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Burnout: «Os padres entram num mundo de trevas sem mais perspetiva»
26.10.2017
D. José Ornelas, bispo de Setúbal, fala à Família Cristã sobre o tema do burnout dos sacerdotes, e o que a diocese de Setúbal tem feito para prevenir isso. Mas também não deixa de apontar o dedo à responsabilidade de cada sacerdote, na gestão do seu tempo e emoções, e às comunidades, que têm de apoiar e aliviar os seus sacerdotes.

 
O burnout dos padres é uma temática que o preocupa enquanto bispo?
Preocupa-me antes de mais a mim como bispo, mas também do ponto de vista dos nossos sacerdotes, ao serviço não só das paróquias, mas das várias realidades que nós temos. A Igreja onde vivemos hoje, e particularmente esta de Setúbal, é uma Igreja onde os padres e párocos sempre foram habituados a deitar uma grande atenção ao mundo que os rodeia, sem serem em número suficiente para responder às necessidades, acumulando funções não só na paróquia, mas também na dioceses, nas várias pastorais especializadas.
Muitas das nossas paróquias têm centros paroquiais, e quando pergunto quanto tempo dedicam, dizem-me 30, 40, 50 ou 60% do tempo. Isto requer tempo, competência que é preciso adquirir, capacidade de gestão de pessoas e recursos, conhecimento de legislação. O padre não está sozinho, mas dirigir uma orquestra paroquial assim não é fácil.
 
É um excesso de tarefas que pode levar a um esgotamento?
Pode conduzir, mas não é apenas uma questão de quantidade de trabalho. É a atitude com que cada um enfrenta estas tarefas, o ambiente e a entourage das pessoas que com ele colaboram, e o seu estado de espírito interior.
 
E é aí que entra a atitude do sacerdote?
Exato. Quanto à distribuição do trabalho, eu prego a todos que ter pelo menos um dia de descanso por semana é de uma higiene fundamental. Gostaria de aplicar isso a mim, e raramente consigo, mas deveria ser, porque é necessário para pensar, recuperar energias. E acontece que o fim de semana é muito absorvente de energia e criatividade, e deixa um cansaço ao qual é preciso dar atenção.
Eu digo-lhes «tirem um dia por semana, e se alguém perguntar porquê, o bispo explica». Alguns têm uma metodologia e conseguem fazê-lo, mas outros não.
 
E teme que isso os possa colocar em causa?
Isso é o que esse tipo de recuperação pode prevenir. É descansar fisicamente. Muitas das nossas atividades pastorais são à noite, e logo de manhã temos de estar ativos. O que mais cansa não é o trabalho, são os golpes que se apanham. A atitude emocional de um padre que de manhã faz um funeral, vai visitar uma pessoa que está doente terminal, e ao mesmo tempo está a preparar um batismo com um casal e tem de prestar atenção aos encontros dos movimentos jovens, e ainda tem de gerir questões económicas aflitivas da paróquia, é uma mudança constante de teatros de operações, que requer uma mudança emocional muito grande. Se não houver no meio disto tudo um elemento integrador e avaliador disto tudo, e na vida do padre não pode ser outro que a sua identidade de padre e o seu relacionamento com Deus, as coisas tornam-se difíceis de gerir e o burnout é a criação desse deserto interior que tantas vezes pode acontecer.

 
«Quando o padre tem de dar metade do seu tempo ao centro paroquial, quem é que faz de pároco?»
 
Pode ser um fator de risco os sacerdotes diocesanos viverem sozinhos?
Não tenho dúvida disso. Na Igreja não somos chamados a viver isolados. Por outro lado, se tirarmos essa identidade individual, não temos a vocação. Mas na lógica da fé cristã, o seguimento de Cristo faz-se sempre num encontro com a comunidade, que não tira a minha personalização, a minha vocação, nem me faz perder no meio da massa, porque tenho funções bem claras e não me posso desfazer delas. Na vida diocesana, e isto passa-se com o bispo e nas paróquias, o fato ministerial é muitas vezes entendido num sistema piramidal de gestão e organização da Igreja. E isso o Concílio Vaticano II veio tentar mudar, mas nem sempre conseguimos fazê-lo. Há que haver equilíbrio estas coisas.
 
