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CCB recebeu antestreia do novo filme de Scorsese
13.01.2017
Ontem foi noite de antestreia em Portugal para o mais recente filme de Martin Scorsese, Silêncio. No Grande Auditório do CCB, cerca de 1400 convidados puderam assistir em primeira mão à antestreia da adaptação ao cinema do romance de Shuzaku Endo que conta a história de dois sacerdotes portugueses que, no tempo da perseguição aos cristãos no Japão, partem para terras nipónicas à procura de um outro sacerdote português que teria alegadamente cometido apostasia, ou seja, renúncia da sua fé.

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi o convidado de honra, mas muitas outras figuras se juntaram para assistir à antestreia.

No final, a expressão geral era de contentamento, mas também de inquietação e de desafio. O filme «é um desafio que se faz em relação aos crentes para verem a forma como vivem a sua fé, e para os não-crentes a compreensão do que é a fé dos crentes», disse Marcelo Rebelo de Sousa à saída da sala. Já o núncio apostólico em Portugal, D. Rino Passigato, considera que «é um filme para ver com inteligência, porque as almas simples podem ser escandalizadas». «O diálogo entre civilizações é sempre difícil, quando assume um aspeto religioso, filosófico, é complicado harmonizar as partes quando são tão convencidas da sua própria verdade», afirmou.

O presidente Marcelo visitou a exposição de desenhos antes de entrar na sala.
A questão da inquietação foi levantada pelo Pe. José Frazão, provincial dos jesuítas em Portugal. «Tem a grande virtude de deixar o espetador inquieto, reflexivo, no meu caso em silêncio, porque retrata dramas aculturais existenciais e de fé que são em si mesmos complexos», referiu o sacerdote à FAMÍLIA CRISTÃ.
 
O sacerdote jesuíta acha «muito interessante que o filme ajude a baixar a dimensão triunfalista com que a própria descrição do martírio é apresentada». «O martírio tem algo de identificação com o próprio Cristo, mas é verdade que tem uma descrição muito apologética e triunfalista. Este lado baixa esse triunfalismo e põe o testemunho da fé num registo muito mais verdadeiro, porque põe também o drama, a dificuldade, a luta», considera o Pe. José Frazão.
 
Rui Marques, da Plataforma de Apoio aos Refugiados, também esteve presente na antestreia e afirmou que este é um filme «que precisa de ser digerido». «É um grande filme, que nos deixa pistas de reflexão importantes. Todo o dilema ético da apostasia, e até da apostasia como forma de amor, é evidentemente uma grande perplexidade que deixa a quem é crente.»
 
Vendo o filme, torna-se inevitável não fazer a comparação com o drama dos cristãos perseguidos na Igreja de hoje. Rui Marques concorda e salienta que «a coragem extraordinária daqueles que são fiéis à sua fé até ao ultimo momento é algo de profundamente tocante», acrescentando que é preciso «respeitar» aqueles que decidem renunciar à sua fé de forma pública, porque podem não pensar assim no seu interior. «Este filme ensina-nos a ter um outro olhar, não glorificando os mártires, mas também vendo que aqueles que aparentemente não resistem, no seu interior continuam a amar tanto a Deus como aqueles que resistem até ao fim», afirma.

Pe. José Frazão, provincial dos jesuítas em Portugal. 
O filme, que já estreou nos Estados Unidos da América e está a receber muito boas críticas por parte da comunidade cinematográfica e da própria Igreja, estreia em todas as salas portuguesas na próxima quinta-feira, dia 19.
 
Juntamente com o filme estava patente uma exposição de desenhos de um sacerdote jesuíta português, o Pe. Nuno Branco, e de Kumi Matsukawaque, convidados para “ilustrar” o trailer do filme. Enquanto Kumi Matsukawa desenhou as cenas que representam elementos ocidentais, o Pe. Nuno Branco é o autor das ilustrações que representam cenas orientais.  O conjunto de imagens apresentadas – e que tentam de certa forma recriar, numa sinopse simples, a história do film e– é uma seleção do trabalho destes artistas, que pode ser visto de forma integral no trailer “ilustrado”.

Estas ilustrações serão, depois, expostas ao público na FNAC do Chiado (a partir de 17 de janeiro) e na FNAC Santa Catarina (a partir de 25 de janeiro), acompanhadas de um pequeno debate.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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