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Da Síria a Portugal, do Inferno ao Céu
23.12.2016
Em 12 meses, percorreram 6.541 km. De carro, autocarro, barco, a pé e de avião, usaram tudo o que tinham à disposição para fugirem da guerra. Deixaram filhos, irmãs e amigos, e foi a fé em Deus que as ajudou a chegar até à paróquia de Santa Isabel, em Lisboa, onde foram acolhidas.

 
A história impressionante da Terez, da Gina e da Jizel, sobreviventes da guerra na Síria, é contada na igreja de Santa Isabel, em Lisboa, a paróquia que acolheu estas três sobreviventes. Nascidas e criadas em Damasco, na Síria, estas três refugiadas são avó, mãe e filha, e foram obrigadas a fugir do país por causa da guerra.

Dos bombardeamentos em Damasco, recordam a vez em que explodiu um autocarro escolar cheio de amigos de Jizel, que só não estava lá dentro porque moravam perto da escola e a mãe Gina ia busca-la. «A minha filha habituou-se a conviver com a morte, o sangue e os bombardeamentos todos os dias», conta Gina, enquanto Jizel brinca com um livro ao seu lado.

O sentimento de medo era uma constante nas três. «Mesmo quando dormíamos não conseguíamos descansar, porque o medo estava sempre presente. Nas alturas de maior frio tínhamos de dormir com as janelas abertas, pois diziam que era melhor, caso a casa fosse atingida por bombardeamentos. Nos últimos tempos, vestíamos o pijama para dormir, mas sempre alerta para sair de casa. Tínhamos as malas feitas, os passaportes e outros documentos perto das malas, caso tivéssemos de sair a correr», conta Gina, ao que Terez acrescenta que estavam sempre em clima de «ansiedade».

Estas católicas, uma minoria dentro da minoria cristã do país, decidiram fugir do país quando um dia, estando em casa de outra das filhas de Terez, irmã de Gina, souberam que a aldeia ao lado tinha sido massacrada. Começaram a fugir e só pararam em Lisboa, 12 meses depois.
Quando fugiu, Gina deixou um filho para trás e só conseguiu trazer Jizel. Deixaram a casa, todos os pertences e o resto da família. Tudo porque tinham medo de morrer.
 
A fuga da Síria
De Damasco ao Líbano foram de autocarro, mas as fronteiras estavam fechadas e tiveram de ficar três dias dentro do autocarro, até as deixarem entrar. Para a Turquia, apanharam um barco de carga que transportava automóveis e que ia repleto de refugiados. A vida no país não se revelou mais fácil. «Na Turquia há uma grande exploração do trabalho dos refugiados. Trabalhei como massagista, mas não me pagavam, e passei para um restaurante, onde trabalhava 12 horas por dia e recebia 20 liras (menos de 6 euros). Não podia deixar que a Gina trabalhasse, porque se a soubessem que a Jizel ficava sozinha em casa durante o dia, facilmente nos assaltavam ou faziam algo pior à menina», conta Terez.

Foram ajudados pela igreja católica local, que não vivia tempos fáceis. «A situação dos cristãos na Síria está melhor que na Turquia. Mesmo durante a guerra, era pior serem cristãos na Turquia que na Síria. A Igreja não podia tocar o sino, não podiam haver sinais exteriores da fé nas ruas, e estavam sempre a perguntar-nos se éramos aramaicas ou não, foram tempos difíceis», recorda Terez.

Jizel brinca na neve em Damasco. Memórias que hoje parecem tão distantes...Entretanto, tomaram a decisão de vir para a Europa. «Fomos falar com os contrabandistas para nos levarem nos barcos. Pediram-nos 600 dólares por cada uma, e não tínhamos dinheiro nenhum. O Pe. Henry, da nossa paróquia na Turquia, arranjou-nos 300 dólares. Conseguimos negociar com os contrabandistas as nossas passagens por 1000 dólares as três, mas ainda faltava muito dinheiro», conta Gina.

Os amigos deram uma ajuda, mas o grande auxílio veio depois de muita oração. «Estávamos desesperadas. Um dia, agarrei na fotografia da Virgem e comecei a rezar muito. Nessa altura, comecei a transpirar muito e senti que alguém rezava ao meu lado. No dia seguinte, pedi ajuda num dos grupos de facebook de refugiados cristãos de que faço parte. Um egípcio copta ouviu a minha história e disse que queria ajudar. Disse que o dinheiro não era dele, era de Deus, e por isso o dava, e assim conseguimos juntar todo o dinheiro para as nossas passagens», recorda Gina.

