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Conhece bem Francisco e Jacinta?
20.04.2017
Os pastorinhos Jacinta e Francisco, canonizados em 13 de maio em Fátima, tornaram-se os santos não-mártires mais jovens da Igreja. Mas quem eram estas três crianças e o que tinham de especial?

Em 1917, Jacinta tinha sete anos, Francisco nove e Lúcia dez. Jacinta e Francisco eram irmãos e os dois primos de Lúcia. Nunca tinham ido à escola e não sabem ler nem escrever. Depois das aparições do anjo, em maio de 1917, aparece-lhes Nossa Senhora.
As aparições são conhecidas, mas quem eram estas crianças? Sobretudo Jacinta e Francisco que vão ser canonizadas?
 
Jacinta era extrovertida e brincalhona. Foi ela quem contou à mãe que Nossa Senhora lhes tinha aparecido, quando todos tinham combinado guardar segredo. Em agosto de 1917, os três primos são levados para a prisão concelhia de Ourém. São ameaçados durante dois dias e duas noites. Há relatos de que rezam o terço na prisão e convidam os outros presos. Lúcia chega mesmo a contar: «Havia entre os presos, um que tocava harmónio (harmónica). Começaram então, para distrair-nos, a tocar e a cantar. Perguntaram-nos se não sabíamos bailar. Dissemos que sabíamos o fandango e o vira. A Jacinta foi então o par dum pobre ladrão que, vendo-a tão pequenina, terminou por bailar com ela ao colo!»
 
Jacinta fazia tudo pela conversão dos pecadores
Nas aparições, Jacinta ficou muito impressionada pela visão do inferno. Foi por isso que começou a fazer sacrifícios pela conversão dos pecadores. Os três pastorinhos faziam muitos: esfregava urtigas nas mãos, não bebiam água e fruta nos dias quentes e davam a sua merenda.
 
A mais nova dos três primos teve várias visões pessoais. Lúcia recorda na terceira Memória: «Um dia, fomos passar a sesta para junto do poço de meus pais. A Jacinta sentou-se nas lajes do poço; o Francisco, comigo, foi procurar o mel silvestre nas silvas dum silvado que aí havia. Passado um pouco de tempo, a Jacinta chama por mim: “Não viste o Santo Padre?” “Não!” “Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre em uma casa muito grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na cara, a chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre! Temos que rezar muito por ele!”». Em outra ocasião, na Lapa do Cabeço: «Chegados aí, prostrámo-nos por terra, a rezar as orações do Anjo. Passado algum tempo, a Jacinta ergue-se e chama por mim: “Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre em uma Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?”»
 
Francisco e a paixão por «Jesus Escondido»
Francisco era mais introvertido do que a irmã. Gostava de tocar pífaro e era um apaixonado pelo «Jesus Escondido» na Hóstia consagrada. «Quero consolar Nosso Senhor que sofre com tantos pecados», dizia. Lúcia conta que um dia lhe perguntou: «Do que gostas mais? De consolar Nosso Senhor ou de converter os pecadores para que não vão para o Inferno?» Francisco respondeu: «Se tivesse de escolher, preferia consolar Nosso Senhor. Não te lembras de como Nossa Senhora estava triste quando nos pediu que não se ofendesse mais Nosso Senhor que já estava demasiado ofendido? Quero consolar Nosso Senhor; mas gostaria também de converter os pecadores para que não O ofendam mais.»

A doença que matou os irmãos
Nossa Senhora tinha dito aos pastorinhos que levaria Jacinta e Francisco para o Céu. A pneumónica ou “espanhola” mata muitos portugueses. Os pais e irmãos de Lúcia iam tratar dos doentes. Na casa de Francisco e Jacinta ficam todos doentes. Francisco morre, em 14 de abril de 1919, com onze anos.
 
Lúcia escreve que «Francisco sofria com uma paciência heroica sem nunca deixar escapar um gemido, nem a mais leve queixa. (…) Um dia Jacinta mandou-me chamar e disse-me: “Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito”».

Jacinta, muito fraca, sofre de tuberculose óssea e é levada para Lisboa, onde morre, no Hospital Dona Estefânia, em 20 de Fevereiro de 1920, com dez anos. Conta-se que, tal como Francisco, sofre sem se queixar, até mesmo a cirurgia sem anestesia a que foi submetida.

Em 12 de Setembro de 1935, os restos morais de Jacinta são trasladados do cemitério de Vila Nova de Ourém para o de Fátima. É nessa altura que o bispo de Leiria manda Lúcia escrever tudo o que se recorda.

História do processo de beatificação e canonização
Em 3 de junho de 1922, o bispo de Leiria abre o processo canónico sobre os acontecimentos de Fátima. A primeira visita de um Papa acontece em 1967. Paulo VI aterra em Monte Real e desloca-se a Fátima para os 50 anos das aparições. Pede a paz para o mundo e a unidade da Igreja. Em 13 de maio de 1981, o Papa João Paulo II sofre um atentado e pede para ler a terceira parte do segredo de Fátima. Em sinal de gratidão por ter sobrevivido, João Paulo II peregrina pela primeira vez a Fátima. No discurso à chegada afirmou: «Vi em tudo o que se foi sucedendo – não me canso de o repetir – uma especial proteção materna de Nossa Senhora. E pela coincidência – e não há meras coincidências nos desígnios da Providência divina – vi também um apelo e, quiçá, uma chamada à atenção para a mensagem que daqui partiu, há sessenta e cinco anos, por intermédio de três crianças, filhas de gente humilde do campo, os pastorinhos de Fátima, como são conhecidos universalmente.» 

Em 13 de maio de 1989, o Papa assina o decreto de heroicidade das virtudes de Francisco e Jacinta. Os dois irmãos tornam-se veneráveis. É a primeira vez que tal acontece com crianças não-mártires. Em 1996, promulga o decreto sobre o milagre da cura de Emília Santos, obtido através da intercessão de Francisco e Jacinta. É na terceira peregrinação a Fátima que João Paulo II beatifica Jacinta e Francisco. O Papa apresenta-os como «duas candeias que Deus acendeu para iluminar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas».  

Lúcia amiga de João Paulo II
Lúcia morre em 13 de fevereiro de 2005, no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. O Papa, que se tinha encontrado com ela em Portugal, enviou uma mensagem: «Lembro com emoção os vários encontros que tive com ela e os vínculos de amizade espiritual que ao longo do tempo foram-se intensificando. Sempre me senti amparado pela oferta quotidiana da sua oração, especialmente nos duros momentos de provação e de sofrimento. Que o Senhor a recompense amplamente pelo grande e escondido serviço que prestou à Igreja. Apraz-me pensar que para acolher a Irmã Lúcia, na sua piedosa passagem desta terra para o Céu, tenha sido precisamente Aquela que ela viu em Fátima, já faz tantos anos.»

Foi já Bento XVI quem dispensou, em 2008, os cinco anos de espera para a abertura da causa da beatificação da Lúcia. A fase diocesana do processo foi encerrada em 13 de fevereiro deste ano e em 23 de março, o Papa Francisco aprova o decreto que aprova a canonização de Francisco e Jacinta Marto.
 
Texto: Cláudia Sebastião
 
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