Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Dez ideias do Papa para a família
08.05.2016
Há um mês atrás, Francisco publicava a exortação pós-sinodal que serviu de conclusão ao trabalho que toda a Igreja fez cerca de dois anos, que teve como pontos altos os dois sínodos dos bispos em Roma. «A Alegria do Amor», assim lhe chamou Francisco, pretende refletir sobre a Família e o papel fundamental que esta instituição tem na sociedade e na própria Igreja. Um mês passado sobre a publicação, destacamos dez ideias, conselhos ou visões do Papa sobre a Família, que se encontram espalhadas pelos diferentes capítulos da exortação, que originou muitas reações em todo o mundo.


 
Missão educativa dos pais
No ponto 17 o Papa escreve que «os pais têm o dever de cumprir, com seriedade, a sua missão educativa, como ensinam frequentemente os sábios da Bíblia (cf. Pr 3, 11-12; 6, 20-22; 13, 1; 22, 15; 23, 13-14; 29, 17). Os filhos são chamados a receber e praticar o mandamento “honra o teu pai e a tua mãe” (Ex 20, 12), querendo o verbo “honrar” indicar o cumprimento das obrigações familiares e sociais em toda a sua plenitude, sem os transcurar com desculpas religiosas (cf. Mc 7, 11-13). Com efeito, “o que honra o pai alcança o perdão dos pecados, e quem honra a sua mãe é semelhante ao que acumula tesouros” (Sir 3, 3-4). Uma missão na qual todos os pais se podem e devem empenhar.
 
O anúncio do matrimónio
No ponto 36 surge uma das principais críticas à pastoral familiar em todo o documento. «Ao mesmo tempo devemos ser humildes e realistas, para reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos, pelo que nos convém uma salutar reação de autocrítica. Além disso, muitas vezes apresentámos de tal maneira o matrimónio que o seu fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua ficaram ofuscados por uma ênfase quase exclusiva no dever da procriação», pode ler-se no documento.
Francisco põe o dedo na ferida. «Também não fizemos um bom acompanhamento dos jovens casais nos seus primeiros anos, com propostas adaptadas aos seus horários, às suas linguagens, às suas preocupações mais concretas. Outras vezes, apresentámos um ideal teológico do matrimónio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertámos a confiança na graça, não fez com que o matrimónio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário», afirma o Santo Padre.
 
Importância do Sacramento do Matrimónio
No ponto 72, que pertence ao capítulo III da exortação, pode ler-se que «o sacramento do matrimónio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo dum compromisso. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, porque “a sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja. Os esposos são, portanto, para a Igreja a lembrança permanente daquilo que aconteceu na cruz; são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação, da qual o sacramento os faz participar”. O matrimónio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto dum discernimento vocacional», aconselha o Papa.


 
A dimensão erótica do amor
Não sendo um assunto novo nos textos da Igreja, não deixa de ser interessante a forma como Francisco coloca a tónica na importância do erotismo para o aprofundamento da relação conjugal. O ponto 152 diz que «não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para o bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro, torna-se uma “afirmação amorosa plena e cristalina”, mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, “sente-se que a existência humana foi um sucesso”».
 
O pedido feito a cada grávida
No ponto 171, o Papa fala diretamente a cada mulher que esteja à espera de um filho. «A cada mulher grávida, quero pedir-lhe afetuosamente: Cuida da tua alegria, que nada te tire a alegria interior da maternidade. Aquela criança merece a tua alegria. Não permitas que os medos, as preocupações, os comentários alheios ou os problemas apaguem esta felicidade de ser instrumento de Deus para trazer uma nova vida ao mundo. Ocupa-te daquilo que é preciso fazer ou preparar, mas sem obsessões, e louva como Maria: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva» (Lc 1, 46-48). Vive, com sereno entusiasmo, no meio dos teus incómodos e pede ao Senhor que guarde a tua alegria para poderes transmiti-la ao teu filho».
 
Formação dos sacerdotes para acompanharem as famílias
É no ponto 203 que o Papa fala sobre a importância de ter sacerdotes bem formados para acompanharem as famílias. Uma formação que deve integrar a família do seminarista e a própria comunidade, onde o seminarista deve ser integrado. «Os seminaristas deveriam ter acesso a uma formação interdisciplinar mais ampla sobre namoro e matrimónio, não se limitando à doutrina. Além disso, a formação nem sempre lhes permite desenvolver o seu mundo psicoafectivo. Alguns carregam, na sua vida, a experiência da sua própria família ferida, com a ausência de pais e instabilidade emocional. É preciso garantir um amadurecimento, durante a formação, para que os futuros ministros possuam o equilíbrio psíquico que a sua missão lhes exige. Os laços familiares são fundamentais para fortificar a autoestima sadia dos seminaristas. Por isso, é importante que as famílias acompanhem todo o processo do Seminário e do sacerdócio, pois ajudam a revigorá-lo de forma realista. Neste sentido, é salutar a combinação de tempos de vida no Seminário com outros de vida em paróquias, que permitam tomar maior contacto com a realidade concreta das famílias. De facto, ao longo da sua vida pastoral, o sacerdote encontra-se sobretudo com famílias. “A presença dos leigos e das famílias, particularmente a presença feminina, na formação sacerdotal, favorece o apreço pela variedade e complementaridade das diferentes vocações na Igreja”».
 
