecei na Serra da Estrela com um cavalo que a minha mãe comprou. Depois comecei a montar com vários cavalos em aulas. E fui tendo vários. O último morreu no ano passado.»
 
A estreia nos paralímpicos
Ana é uma estreante nos Jogos Paralímpicos, na modalidade paradressage. «É dressage adaptada para pessoas com algum tipo mobilidade reduzida. Basicamente é fazer um percurso previamente delineado que o cavalo tem de desenhar: se é um círculo de 10 metros, é de 10. Se for de 9, já há uma penalização. Tem de parar exatamente no sítio x, com a devida atitude. Tudo o que sair mal feito tira pontos. É muito complicado.» Cavalo e cavaleira são uma equipa. Quando o seu cavalo morreu, Ana ficou a zero nos rankings, como mandam as regras. A um ano dos Jogos, Ana achou que já não conseguiria o apuramento. Mas Convicto, o seu novo cavalo, acabou por surpreender. «Tem de haver harmonia entre os dois. Não se treina, ganha-se.» Mas como se ganha harmonia com um cavalo? Ana Mota Veiga explica, como se fosse fácil: «É tratar dele, passar tempo com ele, deixar que ele nos conheça.» A cavaleira fala enquanto faz festas ao cavalo. Fala-lhe como a uma criança. O treino acabou por agora.
Ana e Convicto treinam sábados, domingos e feriados. Apurar-se para os Jogos Paralímpicos não foi fácil. «O apuramento foi muito difícil, foi até à última. Tem de se fazer provas a nível internacional. Como cá em Portugal não há provas de paradresssage implica ir lá fora fazê-las, o que implica que em termos económicos é mesmo muito complicado.» Ana Mota Veiga explica que uma prova «contando muito por baixo nunca se faz por menos de 5 mil euros com deslocação do cavalo, gasolina e estadia das pessoas».
 
Trabalho árduo compensa
Em abril, Ana soube que iria aos Jogos Paralímpicos. É a quarta vez que Portugal está representado na equitação. Para a cavaleira, «foi uma sensação magnífica. Eu até pensava que já não ia. Mas foi muito bom porque é o trabalho de mais de quatro anos. Eu tentei ir a Londres e não consegui. Dei tudo por tudo, mas foi puxado. Ir foi uma grande recompensa».
A viagem do Convicto até ao Brasil será longa e implica uma grande logística. «Vai até à Bélgica de atrelado. Depois vai de avião, são 12 horas.» No mesmo voo viajam todos os cavalos europeus que participam nos Jogos. Ana teme pela saúde e recuperação do animal. O plano de recuperação está definido: «deixá-lo descansar, ter cuidado para se hidratar bem, beber muita água, andar a passo, para se recuperar bem.»
Ana tem um sorriso contagiante. Em todos estes projetos conta com o apoio da família. A mãe costuma acompanhá-la nas provas para «preparação e apoio psicológico». Ana tem a sua vida organizada e trabalha. Nasceu na Serra da Estrela, onde viveu até ao 10.º ano de escolaridade. Seguiu-se uma passagem pela Guarda, o curso em Coimbra e o trabalho em Mirandela, antes de se mudar para Lisboa. A paixão pelos cavalos é uma constante na sua vida, um apoio psicológico e físico. «Se não tivesse os cavalos, acho que me perdia completamente. Eu não sei ficar em casa ao fim de semana sem cavalos, não dá.»
 
O fim da carreira?
Ao contrário de Ana Mota Veiga, Nuno Alves já esteve em quatro Jogos Paralímpicos. É cego total e participa nas provas de atletismo de 1500 e 5000 metros. «Já estive em nove campeonatos da Europa e nove do mundo. Talvez seja o fim da minha carreira. Ainda estou a analisar a questão.» Já lá vamos, a essa reflexão.
Encontramo-nos no átrio do edifício onde Nuno trabalha, em Lisboa. Dou-lhe o braço até ao café onde conversamos. Quem nos vê pode ter dificuldade em acreditar que ele corre e muito. Tanto que já ganhou várias medalhas em campeonatos mundiais e europeus de atletismo.
Nuno nasceu numa aldeia junto ao Gerês, onde viveu até aos 18 anos. «Uma suposta brincadeira com uma arma de fogo» tirou-lhe a visão. Teve de se mudar para Lisboa e tudo mudou. «Tinha o objetivo concreto de me manter na minha aldeia, Tourém, metida já na Galiza. Queria ficar por lá e dedicar-me à criação de gado que é o que eu gosto, do contacto com a natureza.»
 