Como é que equilibramos essas duas vertentes então?
O que estamos a fazer nesta diocese, e está a funcionar, é que os padres que têm uma dinâmica comunitária dentro de uma vigararia, que os obriga a trabalhar em conjunto. Este é um dos fatores integradores desta dinâmica de Igreja em conjunto. Não me desresponsabiliza, antes torna-me mais seguro nas decisões que tenho de tomar. E se estou inseguro, tenho mais dificuldades em me relacionar com os outros, e a tentação é isolar-me no meu mundo, que eu controlo, e onde ninguém mete o nariz. É um sinal de fragilidade.
 
E é um risco...
Sim, porque vai centralizando tudo em si mesmo. Com o bispo também acontece isso, porque em dioceses como esta, mais pequenas, com pouca gente profissional dedicada aos serviços diocesanos, os padres e o bispo têm de assumir muito mais funções para além das muitas que já fazem nas paróquias.
Os nossos padres são de uma entrega muito generosa, e sai-lhes do corpo em termos de cansaço e dedicação. E é de louvar isso. Precisaríamos de ter algo mais, e temos de trabalhar cada vez mais, em termos de complementaridade, e de termos as nossas comunidades cristãs a funcionar cada vez com leigos preparados e capacitados a todos os níveis, e articulados entre si. O exemplo dos centros paroquiais é bem claro. Quando o padre tem de dar metade do seu tempo ao centro paroquial, quem é que faz de pároco?
 
Porque depois os trabalhos que ficam para trás são eventualmente os mais importantes...
Que são a sua missão! Não significa que os centros paroquiais não sejam sinais do Evangelho, mas a gestão disto tudo temos de a pensar melhor, e temos de criar meios, também económicos. Temos de caminhar para uma maior implicação dos leigos, porque senão corremos o risco de o padre se transformar noutro funcionário simplesmente de instituições, e o bispo também.
 
Como é que se evita esse burnout?
Eu considero-me um semeador, porque estou sempre a semear. Não me encher de frustração pelo que não posso fazer, celebrar as pequenas realidades que se vão construindo, sem esquecer o que fica por fazer. Isto significa, e é aqui que eu digo que não estamos a fazer o que podemos, que temos de sonhar ao longe, e não nos deixarmos consumir apenas pelas tarefas imediatas.
As maiores crises de burnout não acontecem nos grandes dramas, e os sobreviventes dos campos de concentração são prova disso. Não é encontrar-me na minha preguiça, mas antes na relação com Deus.
 
Por vezes é na brandura do dia a dia que as coisas pioram...
Muitas vezes é stressante sentir que devíamos ter feito isto ou aquilo e que há ainda muito para fazer.

 
Como se lida com uma situação dessas de burnout?
Cada caso é um caso. A primeira coisa é aceitar a pessoa. Depois é estar próximo, encontrar proximidade, o que não é fácil, porque a tendência do isolamento é grande. Depois, aceitar a competência e o contributo de gente especializada nisso. Todos precisamos de contributos sérios. Tantas vezes eu dirigi pessoas para profissionais, porque senão a pessoa nunca mais se levanta. Todos sabemos que as depressões podem acabar muito mal, e é o proporcionar e ter gente que seja capaz de dar uma ajuda especializada que é importante.
 
Da sua experiência, como acabam esses casos mais graves?
Alguns casos acabaram tragicamente. Quando temos um cancro ou algo visível, todos temos pena. Mas quando a ferida é do meu íntimo, é mais difícil ser aceite pelo próprio e pelos outros. Mas felizes daqueles que conseguiram ter a força para sair disso.
Os padres entram num mundo de trevas sem mais perspetiva. E que bonito é ver as pessoas sair disso. Querer refugiar-se apenas num espiritualismo para resolver esses problemas é um erro, mas fazer apenas uma terapia psicológica também não vai dar certo, porque não vai integrar a pessoa como ela é.
 
Está pessimista quanto a este assunto?
Apesar de constatar todas essas dificuldades, não sou nada pessimista. Encontrei e encontro gente felicíssima com vida que têm, ocupada, cansativa, com uma entrega total mas que estão aí, e isso é o sonho que todos queremos ter. Não há vidas perfeitas, mas existe gente que luta ao serviço do Evangelho, e isto de carregar o peso dos outros que é tantas vezes o que é a nossa missão, é por um lado um desgaste psicológico muito grande, porque se não formos emocionais não servimos para nada, mas por outro lado é acolher as alegrias com que as pessoas nos brindam, e isso é o que Deus faz connosco e nos ajuda a fazer com os outros.
 
Entrevista e fotos: Ricardo Perna

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