A viagem
Partiram para Esmirna, de onde deveriam apanhar o barco para a ilha de Lesbos. Os contrabandistas colocaram na água um barco que deveria levar menos de 30 pessoas, mas que carregava mais de 65. «Entrámos no barco e apenas conseguíamos ter a cabeça de fora. Estávamos uns por cima dos outros, e mal conseguíamos respirar. Coloquei a Gina e a Jizel por cima de mim, e eu apenas tinha a minha cabeça de fora. Quando estávamos para sair, a polícia turca apareceu e tentou furar o barco. Uma pessoa meteu a mão e o pau pontiagudo ficou espetado naquela mão e não atingiu o barco. Entretanto, reparámos que os contrabandistas se tinham ido embora, e não tinha ficado ninguém para conduzir o barco», conta Terez, visivelmente alterada, como se estivesse a viver tudo de novo.

A viagem durou 3h30, e foi auxiliada por um grupo de ativistas com quem Terez tinha contacto via SMS. Até que perderam a rede. «Um barco da polícia turca continuou a perseguir-nos para nos furar o barco e não nos deixar seguir viagem, e o condutor queria abrandar, mas eu gritei para ele acelerar ao máximo, até conseguirmos chegar a águas internacionais, pois foi isso que o grupo de ativistas me disse. Havia quem dissesse que devíamos voltar para trás, por causa das crianças, mas não sabíamos se depois nos iam salvar ou deixar ali no meio do mar. Mesmo que a ideia fosse apenas assustar, a verdade é que se fossemos ao fundo ali, eles não teriam capacidade de salvar toda a gente. Havia bebés, e eles não iriam sobreviver dentro de água, havia muitas crianças…», conta Terez.

Quando chegaram a águas internacionais, acabou-se a gasolina e o barco começou a deixar entrar água. «A água ia subindo, e todos começaram a gritar e a tirar peso do barco. No meio da confusão, mandámos para a água a mala que tinha todos os nossos passaportes e documentos. Nem pensámos nisso, só nos queríamos salvar», recorda Gina.
Quando já estavam sem solução, sem terra à vista de nenhum lado, apareceu um barco da polícia grega que, avisado pelo grupo de ativistas, foi ao encontro deles. «Fomos todos salvos, graças ao grupo de ativistas», conta Terez, que ri de incredulidade, recordando aquilo por que elas passaram.

Jizel (à esquerda) e Gina (à direita) no seu primeiro dia em Portugal, no Santuário de FátimaChegadas ao campo de refugiados, o medo não desapareceu. Eram as únicas mulheres católicas no campo, e não tinham nenhum homem que as protegesse, pelo que eram alvos fáceis. Foram identificadas pela Cáritas e alojadas num hotel em Atenas para famílias fragilizadas com filhos deficientes ou outros problemas, e dali foram realojadas em Portugal.
O país não estava nos seus planos, mas ao fim de uns tempos, acabaram por perceber que era a melhor opção, conta Terez, a matriarca. «Para mim, o importante era que fosse um bom povo. O resto, depois, resolvia-se. Ninguém sabia como iam correr as coisas, por isso mais valia vir para quem é simpático e não tem preconceitos, como é o caso do povo português», lembra-se de pensar na altura.

Quando ficou definido que viriam para Portugal, Gina descobriu Fátima. «Quando comecei a ler coisas sobre Nossa Senhora de Fátima, percebi que era um sinal de que este era um bom país para nós. Eu nasci a 13 de maio, e a nossa viagem foi marcada para dia 13 de setembro. Encarei como um sinal e ficámos mais descansadas», diz.
A fé foi, aliás, pilar nesta aventura. «A nossa fé nunca foi abalada. Foi por causa da nossa fé que conseguimos atravessar o mar e chegar até aqui. Podemos perder tudo, mas nunca a fé», diz Terez, com segurança.

Pode ler toda a história destas sobreviventes da guerra na Síria na edição de dezembro da FAMÍLIA CRISTÃ já à venda em quiosques e livrarias por todo o país.
 

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e D.R.
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