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Cristãos de fa(c)to
19.06.2017 09:00:00
Foi notícia, há uns meses, a decisão de um bispo italiano em suspender por três anos, ad experimentum, a função dos padrinhos nos sacramentos. Tal como prevê o Código de Direito Canónico: «Dê-se, quanto possível, ao batizando um padrinho», não é obrigatória a sua existência, elencando, em seguida, no cânone 874, os cinco requisitos para se assumir esse múnus.

Trata-se de uma decisão que poderá não ser nova, mas que faz repensar o discurso da Igreja naquelas situações em que deverá salvaguardar a coerência de princípios e valores, sem prejuízo de uma pastoral de acolhimento, que também depende de um testemunho autêntico.

Perante a possibilidade da falta de idoneidade para se assumir de facto o múnus de padrinho, suprima-se essa função ou esclareça-se atempadamente pais e familiares, que invocam, como atenuante ou justificação, os laços afetuosos entre as partes. Porque será que não se lembram dos avós, cuja afetividade é inquestionável e habitualmente detêm as condições requeridas? É como num caso de estado grave de saúde da criança, os pais não vão recorrer à farmacêutica por ser amiga de infância ou ao nutricionista por ser familiar, mas a um médico pediatra, por mais desconhecido que seja, pela melhor capacidade de resposta a essa situação.

Na atualidade, a força da dimensão familiar e social nos atos religiosos é patente. Cabe à Igreja recentrar a atenção no ato celebrativo, em toda a sua dimensão, que é o facto essencial, quando o acessório, como o fato e o vestido, a boda e afins, invade, de sobremaneira, o acontecimento litúrgico.

É necessária uma mudança de mentalidade para que não haja submissão a meros desejos pessoais, provocando enorme desconforto sobre aqueles que seguem as orientações e as normas pastorais, propiciando a devida formação para uma pastoral inclusiva sem ser permissiva. Tudo isto requer paciência e atos de coragem que se tornam sinais de providencial renovação.

Referem os bispos portugueses na Nota Pastoral Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal, de 11 de abril de 2013: «Formar comunidades assentes no primado da graça, da contemplação, da comunhão e da oração, sabendo todos bem, pastores e fiéis leigos, que o essencial da vivência cristã e dos frutos pastorais na vida da comunidade não depende tanto do nosso esforço de programação e da multiplicação dos nossos passos e afazeres, mas depende sobretudo da transformação da nossa mente e da conversão do nosso coração (…). Neste sentido, queremos intensificar a oração pessoal e comunitária, dar a todas as ações litúrgicas a dignidade que lhes é devida.» Os sacramentos são ações litúrgicas por excelência, nos quais os intervenientes devem participar de facto, não como figurantes ou assistentes.

Perante os diferentes desafios das diversas culturas, as dificuldades e as situações de emergência, a Igreja tem-se mostrado capaz de se adaptar às novas realidades, ainda que de forma muito gradual. Deverá, pois, aproveitar toda a riqueza de dons dos que fazem parte dela, recuperando ministérios e ações pastorais descurados e suspendendo funções que não se justifiquem.

Na certeza de que não se exige a perfeição a quem lhe é pedido um serviço ou uma determinada missão, torna-se prioritária «a formação da vivência cristã de todos, particularmente dos agentes pastorais e dos líderes cristãos, que os leve a preparar-se, cada vez mais e melhor, para a missão e a nela se empenhar», como afirma a Nota Pastoral referida.