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«Comunicar faz parte do Ser da Igreja»
08.05.2016
No mês em que se celebra o 50.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, fomos ao encontro do superior-geral dos Paulistas, Pe. Valdir de Castro, para perceber que balanço é possível destes 50 anos de mensagens dedicadas aos agentes da comunicação e, na verdade, a toda a sociedade. O Pe. Valdir é brasileiro, jornalista, e brevemente doutor em Comunicação. Olha para a comunicação como fator essencial das sociedades de hoje e de amanhã, e considera que a grande mais-valia destas mensagens anuais publicadas pelo Papa é a sua adequação à sociedade do tempo em que foram publicadas.

O Pe. Waldir Castro é Superior Geral dos Paulistas
 
Celebramos os 50 anos de mensagens do Dia Mundial das Comunicações Sociais. Que balanço é que se pode fazer?
E celebramos precisamente, dentro do Jubileu da Misericórdia, com uma mensagem dedicada à Misericórdia. É muito importante para a Igreja, porque comunicar faz parte do Ser da Igreja. Evangelizar é comunicar. Não somente com palavras, com o anúncio do que Jesus disse ou o conteúdo do Evangelho, mas a missão da Igreja é comunicar com a ação concreta dos seus membros a favor das pessoas necessitadas, do homem e da mulher de hoje, da criança, do ancião, daqueles que precisam de receber do Evangelho a força que precisam para caminhar. O Dia das Comunicações Sociais nasceu do Vaticano II, e desde então a Igreja recorda a importância da comunicação, sempre tendo presente um tema atual que diz respeito à época em que vivemos.
 
Houve uma aproximação da Igreja aos meios de comunicação social?
Sim. Tanto das mensagens como no próprio discurso que a Igreja faz da comunicação, temos visto um grande progresso. No princípio, a Igreja via os meios de comunicação de forma isolada. A rádio, a televisão, o cinema. Até que a Igreja começou a acompanhar a evolução dos tempos e se apercebeu de que a comunicação não é somente um conjunto de meios técnicos, mas é uma cultura. A grande atualização da Igreja em relação à comunicação deu-se mais ou menos no início dos anos 90, com João Paulo II, quando ele passou a falar da cultura da comunicação. Esta não é apenas um conjunto de meios técnicos, mas é um ambiente que influencia o modo de ser e agir do ser humano e, ao mesmo tempo, o ser humano cria novas formas de relações influenciado por esses meios.
 
De todas as que já foram publicadas, destaca alguma mensagem, pela sua importância particular na história da Igreja ou dos meios de comunicação social?
Se olharmos para todos os temas destes 50 anos, vemos uma série de temas que respondiam ao ano em que eram publicados. Por exemplo, a solidariedade, o progresso, a família, a juventude, a internet. Gostei muito do texto do Papa Bento XVI de 2011 sobre Palavra e Silêncio. Aquele tema foi muito importante, porque falar da comunicação do ponto de vista do silêncio é algo que o ser humano precisa de ouvir atualmente. Sem silêncio, se não refletirmos e pararmos, a qualidade da comunicação não melhora. Comunicar é expressarmo-nos, mas é também ouvir, fazer silêncio no sentido de ouvir o outro e escutar. Se o ser humano não escuta, não sabe o que dizer. E o Papa ajudou, com esse discurso, a pensar na qualidade da comunicação, que depende também da escuta e do silêncio que fazemos para depois sabermos o que dizer.
Outro tema que me chamou a atenção foi o do ano passado, em que o Papa falava dos meios de comunicação como ambiente privilegiado do encontro. O tema do encontro é muito recorrente no Papa Francisco, que aqui recordou que a comunicação desempenha um papel importante. Vivemos numa época em que o encontro é primordial, se queremos mais paz, mais justiça e mais vida para as pessoas. É um tema que marcou e que, mesmo sendo do ano passado, é muito atual.
 
