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«Descobri que o teatro era a minha missão»
27.03.2018

Podem dois desconhecidos conversar sobre teatro (celebrado em 27 de março) mais do que o espaço que uma revista permite? A resposta é “sem dúvida nenhuma” se um dos interlocutores for Luís Aleluia. O eterno (mas mais do que) menino Tonecas transporta consigo cerca de quatro décadas dedicadas à representação, no palco, na televisão, como ator ou produtor (fundou a produtora Cartaz, que promove espetáculos itinerantes pelo país) e tem muito a dizer sobre a profissão que agarrou também como missão. Fala com as palavras e com o amor ao teatro com a humildade de quem “aprendeu a varrer”.
 
A sua primeira incursão no teatro, quando ainda estava na Casa do Gaiato, em Setúbal, foi o que o despertou para a representação?
O teatro na minha vida acontece como acidente. Não era isto que eu queria, nem na época era aceitável; até para a instituição onde eu fui criado, o teatro não era visto como uma atividade muito consentânea com determinados princípios que nos foram incutidos no nosso crescimento.
Desde a adolescência que queria ser advogado para defender os mais desprotegidos.
O teatro acontece porque fui muito ligado a esta arte criativa, de criar poemas; e depois havia um colega que tinha uma guitarra e fazíamos música. Já depois de ter saído da instituição, no liceu, fizemos um grupo de tempos livres e fazíamos as nossas peças de teatro, e uma vez o Carlos César, que era o diretor da Companhia de Setúbal, viu uma dessas performances e achou que eu tinha bastante jeito para o teatro e convidou-me.
Acabei por descobrir que o teatro era a minha missão e a minha função social.
 
Tinha o desejo de defender os mais desprotegidos. Conseguiu, no teatro, fazer isso?
Sim, porque o teatro acaba por ter uma função social agregadora e também tem, ou eu como ator [tenho], um veículo de mensagens muito importantes. Não defendendo como queria, no tribunal, posso fazê-lo através do teatro, nos textos de denúncia, e há grandes autores que escrevem justamente sobre crises sociais, etc. e que me dão um prazer imenso representar também. Por outro lado, também tem uma outra função, que é poder dar uma paz às pessoas. Eu trabalho muito com o humor e o humor tem essa função também, de apaziguar quando há tristeza e quando há desconforto social, ou mesmo pessoal. Então as pessoas encontram na comédia, no teatro e, no meu trabalho em particular, pelo que vejo, uma certa forma de se sentirem bem, de lhes fazer bem, um antídoto contra a tristeza.
 
E esse antídoto, o teatro traz-lhe isso a si também. Numa das suas entrevistas disse que carregava consigo uma tristeza. De que forma é que o teatro o apazigua?
Provavelmente, de forma inconsciente. Se bem que quem lá está no teatro não é o Luís Aleluia com os seus problemas; é o ator Luís Aleluia a passar uma determinada mensagem e se calhar até as dores de um autor, de um dramaturgo; não as minhas próprias. Mas, muito provavelmente, como eu também já as vivi, consigo talvez passar uma determinada emoção, uma determinada sensação porque já experimentei também algumas dores.
Vou-lhe contar um episódio muito interessante e que foi uma lição: eu estava a trabalhar a peça da Piaff, no casino do Estoril com uma atriz brasileira muito conhecida, Bibi Ferreira e ela fez Piaff. A história de Piaff é muito dramática e eu tinha de fazer o Charles Aznavour num dos papéis e tinha que a ir ver à clínica, já ela estava a morrer mesmo, em fase terminal e ela não o queria muito presente na vida dela naquela fase, queria que ele voasse, “vai-te embora, desaparece”. E então a forma que ela encontrou foi dizer-lhe: “eu não gosto de ti, vai-te embora, desaparece, não venhas mais cá”. Aquilo magoou-o, porque ele estava ali num gesto de amor e eu tinha de fazer aquela cena com alguma verdade. E nos ensaios a verdade não estava a passar. E a Bibi Ferreira disse-me: “olha, ó Luis, há qualquer coisa que eu não estou a sentir, não estou a sentir que estás muito bem naquela cena. Vai à tua memória afetiva buscar qualquer coisa que te ajude a trazer para esta cena um sofrimento, uma coisa qualquer que tenhas passado. A verdade é que eu tinha tido uma cena muito idêntica àquela; uma pessoa que eu amava muito e que por acaso estava no IPO em fase terminal, não me mandou embora, naturalmente, mas foi muito doloroso. Então carreguei essa imagem e essas dores que tinha para os ensaios e a verdade é que aquilo resultou plenamente. A Bibi Ferreira depois deu-me os parabéns: “realmente está muito bem”. E no segundo dia também: “aquela cena agora está fantástica”; e no terceiro dia “Luís, adoro a tua cena… e no quinto ou sexto dia ela chamou-me e: “olha, desculpa lá, tu estás a viver a cena? E eu: “estou por isso é que aquilo está…” [Ela:] “não, não. Os atores não têm de viver. Foste lá; agora copia a emoção. Os atores não têm que sofrer em cena e eu estou a ver agora que estás a fazer a cena, mas estás a sofrer”. E os atores não têm que sofrer, os atores têm que copiar as emoções e depois decalcá-las e mostrá-las a um público. O ator está ali a passar uma emoção, não tem que viver aquela emoção. Agora, tem é que fazê-la de tal forma como se aquilo fosse uma verdade.
 
