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Cuidados Paliativos - uma reflexão necessária
22.05.2017
Atualmente, muitos doentes e as suas famílias viveram e vivem os seus últimos tempos de vida com qualidade e dignidade devido aos cuidados paliativos, que atuam de forma especializada na prevenção e na abordagem direta ao controlo do sofrimento.
Politicamente falando, e mesmo com o novo Plano Estratégico para o Biénio 2017-2018, parece que os cuidados paliativos não têm sido entendidos, por parte dos decisores, como um direito de todos, mas apenas de alguns. Alguns esses que dependem do nível socioeconómico, do local de residência, da tipologia da doença, da idade, do tempo necessário de internamento ou da alocação a cuidados paliativos especializados. Mais importante, muitas pessoas dependem agora de um mecanismo de referenciação complexo, que não está claro na definição de critérios de complexidade e de mecanismos de articulação entre as várias tipologias e os vários serviços e as “redes de alocação”, o que revela uma organização não baseada nas reais necessidades dos doentes.

Se a disponibilidade de recursos é importante, igualmente o é a formação de todos os profissionais de saúde e uma adequada articulação entre todos os intervenientes que atuam no sistema de saúde.

Por outro lado, temos de aproximar os cuidados paliativos das pessoas. Seja ao colocar o tema na ordem do dia (por forma a desfazermos mitos), seja por capacitar os demais intervenientes no sistema de saúde para uma colaboração mais estreita e para intervenções mais adequadas, enquanto elementos fulcrais do sistema.

Importa elucidar que os cuidados paliativos não se dirigem apenas à fase terminal da vida, ou às últimas semanas ou aos últimos dias. Destinam-se a todas as pessoas, independentemente da idade, com doenças progressivas e graves, como cancro, insuficiências (cardíaca, pulmonar e renal) em estádios avançados, doenças neurológicas (incluindo as demências) e sida. A abordagem dos cuidados paliativos e a realização de tratamentos com o objetivo de controlar a doença não se excluem mutuamente, no entanto, ao longo da trajetória da doença, vão assumindo níveis de intervenção e de diferenciação diferentes, acompanhando o doente e a família nos vários settings de cuidados (domicílio, hospital, unidade de cuidados paliativos ou outro). Uma abordagem precoce permite um efeito preventivo, uma vez que antecipa, previne e alivia o sofrimento físico, psicológico e espiritual.

Os cuidados paliativos requerem um corpo de conhecimentos, atitudes e competências, nomeadamente boas competências de comunicação e compaixão, aliado a um rigoroso conhecimento científico, baseado na evidência mais recente, e a competências clínicas específicas. Todos os profissionais de saúde que acompanham pessoas com doença grave e progressiva, direta ou indiretamente, devem reunir as competências básicas que os capacitem para prestar ações paliativas. As equipas especialistas em cuidados paliativos devem apoiar as restantes equipas terapêuticas, sejam equipas de cuidados de saúde primários, sejam equipas hospitalares ou da comunidade, e devem estar envolvidas nos casos mais complexos, monitorizando os cuidados prestados e promovendo a sua melhoria através da formação, da investigação e do desenvolvimento de serviços.