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Aulas ao ar livre inspiram alunos e professores
17.05.2017
Ainda antes de passar o portão da Escola Básica da Parede, concelho de Cascais, já se ouvem as crianças a brincar. Chovisca, mas o recreio está cheio de miúdos a correr e a brincar no pátio em frente ao edifício da escola. O chão é em terra e está rodeado de grandes árvores.

Alunos da Escola Básica da Parede. Foto: Ana Meireles
Os anfitriões são os professores Ana Meireles e Rodrigo Gomes. Ana foi quem no ano passado propôs que a escola participasse no Dia de Aulas ao Ar Livre lançado por uma marca de detergentes para a roupa. A iniciativa mobilizou 400 escolas e cerca de 40 mil alunos. Este ano será a 18 de maio. O Dia de Aulas ao Ar Livre nasceu no Reino Unido para incentivar as escolas de Londres a ensinar ao ar livre. Em Portugal, a ideia surgiu com o lançamento de um estudo que a Skip fez. Concluiu-se que o tempo médio de brincadeira no exterior é de 63 minutos. Estes dados podem surpreender, mas se fizermos contas ao tempo que as crianças passam nas creches, infantários, escolas e ATL, percebem-se rapidamente.

Aprende-se na praia
Na Escola da Parede, as atividades no exterior não são uma exceção. Mas já lá vamos. No Dia de Aulas ao Ar Livre de 2016, 50 alunos das duas turmas do 1.º ano foram até à praia a pé. «Tivemos atividades desde leitura, fizemos algumas coisas de matemática e fizemos recolha de materiais como paus, pedras, conchas para usar na Ludobiblioteca», explica Ana, com naturalidade. O dia de sol proporcionou uma manhã bem passada na praia. Mas não se tratou de passeio. O objetivo foi «manter o trabalho curricular, mas no exterior». Daí que a professora explique que «com as pedrinhas fizemos contagens; explorámos a areia molhada para escrever com os dedos e moldando letras, para desenhar e molhar». Na maré vazia, exploraram as pocinhas de água. «Vimos caracóis-do-mar e estrelas-do-mar», lembra, acrescentando a rir que houve quem molhasse os pés e «alguns ainda mais».

Alunos foram exploradores no recreio da escola. Foto: Ana Meireles
A manhã foi passada na praia e a tarde no exterior da escola. Em grupos, tornaram-se exploradores por um dia. «Tinham de encontrar bichinhos e foram ver as plantas, levantar vasos e procurar. Foi muito giro. Nos dias seguintes andavam a levantar tudo à procura de bichinhos», conta Ana a sorrir.

Vanda Vilela é artista plástica e trabalha no serviço educativo dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian há dez anos. Com Catarina Pereira e Leonor Pêgo, dinamiza o curso «Aula no jardim – ensinar a aprender com a natureza». A formação para professores de 1.º e 2.º ciclos esgotou. Vanda explica que «as atividades que propomos aos professores têm como ponto de partida uma meta curricular específica, ou da Matemática ou das Ciências, do Estudo do Meio, da História ou da Geografia para eles perceberem que usando a meta curricular podem fazer a aula no exterior».

Vanda Vilela, do serviço educativo dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.

Mas o que aprenderam os professores e outros inscritos? A construir sólidos geométricos com varas de salgueiro e corda, a fazer cálculos matemáticos para descobrir a idade e altura das árvores, a explorar a fauna existente no jardim e os diferentes estados físicos da água, a usar os sentidos para identificar objetos relacionados com os descobrimentos portugueses e a construir textos criativos usando sequências de palavras.

Professores aprenderam estratégias para ensinar no exterior. Foto: Catarina Dias Pereira

Como fazer?
Pode parecer complicado, mas Vanda Vilela explica com uma simplicidade que desmonta qualquer preconceito que possa existir.
  1. Não fazer das saídas uma coisa excecional, mas habitual.
  2. Ser realista e simplificar. «As saídas não têm de ser longas, não têm de ser a uma praia ou a um jardim muito longe. Podem ser no recinto da escola, no bairro, na rua.»
  3. Trazer a rua para a sala e «vamos sair e recolher folhas caídas, as mais diferentes que conseguirem encontrar, chegam à sala e vão pô-las na mesa de natureza e tentar identificá-las».
  4. Fazer saídas com tarefas. «Durante a semana há um dia em que saem. Hoje vou reparar nas árvores da minha rua e tentar identificá-las: têm um tronco largo, é inverno e as folhas estão caducas, vou medir o seu perímetro. O perímetro ajuda-me a saber a idade da árvore e aí entra a matemática. Levam fita métrica, medem e fazem os cálculos.»
Percebe-se que o tema apaixona Vanda, assim como a natureza e o ar livre. As sugestões de atividades saem ligadas umas às outras como elos de uma mesma corrente. A sua opinião e experiência dizem-lhe que todas as matérias se podem trabalhar na rua.
Reportagem: Cláudia Sebastião
Fotos: Ana Meireles, Cláudia Sebastião, Catarina Dias Pereira

 
Reportagem na íntegra pode ser lida na FAMÍLIA CRISTÃ de maio de 2017
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