Tem nomes, referências do teatro que o tenham marcado mais e ajudado a crescer como ator?
Os atores estão sempre num trabalho contínuo de crescimento. O Sr. Ruy de Carvalho diz que nós estamos sempre em ensaios e ele é de uma humildade extraordinária que ainda agora fizemos a nossa série Bem-vindos a Beirais e lá estava ele a conversar com os mais novos e a aprender com eles e eu aprendo com o Ruy e o Ruy aprende comigo. Durante o meu percurso tive algumas referências com as quais eu trabalhei e que me ensinaram. Todos os colegas, em qualquer peça, os melhores e os piores, todos eles são muito importantes para a nossa formação, porque aprendemos também com os piores a corrigir-nos.
Tenho nomes que são muito importantes; não posso referenciar um ou dois porque todos eles são muito importantes. Mas é evidente que há uns em que colocamos tantas expectativas – porque, trabalhar com o Armando Cortez, o Raúl Solnado – e gostamos tanto daquelas figuras que pensamos: “nunca conhecerei estas pessoas”. Então, depois conhecê-las e receber deles ensinamentos é chegar a um êxtase.
Perguntar, por exemplo, ao Armando, como é que se divide uma determinada frase e ele ter a humildade de nos ensinar, sem pudores nenhuns.
O Nicolau Breyner também foi muito importante porque levou para a televisão; mas depois, todos os outros… é um percurso que nós vamos fazendo…o ator tem um registo dele, provavelmente vai criá-lo, o seu registo individual, mas aquele registo terá sempre qualquer coisa de todos os outros que se cruzaram na sua vida.
 
Há atores que por vezes ficam tão ligados a uma personagem que a rejeitam. Nunca lhe apeteceu fechar o Tonecas num baú?
Não, não. Fechei-o enquanto profissional, mas há aqui uma relação de afeto muito bonita e que fico muito feliz por ter conseguido. Aparecer-me As lições do Tonecas na minha vida, no meu percurso, foi uma coisa muito bonita, é um privilégio, aquilo caiu-me no colo; é uma sorte. Foi ele que depois serviu de êmbolo para fazer outros trabalhos e ter uma voz mais ativa na sociedade, que não teria. Se calhar, ser chamado a opinar sobre determinadas coisas e se calhar ajudar outras pessoas, outras causas, com outra estrutura, com outro peso, ser olhado com outro peso. Há uma relação de conforto em ter feito aquilo na minha carreira, foi muito importante para mim. E depois, mesmo que quisesse desligar-me do Tonecas as pessoas não deixavam, porque essa relação de proximidade que as pessoas criaram com o personagem, ou comigo, através do personagem, faz com que julguem que eu sou da família.
 
