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Dar pousada aos peregrinos
01.03.2016
Santiago de Compostela tem sido, há séculos, ponto de peregrinação de milhões de fiéis, e nos últimos anos tem crescido o interesse por este destino, quer entre os crentes católicos, quer entre pessoas de outras religiões ou mesmo não-crentes, que aproveitam a vertente meditativa do Caminho para se encontrarem a eles mesmos ou simplesmente para apreciarem a vista.



Desde sempre, os peregrinos eram vistos como pessoas carenciadas que se faziam ao caminho, a quem era preciso dar pousada. E foi nessa condição que Margarida, a primeira peregrina com quem Fernanda falou, se apresentou. «Tinha corrido toda a aldeia e ninguém lhe dava guarida. Encontrou-me a mim e ao meu pai a virmos da horta e pediu, desesperada, que a deixássemos dormir em qualquer canto da nossa casa. Não pedia comida nem banho, apenas um local para descansar, e eu tive tanta pena dela que liguei ao Jacinto, ao meu marido, a explicar-lhe a situação e decidimos acolhê-la. A partir daí, nunca mais pararam de chegar», brinca a Fernanda, responsável pelo “abastecimento de misericórdia” que todos os peregrinos que fazem o Caminho Português pelo interior recebem em Vitorino de Piães. Sensivelmente a meio caminho entre os albergues de Tamel e de Ponte de Lima, esta senhora e a sua família, o marido Jacinto e a filha Mariana, têm há cerca de 15 anos as portas abertas para receber peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago.

Chegados de uma longa jornada, tomam banho, comem, descansam e partilham o dia. «A partilha é a parte mais importante. Aqui somos uma família, nem que seja só por uma noite», explica, enquanto estamos sentados no alpendre do anexo que construiu nas traseiras da sua casa para acolher os peregrinos. Isto depois de anos a deixá-los dormir dentro da própria casa, situação que agora só acontece quando são muitos. «Há uns tempos eram tantos que um casal que vinha em lua de mel teve de se contentar com um colchão na cozinha, coitados», conta.

Antes da conversa, tinha chegado um casal de peregrinos da Coreia do Sul. A Fernanda não estava, mas o portão nunca está fechado. Eles entraram, tiraram as botas, procuraram o anexo e foram tomar banho. Já estavam a pendurar a roupa lavada no estendal quando a Fernanda chegou e lhes ofereceu um chá quente. Esta disponibilidade estende-se a todos os peregrinos que lhe pedem abrigo, muitos sem possibilidade sequer de lhes pagar por isso. «Não pedimos nada, mas é verdade que vivemos de doações, senão era impossível conseguir acolher tanta gente», diz, acrescentando que lhe parte o coração ter de mandar alguns peregrinos embora por falta de espaço.


Muitas vezes voltam atrás com a sua decisão, porque a vontade de acolher é maior do que as dificuldades logísticas. «Uma vez apareceu aqui um espanhol, já de noite, a pedir acolhimento, mas estávamos cheios, todas as camas ocupadas. Mandei-o embora, porque não o podíamos receber, e ele retomou o caminho. Chovia imenso, e não fiquei sossegado. Quando a Fernanda chegou, falei-lhe sobre ele e fiquei arrependido. Pedi-lhe que fosse de carro à procura dele, e ela encontrou-o à beira da estrada a caminhar, e trouxe-o de volta para aqui. Há sempre lugar para mais um quando são verdadeiros peregrinos», conta o Jacinto.

Quando perguntamos se se sentem agentes da misericórdia de Deus, Fernanda conta um episódio curioso. «Eu devia ter sete ou oito anos quando vi pela primeira vez um peregrino de Santiago. Era um verdadeiro peregrino, com roupa velha e o cajado aos ombros com um farnel na ponta. Pensei: “Onde é que este homem vai assim, sozinho, a meio da noite?”, e tive pena dele. Acho que esse foi o primeiro sinal que Deus me deu desta missão», diz.

Desde a primeira peregrina que nunca este casal se questionou sobre a missão, mesmo que alguns achem que são loucos. «Nunca falámos sobre isto, nunca refletimos, fomos recebendo quem chegava e pronto, agora fazemos isto todos os dias», diz a Fernanda. O ano passado, entre abril e outubro, tiveram peregrinos todos os dias em sua casa, e apenas num dia tiveram um peregrino, chegando a haver dias com quase 30. «Montamos uma tenda na rua, dormem no alpendre, na nossa sala, na cozinha... onde calha», brinca.

Há cerca de um ano, um acidente com água quente queimou-lhe de forma grave o rosto. Foi a pedra de toque que precisava para deixar o emprego e se dedicar em exclusivo a esta missão de acolher peregrinos. «Os meus olhos saíram ilesos, e senti que era um sinal, e como o meu trabalho também não era muito certo [foi carteira durante muitos anos], resolvi não voltar a trabalhar e agora o meu trabalho é estar aqui, à disposição dos peregrinos. Faço as camas, lavo a roupa, cozinho almoços, jantares, trato de bolhas, dou carinho, converso muito... faço tudo, menos o pequeno-almoço», brinca, a olhar para o marido. «Há muito tempo que o pequeno-almoço está à minha responsabilidade. Vou levar a nossa filha ao autocarro às 7h30 e volto para lhes preparar o pequeno-almoço, antes de partirem para o Caminho», diz o Jacinto.

Tudo isto por amor a Deus. «O que nos une é o amor, e é o que eu digo muito aos peregrinos, muitos deles sem fé ou de outra religião. Isso é o mais importante, e se amarmos o outro, estamos a louvar a Deus», diz, antes de contar outra história. «Uma vez passou por aqui uma rapariga nova. Vinha exausta, tinha feito muitos quilómetros naquele dia. Explicou que vinha num caminho de discernimento pessoal, mas a carga de quilómetros que fazia mais parecia um caminho de penitência. Queria entrar para o convento, mas os pais não queriam, e então tinha partido para o Caminho à procura de respostas, mas como que a querer provar a ela própria que conseguia fazer isto. Cerca de um ano depois, recebemos uma carta dela a dizer que tinha entrado no convento, foi muito bonito», lembra.

O caminho até Santiago é duro, mas a misericórdia de quem acolhe os peregrinos torna a jornada menos cansativa e mais rica, uma verdadeira experiência de vida.

NOTA: O artigo foi publicado na edição de março da revista Família Cristã.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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