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Cardeal Sistach: acesso dos recasados aos sacramentos é «possível»
09.11.2016
O Cardeal Lluís Martínez Sistach, arcebispo emérito de Barcelona, esteve a participar nos trabalhos da 190ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, para ajudar os bispos portugueses a refletir sobre a exortação do Papa, Amoris Laetitia.


O cardeal referiu, em entrevista exclusiva com a Família Cristã à margem do lançamento da obra «A pastoral das grandes cidades», da PAULUS Editora, que os bispos portugueses «conhecem bem a exortação, e estão interessados em aplicar toda a exortação, não apenas o capítulo VIII, como bons pastores que são».
 
Sobre a exortação, o Cardeal Lluís Martínez Sistach é claro ao considerar que a grande novidade é a «integração». «Integrar todos os cristãos na comunidade cristã, e integrar mais, na medida do possível, os nossos irmãos divorciados recasados. Esta é a finalidade da exortação, que os cristãos sejam mais cristãos, mais igreja», disse.
 
O tipo de integração possível vai depender sempre do «discernimento» que as pessoas ou casais façam, em conjunto com o sacerdote e em «oração diante de Deus». «Para chegar a esta integração maior há que fazer um discernimento, com um sacerdote, em consciência, com sinceridade e autenticidade, porque para a Igreja a consciência é muito importante, e este documento do Papa abre um caminho de revalorizar a consciência pessoal na vida cristã, que estava esquecida», refere, adiantando que «temos de formar consciências, não substituir consciências».
 
O arcebispo emérito de Barcelona considera que a integração, dependente do caminho de discernimento que seja feito, pode levar até aos sacramentos. «Se houver alguma circunstância atenuante, pode ser que uma circunstância objetiva grave, moralmente falando, não corresponda uma culpabilidade do mesmo grau. Julgo que se trata de fazer um discernimento com o sacerdote, no foro interno, para ver, diante de Deus, qual é a sua situação e a possibilidade de ter uma maior integração na comunidade cristã, que, em alguns casos, se tiver circunstâncias de facto atenuantes, podem inclusive chegar aos sacramentos», defende, de forma clara.
 
Este discernimento pode levar a que situações aparentemente iguais sejam tratadas de forma diferente, o que pode levantar questões. «Temos de amadurecer cada vez mais as coisas. E a pastoral diz respeito a cada pessoa, a cada matrimónio. Há fórmulas e normas, mas cada pessoa é uma situação distinta, e há que dar resposta cristã, de fé e de salvação a cada pessoa e a cada matrimónio. Pode suceder, nesta e noutras áreas, que o pastor que conhece objetivamente e subjetivamente a situação de uma pessoa ou casal, dê uma resposta distinta a outra pessoa ou casal que, aparentemente, partilhem a mesma situação, mas que subjetivamente não é a mesma», sustenta.
 
Às vozes que se têm levantado contra a possibilidade de acolhimento total ou parcial dos recasados e de outras pessoas em situação irregular nas comunidades, o Cardeal Sistach diz que o «documento não muda a doutrina, aplica uma doutrina moral tradicional na Igreja, que está no Catecismo da Igreja Católica a uma realidade que é a dos matrimónios frágeis, que fracassaram e de onde surgiu uma nova união». «Diria que é um documento do Papa, do Magistério, que deve ser bem acolhido e ter uma aplicação num campo pastoral onde antes não se aplicava. As mudanças custam, mas se estão fundamentados na doutrina, são o que a Igreja diz», avisa.
 
Preparação é a única forma de evitar todos os problemas
Apesar de relevar a importância do capítulo VIII da exortação no sentido de acolher todos, para o cardeal Sistach a única forma de acabar com esses problemas começa bem mais cedo. «Temos de procurar que os matrimónios se realizem com uma boa preparação, que os filhos sejam felizes, pois só assim resolveremos os problemas que há na pastoral dos matrimónios em dificuldades», considera.
 
O arcebispo espanhol não sabe se a exortação chegou a todas as pessoas, mas acha que esse é um imperativo. «Não sei se chegou, mas tem de chegar. E é importante que o documento seja inculturado na realidade local antes de ser implementado, porque, se não o fizermos, dificilmente se aplica», afirma.

 
Preparar matrimónios para toda a vida começa, segundo o prelado, no exemplo que temos dos nossos pais. «A boa preparação começa em pequenos, pois os filhos têm de encontrar uma boa expressão do que é o matrimónio nos seus pais, do que é o amor conjugal, o perdão, o compromisso, a paciência, a entrega, o amor autêntico, porque se não o saborearem em pequenos, não o poderão aplicar depois», considera.
«Depois», refere, deve «intensificar-se a formação sobre esses mesmos valores, porque, se isto não existir, à primeira dificuldade o matrimónio quebra. Aí, cabe a cada diocese perceber como chegar aos seus jovens», diz.
 
Texto: Ricardo Perna
Entrevista e fotos: António Miguel Fonseca
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