Salvo pelo atletismo
Hoje considera-se bem adaptado. Constituiu família, tem um filho com cinco anos e trabalha. Quando vivia na sua aldeia no Gerês, Nuno jogava futebol, trabalhava na agricultura e tomava conta de rebanhos. Uma vida fisicamente muito ativa. A vida em Lisboa era mais «monótona» e precisava de «algo que libertasse adrenalina». Depois de experimentar vários desportos, acabou por se dedicar ao atletismo. A competição chegou depois. «Comecei por conhecer alguns atletas que já tinham ido aos Jogos de Atlanta e Barcelona. Devagarinho vi ali um bichinho. Eles trabalhavam todos os dias e eu comecei a treinar também todos os dias. Não sabia se ia ser atleta paralímpico, mas queria sempre melhorar mais.»
Mas como treina e compete alguém que não vê? Nuno tem um atleta guia, que corre ao seu lado e, por isso, tem de ter a mesma preparação física. «O primeiro desafio é correr lado a lado, passada certa, podemos levar uma correia a ligar mão a mão, mas na prática é para sentir um pouco mais de confiança. A coordenação está na passada e nos braços, porque vamos a correr em conjunto. É uma coordenação perfeita que não tem necessidade de nos tocarmos. Basta a informação de boca de “degrau”, “curva”.» Treina duas vezes por dia, numa média de 120-130 km por semana e tem dois atletas guias.
Na sua vida, o atletismo foi essencial. «Juntei-me a um grupo, uma espécie de sociedade que é a dos atletas e aí passei a ter um convívio com outro tipo de pessoas e senti que a correr sou mais um no meio deles. No início, foi muito importante sentir que a correr era mais um, e não era a pessoa com a bengala de quem as pessoas se desviam como se tivesse sarna.»
 
O problema das medalhas
Dos Jogos Paralímpicos, os atletas portugueses têm trazido muitas medalhas. Desde 1984, Portugal já conquistou 88 medalhas: 25 de ouro, 30 de prata e 33 de bronze. Mas têm vindo a diminuir: em 2004, foram 12 e em 2012, apenas três. Nuno encontra algumas explicações. Por um lado, há mais países a competir. Se, em 1984, eram 54, em 2012, 164. Por outro lado, «a partir de 2004 os países profissionalizaram os seus atletas e começaram a ter resultados diferentes. Nós continuámos a trabalhar da mesma maneira». Trabalhar, treinar e competir significa não ter tempo para recuperar nem descansar. Há bolsas para os atletas, mas a de valor mais elevado é de 518€. «Não dá para os atletas serem profissionais. Não há possibilidade de uma pessoa estar tranquilamente a fazer treinos quando não há dinheiro para chegar ao fim do mês. O que significa que os que trabalham têm de trabalhar e treinar.»
Para Nuno isso nem é o mais difícil. O seu grande apoio é a família, mas pesa-lhe o tempo que lhes “rouba”. «Eu sei que eles são quem paga a maior fatura. Temos muita dificuldade em marcar férias, porque eu tenho de treinar e tenho provas na altura das férias.» No resto do ano são as provas aos fins de semana, com deslocações para longe, chegadas a casa tarde e acordar cedo para treinar. «Até agora acho que vale a pena. Depois dos jogos vou reavaliar se continuo com a carreira.»

História dos jogos paralímpicos
Em 1948, Sir Ludwig Guttmann organizou na Inglaterra uma competição entre veteranos da Segunda Guerra Mundial com lesão na espinal medula. O movimento internacional nasceu quatro anos depois, quando se juntaram participantes da Holanda. Em 1960, foram organizados, pela primeira vez, jogos ao estilo olímpico para atletas com deficiência, em Roma. Atualmente, os Jogos Paralímpicos são eventos desportivos que ocorrem depois dos Jogos Olímpicos, nos mesmos locais. Participam atletas com deficiência motora, visual, paralisia cerebral e deficiência intelectual.

Clique no ficheiro de som para ouvir Nuno Alves falar sobre os "erros" da estratégia portuguesa no desporto paralímpico.
 
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: Cláudia Sebastião e Ricardo Perna


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