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Cuba: Igreja vive numa liberdade controlada
18.07.2016
D. Senra Coelho esteve recentemente em Cuba, onde participou na reunião do Organismo Mundial do Movimento dos Cursilhos de Cristandade com o Comité Executivo (de que é assistente espiritual) e os organismos da Europa, Pacífico-Asiático, latino-Americano, Norte-Americano-Caraíbas. À FAMÍLIA CRISTÃ falou sobre o modo como se vive a fé naquele país.


FAMÍLIA CRISTÃ - Foi a primeira vez que foi a Cuba? Como encontrou o país?
D. Senra Coelho - Não, esta é a segunda vez. Estive em Cuba, pela primeira vez, em 1998, logo após a visita de São João Paulo II, que muito marcou aquela ilha e teve como intuito reiniciar o Movimento dos Cursilhos de Cristandade (MCC).
Encontrei uma Igreja mais aberta, com mais espaço de liberdade, apesar de esta ser controlada e restrita em alguns aspetos: tem que se obter um visto específico para atividades religiosas, que é quatro vezes mais caro, diferente do visto turístico. Cuba está numa situação de “liberdade musculada”; mais desenvolvida, apesar das linhas da política interna permanecerem substancialmente as mesmas: partido único, poder muito vincado dos militares, polícia de Segurança do Estado muito atenta e controladora. A sociedade ainda não é de consumo e sente-se um grande vazio ideológico. Os bens de primeira necessidade são racionados e existe mercado paralelo. Há duas moedas: a turística, cujo preço é reconvertível entre o dólar e o euro, e o peso cubano que não é reconvertível a nenhuma moeda estrangeira.



FAMÍLIA CRISTÃ - A fé e os acontecimentos religiosos são expressos livremente?
D. Senra Coelho - Em certa medida sim. Dentro dos templos há liberdade, embora os sacerdotes e missionários façam constantes referências à presença atenta da Polícia de Segurança do Estado durante o tempo das homilias e pregações.
As manifestações externas (procissões, missas campais, etc.) carecem de autorização do poder político, que normalmente autoriza, mas também, em alguns casos, nega.
O povo cubano tem especial devoção a Nossa Senhora do Cobre, em honra da qual se realiza uma grande romaria, que congrega muitos milhares de devotos, num misto de tradição cultural, religiosidade popular e fé esclarecida. Este acontecimento tem exigido às autoridades cubanas um tratamento prudente de liberdade religiosa, de um povo que continua a batizar 70% dos seus filhos.
Há uma luta contra a Igreja a nível cultural: ensino obrigatório exclusivamente público do marxismo, ao qual a Igreja não tem acesso. Não existe uma estrutura significativa ao nível da comunicação social da Igreja nem escrita nem falada. Não são permitidas nem a Universidade Católica nem Escolas Católicas, somente a catequese ensinada no interior dos templos em concorrência com atividades desportivas e culturais, promovidas à mesma hora não inocentemente. Vive-se em Cuba um grande vazio ideológico pela atual crise da filosofia marxista, porém, o materialismo manifesta-se muito vivo na sociedade, sobretudo nos setores mais jovens.

FAMÍLIA CRISTÃ - A visita do Papa Francisco mudou alguma coisa?
D. Senra Coelho - Tive a alegria de constatar que, depois da visita de São João Paulo II, de Bento XVI e mais recentemente do Papa Francisco, já se realizaram, em Cuba, mais de cem cursilhos. 
A visita de João Paulo II foi um marco histórico, político e social na Cuba pós-revolução encabeçada por Fidel Castro. Houve grandes mudanças nas relações Igreja/ Estado. A partir desta visita passou a celebrar-se o Natal como feriado nacional; reiniciaram os cursilhos (mais de cem para homens e mulheres) sobretudo na diocese de Cienfuegos e com a ajuda dos sacerdotes da Companhia de Jesus.
Com a visita de Bento XVI, o qual muito impressionou a personalidade de Fidel Castro, a Sexta-Feira Santa passou a ser feriado nacional.
A presença do Papa Francisco consolidou as relações da Igreja com o Estado cubano e o seu encontro com Cirilo, Patriarca de Moscovo e toda a Rússia, fez de Cuba um local simbólico e incontornável na história do ecumenismo.

FAMÍLIA CRISTÃ – Como está o catolicismo em Cuba?
D. Senra Coelho – Cuba tem onze milhões de habitantes, onze dioceses agrupadas em três províncias eclesiásticas e apenas com um Seminário Maior de Filosofia e Teologia com quarenta alunos. O número de presbíteros ronda somente os 280. A vida religiosa feminina está presente e é muito importante na sua relação com as famílias e no apoio socio-caritativo. A Igreja não pode exercer atividade socio-caritativa através da Cáritas e das Conferências Vicentinas sem autorização do Estado, que é muito restrito neste setor. Em muitas situações, a Igreja não pode distribuir alimentos e medicamentos para evitar o seu proselitismo e não colocar em causa a eficácia das políticas cubanas.

FAMÍLIA CRISTÃ - Nota-se alguma mudança económica e social com a alteração das relações com os EUA?
D. Senra Coelho - Ainda não se notam alterações significativas nem dignas de registo, mas muita esperança que o fim do embargo e o desenvolvimento turístico entre os EUA e Cuba venha trazer uma grande onda de progresso e de liberdade, através da revitalização da construção civil com a criação de novos hotéis, vias rodoviárias modernas e promoção de centros comerciais para servir os turistas. Ouve-se, na opinião pública em geral, o desejo que se concretizem as promessas de Obama de trazer turistas americanos para Cuba e construir uma grande fábrica de tratores e uma urgente modernização e revitalização da agricultura, que está num lamentável estado de estagnação. A construção de hotéis e vias de comunicação criará novos empregos bem como a manutenção dos diversos serviços turísticos.
 
Entrevista: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perna
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