Estas mensagens conseguem ajudar os cristãos a refletir sobre a comunicação?
Do ponto de vista da intenção do Santo Padre, evidentemente que sim. É impossível uma mensagem abranger todos os temas de um determinado tempo na história, mas eu acho que os temas têm respondido às necessidades do seu tempo. Este ano é a misericórdia, e esse é um tema muito atual, principalmente se olharmos para os conflitos que existem no mundo, até no campo da religião. Há religiões que lutam entre si quando Deus, que é único, é misericordioso, pelo que acho que os temas têm respondido às exigências da época. Mas depende de nós, como Igreja, pegar nestas mensagens e refletir, em grupo ou pessoalmente, e divulga-las. Tem de haver um eco, que depende de nós, membros da Igreja.
 
As pessoas compreendem que estas mensagens são também para elas?
Penso que as próprias mensagens, mesmo quando são particularizadas, atingem sempre toda a nossa realidade e as diversas camadas sociais e estados de vida. Quando falamos de crianças, ou juventude ou idosos, isso são assuntos que nos interessam a todos nós. É importante que nós, como Igreja, abramos espaços para refletir sobre estas mensagens. Não basta o Papa publicar e nós lermos uma notícia. As dioceses, paróquias e movimentos têm de dar continuidade a esta reflexão, de modo que atinja todos e todos possam usufruir ainda mais profundamente do conteúdo da mensagem do Papa.
 
Alguma sugestão concreta de fazer com que esta mensagem chegue a mais gente?
Há tantos meios atualmente. Desde os mais tradicionais às redes sociais, um terreno muito fértil de possibilidades para divulgação destas mensagens. Com tudo isto, não somente com os meios técnicos, mas através do encontro das pessoas nas comunidades. Sabemos que há grupos de jovens, de casais, vários movimentos de Igreja que fazem as suas reuniões periódicas. A Igreja tem muitos espaços que podem ser usados para refletir estas mensagens. Outro elemento importante que ajuda a este trabalho é ter na paróquia uma pastoral da comunicação, que não é uma equipa que trata do som da igreja. É aquela equipa que ajuda a pensar a comunicação da Igreja e a pensar a comunicação na sociedade. Acho que se a pastoral da comunicação se organizar, pode ser uma grande animadora no sentido de aprofundar os conteúdos dessas mensagens anuais.
 
De que forma esta mensagem influenciou o trabalho dos padres paulistas ao longo destes 50 anos?
Essas mensagens anuais valorizam os próprios meios de comunicação social, logo, a nossa missão. Nós, os Paulistas, que temos a missão de evangelizar com a comunicação, vemos estes temas como motivadores para levarmos em frente a nossa missão. Para nós, a comunicação não é um apêndice, mas a nossa motivação. E as mensagens motivam-nos no sentido de as divulgar nos nossos meios. Em muitos países criamos espaços para debates sobre o tema, divulgamos nas redes sociais, e evidentemente os temas ajudam-nos a levar em frente a nossa missão, valorizando o ambiente que o Homem constrói com as tecnologias que temos à disposição. Transformar a comunicação em algo mais humano e cristão é sempre o objetivo.
 
O que esperar para os próximos 50 anos de mensagens nesta área das comunicações sociais?
É difícil imaginar, mas o que podemos dizer é que a comunicação, assim como é importante hoje, será muito mais importante amanhã, porque faz parte do ser humano. Quando a qualidade da comunicação é boa, a vida vai bem. Quando a comunicação entra em crise, entra em crise o mundo das relações do ser humano e as coisas não vão bem. Os Papas que virão irão procurar temas atuais e chamar a atenção dos cristãos e da sociedade para eles, no contexto da comunicação. Acho que na Igreja cresce cada vez mais a consciência da importância desses meios e isso não vai terminar, vai crescer sempre mais, e espero que cresça em quantidade de meios, mas também em qualidade. Internamente dentro da Igreja e da Igreja para com a sociedade, que a Igreja possa crescer nesse sentido nos próximos anos.

O Pe. Waldir Castro com o Papa Francisco


Entrevista: Ricardo Perna e Ir. Darlei Zanon
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