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Condenar métodos artificiais é «cair no erro da casuística»
30.09.2016
O novo diretor da Pontifícia Academia para a Vida e do Instituto João Paulo II de Estudos sobre o Matrimónio e a Família, D. Vincenzo Paglia, assume que estes institutos precisam de encontrar «novas formas de responder aos desafios colocados pela exortação do Papa, Amoris laetitia», evitando que estes organismos caiam na «casuística», perdendo de vista a «visão geral» que permite «dar juízo sobre as situações particulares».


 
Nesta conversa exclusiva com a Família Cristã sobre este novo desafio que o Papa Francisco lhe lançou, D. Vincenzo Paglia referiu a necessidade de ultrapassar as «fronteiras» e dialogar com «todos», crentes e não crentes. «As fronteiras são as questões mais delicadas relativas aos temas da vida humana e da sua relação com o matrimónio e a família, como o começo da vida, a manipulação genética, o genoma, o fim da vida, o acesso a medicamentos em todo o mundo. Deve haver um diálogo profundo, que envolva cientistas, filósofos, teólogos, sociólogos, políticos. Os temas decisivos para a vida humana não pertencem aos católicos, aos não-crentes ou aos biólogos: pertencem à humanidade», referiu o prelado.
 
Depois de quatro anos à frente do conselho Pontifício para a Família, e com a fusão deste Conselho com outros no novo Dicastério para Leigos, Família e Vida, o Papa Francisco pediu-lhe que pegasse nestes dois organismos, que estarão ao serviço do novo Dicastério. «A Academia para a Vida é uma instituição que pretende oferecer um serviço de reflexão sobre os grandes temas acerca da Vida. Nasceu com João Paulo II, depois continuou com o Papa Bento e agora com o papa Francisco encontra-se num momento de recomeço, em vista de uma mais atenta, mais audaz reflexão sobre as grandes fronteiras da vida em toda a sua amplitude. Quanto ao Instituto João Paulo II, o Papa pede que esteja ligado à investigação científica, para mostrar que a investigação teológica, pastoral, não pode existir separada das questões concretas da psiquiatria, da física, da psicologia, das pesquisas biotecnológicas, a fim de oferecer um contributo de apoio à mensagem da Amoris laetitia», explicou D. Paglia.
 
Escolha dos métodos é «debate do passado»
Nos últimos anos, o Instituto João Paulo II tem mantido uma posição muito rigorosa no que diz respeito às questões sempre polémicas do planeamento familiar. O testemunho de um casal no Sínodo sobre a Família que afirmava pertencer a uma comunidade que mantinha uma abertura à vida, utilizando métodos artificiais de regulação da natalidade, leva a que D. Paglia considere ser tempo de deixar de lado «questões de pormenor», como a escolha dos métodos de planeamento familiar. «Esses são debates do passado. A carta do Papa é muito clara no que pede ao Instituto e a mim. Pede uma compreensão mais profunda, mais larga, mais evangélica da missão da família no mundo», diz.

D. Paglia não quer «renegar o passado», nem deixar de repetir «a indispensabilidade da abertura à vida», mas quando questionado sobre a possibilidade de um casal utilizar métodos artificiais para executar a paternidade responsável de que o Papa fala, refere que «há uma perspetiva geral, e depois cada um tem reger-se pela sua própria consciência e responsabilidade perante Deus». «Existe um grande desígnio que é muito mais amplo que o pormenor dos métodos ou da formulação. Há o risco de nos perdermos na casuística, se apenas abordarmos os pormenores, e deixarmos de lado o mais importante. Se não recuperarmos a visão geral, não seremos capazes de dar um juízo sobre as situações particulares», avisa o prelado.

Para cumprir este desígnio, é necessário «uma nova pregação, uma nova reflexão». «Temos de voltar a oferecer o entusiasmo aos jovens, fazer compreender que a Amoris Laetitia tem dois capítulos centrais que devem ser descobertos: o IV e o V. O IV fala de amor, não de um amor romântico, que fecha, que se limita aos sentimentos, mas um Amor que é história, que une, sabe perdoar, esperar, entusiasmar, e o outro, o V, com o tema da geração, que é um tema onde existe hoje um risco de que o individualismo familiar se sobreponha à responsabilidade da geração de filhos. É por isto que se pode dizer que, em resumo, o problema está entre o primado do Eu e o primado do Nós. E este é um desafio epocal dentro da família e, como tal, de toda a sociedade. Eu ou Nós, o interesse individual ou o bem comum?», questiona.
 
O abismo antropológico do inquinamento humano
Para o novo responsável por estes organismos pontifícios, vivemos um tempo de mudança epocal, com três grandes perigos que afetam a humanidade. «Tocámos com a mão o risco da destruição do planeta com o nuclear, a destruição do ambiente com o inquinamento do ambiente e a ecologia, e hoje enfrentamos um terceiro grande risco: o inquinamento humano através da manipulação e destruição que atingem toda a humanidade», em questões como o aborto, a eutanásia, a manipulação genética, entre outras. Uma queda no abismo que só poderá ser evitada com uma nova «aliança». «Se tivesse de recorrer a uma imagem bíblica, temos o mesmo risco do dilúvio universal. Toda a terra se irá submergir. Precisamos duma arca em que entrem todos os representantes para estabelecer uma nova aliança. Creio que isto é o que vai ser decisivo», afirma.

O novo presidente da Pontifícia Academia para a Vida aponta o exemplo irónico de um «rapaz que não é considerado maduro para votar num partido ser considerado maduro para poder decidir sobre a sua própria vida». «É uma contradição que mostra o grande perigo desta visão, um retrocesso triste em comparação com o sonho de uma humanidade solidária», diz, avisando que está em jogo a «dignidade da vida humana, destruída por estes curto-circuitos que se vão introduzindo na sociedade». «Muitas vezes aproveitam-se da compaixão superficial de um caso limite para legitimar a elaboração de leis muito perigosas». «É por isso que estou convencido que qualquer percurso legislativo tem de ser acompanhado de uma grade reflexão sobre estas temáticas», conclui.
 
Texto e Fotos: Ricardo Perna
 
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