Essa proximidade que não pede licença não lhe traz…
Não; traz-me um pouco às vezes de incómodo da minha parte porque eu sou muito introvertido. Pareço que não, mas sou, fico um bocadinho encabulado, não sei como é que hei de reagir, às vezes até passo por malcriado, porque as pessoas falam e eu falo baixinho e as pessoas: “vê lá, nem me respondeu. Respondi. Já tem acontecido”. Mas até é bom, serve-me de guia, de medida, saber se as pessoas gostaram se não gostaram. Eu prefiro que me digam: “olhe, eu não gostei ou por isto ou por aquilo”. Vou-lhe dizer uma coisa muito interessante: uma vez, um senhor chegou ao pé de mim, no auge do Tonecas, toda a gente gosta do Tonecas e [ele] tem a coragem de vir ter comigo e dizer: “olhe, eu não gosto nada do seu trabalho”. Aquilo caiu-me…é que, ainda por cima ele vem quase a rir para mim e eu disse assim: “ah, mais um que veio cumprimentar, dar os parabéns e uma palmadinha nas costas, e o senhor chegou ao pé de mim e … Eu disse assim: “olhe, meu caro amigo, eu agradeço-lhe a sua opinião, não podemos agradar a todos, mas fico muito contente que alguém me diga isso, porque muitas vezes ficamos tão embalados, “ai está a correr tão bem”, que deixamos de ser críticos em relação ao nosso trabalho, nem sabe como é que isso me agrada. E mais, vou fazer de tudo para que num próximo [trabalho], você goste do meu trabalho, porque eu sou ator, é importante que as pessoas gostem do nosso trabalho, porque nós vivemos disso; é dali que nós recebemos o nosso dinheiro. E então ele disse assim: “olhe, então vou-lhe dizer: continuo a não gostar do trabalho, mas passei a gostar de si”. Acho isto muito bonito.
 
É mais fácil a vida de um ator hoje?
É mais fácil. Antes havia a segurança, não havia tanta intermitência porque as companhias, quando não tinham trabalho para aquele ator [ele] era pago pela companhia. Hoje, como há oferta, não estão ali mas estão a fazer um workshop. Há um recurso que antes não tinham, porque eram confinados a uns horários rígidos, não podiam, não tinham essa liberdade de fazer workshops exceto se fosse em nome daquela companhia. Hoje em dia não, há mais recursos. E também se vê que infelizmente, por outro lado, não são só os atores ou determinadas atividades que ganharam essa intermitência, infelizmente, porque a própria sociedade hoje é de uma vulnerabilidade extraordinária. Antes nós tínhamos a segurança, ser bancário era bom, ou ser da função pública era extraordinário. Tudo isso desapareceu. Tudo o que nós sabíamos que era seguro como profissão, vemos que hoje em dia a nossa realidade não tem essa visão de estabilidade.
 
Foi também esta nossa realidade que o fez alargar o campo dentro do teatro; tem a sua produtora, a Cartaz…
Foi. A necessidade de criar uma produtora foi a de não depender dos outros para a minha subsistência. E mais, conseguir dar a outros a subsistência de que eles necessitavam, ou necessitam. Saber que colegas meus e que são excelentes atores e que estão desempregados temporariamente; se eu puder dar trabalho, desafio-os e vêm trabalhar comigo. Faço eu o meu trabalho, contrato outras pessoas, sabendo que esses colegas que eu contrato muitas vezes não podem ficar sempre, porque se aparecer uma coisa de televisão, também é importante para eles; então saem uns, entram outros.
 
Já falámos de teatro e do muito que o teatro lhe trouxe. O que é que gostaria de deixar ao teatro?
Uma referência. Só fica como referência quem efetivamente soube respeitar o teatro e soube deixar alguma marca. E eu gostaria de ser referenciado porque fiz qualquer coisa de diferente e num passo evolutivo, portanto eu fiz qualquer coisa diferente e que melhorou a profissão. Gostaria de não me ter só servido do teatro, [mas] ter servido o teatro.
 
Para ler outras perguntas e respostas a Luís Aleluia, consultar a versão impressa da FAMÍLIA CRISTÃ de março 2018
 
Entrevista: Rita Bruno
Fotos: Ricardo Perna

 
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