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Como não fazer de um filho um hipocondríaco
20.03.2017
Tendemos a repetir os comportamentos que nos trazem benefícios. É inteligente, e se há coisa que somos sem dúvida nenhuma é inteligentes. Mas o que é mais triste é que nem sempre os comportamentos que nos trazem mais-valias são bons. Há situações que causam profundo sofrimento, provocam dor, mas que marginalmente nos permitem aceder a qualquer coisa que desejamos alcançar. Os técnicos chamam-lhes qualquer coisa como “benefícios secundários”. E citam como exemplo a doença que, embora penosa de suportar, permite tantas vezes que nos prestem atenção, nos mimem e voltem sobre nós os holofotes. Seriam esses benefícios secundários que explicariam a hipocondria, numa contradição de sentimentos de medo e desejo, num mecanismo muitas vezes inconsciente. Dois lados, colados a uma mesma moeda tão precocemente que não seria fácil desmontá-los.

Lembro-me hoje disto porque tenho ao colo a minha neta mais pequenina de ano e meio, agarrada como uma lapa, obrigando-me a dedilhar este texto apenas com uma mão. Está com febre e prostrada, e choraminga quando a pouso ou mudo de colo. Dou-lhe festinhas, canto-lhe, e ela habitualmente tão mexida deixa-se ficar, melosa e meiga. Os meus ganhos secundários estão à vista neste bebé quentinho e dependente, mas talvez também ela os tenha, neste dia em que é o centro de todas as atenções.
Passo-lhe os dedos, como se fossem dentes de um pente, pelos caracóis e recordo-me, subitamente, de como a minha mãe me fazia o mesmo, de como a doença era dos raros momentos em que conquistava o direito ao seu colo, a ser filha única (entre oito), de como mesmo adolescente só a doença me permitia fugir às regras, ficar na cama, não apresentar trabalho. Lembro-me de como delirei ser operada às amígdalas, com direito a duas semanas em casa, gelados e livros à discrição, e irmãos que se revezavam a contar-me histórias, e recordo como durante anos sonhei com uma operação ao apêndice que me desse uns dias de palco.

Não fiquei hipocondríaca, mas reconheço que ainda hoje preciso que o mercúrio (ou equivalente moderno) suba no termómetro para me sentir autorizada a não fazer nada, e que nos momentos de maior cansaço dou por mim a pensar que uma gripe vinha mesmo a calhar.

E se para mim é assim, terão ainda maiores ganhos secundários as crianças de pais que trabalham a tempo mais do que inteiro, que correm que nem loucos contra os relógios de ponto, e nas horas em que estão com eles se veem obrigados a multiplicar-se por roupa para engomar, jantar para fazer e TPC como cereja em cima do bolo? Crianças e pais que só ficam em casa uns com os outros se estiverem mesmo muito doentes, porque a precariedade do emprego e os recibos verdes obrigam a que se mascare o mal-estar (de uns e outros) com um ben-u-ron que permite ir trabalhar/ficar na creche.

Mas talvez não seja nada assim. Talvez os meninos de hoje não precisem de ficar doentes para receber a atenção dos pais, o seu colo e os seus beijos. Porque os pais de hoje (e os avós) deixaram de precisar de desculpas para manifestarem sentimentos, para elogiarem e mimarem. Prometo segurar a Martinha contra mim da exata mesma forma amanhã e depois, e todos os dias da vida dela, sem que precise de me dizer que lhe dói seja o que for. Talvez os hipocondríacos passem assim a ser uma espécie em vias de extinção.