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Chamados à liberdade
17.04.2017
A liberdade é o maior dom da obra da Redenção realizada em nosso favor por Jesus que morreu e ressuscitou, diz o Apóstolo Paulo na carta aos cristãos da região da Galácia, na atual Turquia: «Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.» (Gl 5,13) Este dom não pode conviver no espírito cristão com a escravidão do pecado, nem com uma religiosidade refém de preceitos e de leis, caindo, por vezes, na contradição de reduzir a pessoa às limitações das condições de vida em que nasceu ou em que tenha caído com ou sem culpa própria. Na realidade, a plenitude de vida que o cristão afirma adquirir pelo Batismo liberta-a de todas as amarras do pecado e dá-lhe coragem para desobstruir o caminho de todos os que se encontram privados da sua dignidade de filhos de Deus ou até mesmo de simples seres humanos, com ou sem fé.

Marcos narra no seu Evangelho que certo dia um leproso se colocou diante de Jesus e Lhe suplicou para que o curasse. «Jesus compadecido estendeu a mão, tocou-lhe e disse: “Quero.”» (Mc 1,40) Alguns textos antigos apresentavam, em vez da expressão “compadecido”, o termo “indignado”. Talvez a melhor interpretação sejam as duas em simultâneo, que espelham melhor o pulsar do coração de Jesus. Ele sentiu pelo doente uma verdadeira e profunda comoção que, como explicou várias vezes o Papa Francisco, é a misericórdia.

Por outro lado, o espírito de Jesus terá reagido com um sentimento de revolta e de indignação contra a forma como os doentes eram tratados, seguindo orientações ritualistas próprias da lei, que orientava os leprosos em determinadas atitudes comportamentais, quer religiosas, quer sociais. Os escritos rabínicos consideravam o leproso como morto e a sua cura uma ressurreição. Mas como se pode, em nome de Deus, obrigar alguém a sujeitar-se a uma vida desumana, marginalizada, sujeitando-a à morte certa? É claro que a resposta de Jesus, antes de ser palavra que cura, é um gesto de ternura que o toca. Infringindo as leis religiosas, deixa-Se tocar pelo “imundo” dizendo-lhe, com esta atitude, que não só reparou bem nele, mas que não sente repulsa nem qualquer forma de rejeição. Jesus reabilita-o de todo o tipo de marginalização social, familiar e religiosa.

Diz o Papa Francisco na Evangelii gaudium, n.º 199, que «o nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro considerando-o como um só consigo mesmo».

Somos seres preciosos aos olhos de Deus. As leis estão ao serviço da dignidade do Homem e o serviço da Igreja consiste em anunciar a libertação da pessoa das prisões ritualistas e legalistas, inclusive as que a sociedade civil quase impõe como única solução, para poder lavar as mãos de um maior compromisso humano e social, sem olhar às repostas que existem, mas que exigem mais recursos financeiros, nomeadamente no que diz respeito ao acompanhamento médico e social a jovens grávidas, aos idosos e doentes nos cuidados continuados e paliativos, etc.

A Igreja deve ser a voz incómoda que considera recuperável o que a lógica relativista de um comodismo e de um economicismo doentio consideram perdidos.

Que essa voz nunca doa aos cristãos que se empenham todos os dias nos vários púlpitos da comunicação, entre os quais se destaca a Rádio Renascença nos seus 80 anos de vida, para que procurem ler a história na tónica da compaixão de Jesus para com os fracos e a mesma indignação perante os atropelos à dignidade humana.