Os primeiros tempos após o matrimónio
O Papa Francisco considera essenciais os primeiros anos de convivência matrimonial para preparar o futuro, que hoje em dia implica 40, 50 anos de convivência, ao contrário de tempos passados. No ponto 226, ele que «aos casais jovens, deve-se animar também a criar os seus próprios hábitos, que proporcionem uma salutar sensação de estabilidade e proteção e que se constroem com uma série de rituais diários compartilhados. É bom dar-se sempre um beijo pela manhã, benzer-se todas as noites, esperar pelo outro e recebê-lo à chegada, terem alguma saída juntos, compartilharem as tarefas domésticas. Ao mesmo tempo, porém, é bom vencer a rotina com a festa, não perder a capacidade de celebrar em família, alegrar-se e festejar as experiências belas. Precisam de compartilhar a surpresa pelos dons de Deus e alimentar, juntos, o entusiasmo pela vida. Quando se sabe celebrar, esta capacidade renova a energia do amor, liberta-o da monotonia e enche de cor e esperança os hábitos diários».


 
A Família como escola de valores
Já dentro do capítulo VII, quando fala da educação dos filhos, Francisco insiste na importância da família como primeira educadora. No ponto 274 pode ler-se que «a família é a primeira escola dos valores humanos, onde se aprende o bom uso da liberdade. Há inclinações maturadas na infância, que impregnam o íntimo duma pessoa e permanecem toda a vida como uma inclinação favorável a um valor ou como uma rejeição espontânea de certos comportamentos. Muitas pessoas atuam a vida inteira duma determinada forma, porque consideram válida tal forma de agir, que assimilaram desde a infância, como que por osmose: “Fui ensinado assim”; “isto é o que me inculcaram”. No âmbito familiar, pode-se aprender também a discernir, criticamente, as mensagens dos vários meios de comunicação. Muitas vezes, infelizmente, alguns programas televisivos ou algumas formas de publicidade incidem negativamente e enfraquecem valores recebidos na vida familiar».
 
A atenção às pessoas feridas
Voltando às ondas mais críticas, Francisco escreve contra os pastores que só olham às leis, e não à pessoa. No ponto 305, diz que «um pastor não se pode sentir satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações “irregulares”, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos da Igreja “para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”. Na mesma linha se pronunciou a Comissão Teológica Internacional: “A lei natural não pode ser apresentada como um conjunto já constituído de regras que se impõem a priori ao sujeito moral, mas é uma fonte de inspiração objetiva para o seu processo, eminentemente pessoal, de tomada de decisão.” Por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver na graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja. O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites. Por pensar que tudo seja branco ou preto, às vezes fechamos o caminho da graça e do crescimento e desencorajamos percursos de santificação que dão glória a Deus. Lembremo-nos de que “um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”. A pastoral concreta dos ministros e das comunidades não pode deixar de incorporar esta realidade».
 
A oração em família
Finalmente, a importância da oração em família no ponto 318. «A oração em família é um meio privilegiado para exprimir e reforçar esta fé pascal. Podem encontrar-se alguns minutos cada dia para estar unidos na presença do Senhor vivo, dizer-Lhe as coisas que os preocupam, rezar pelas necessidades familiares, orar por alguém que está a atravessar um momento difícil, pedir-Lhe ajuda para amar, dar-Lhe graças pela vida e as coisas boas, suplicar à Virgem que os proteja com o seu manto de Mãe. Com palavras simples, este momento de oração pode fazer muito bem à família. As várias expressões da piedade popular são um tesouro de espiritualidade para muitas famílias. O caminho comunitário de oração atinge o seu ponto culminante ao participarem juntos na Eucaristia, sobretudo no contexto do descanso dominical. Jesus bate à porta da família para partilhar com ela a Ceia Eucarística (cf. Ap 3,20). Aqui, os esposos podem voltar incessantemente a selar a aliança pascal que os uniu e reflete a Aliança que Deus selou com a humanidade na Cruz. A Eucaristia é o sacramento da Nova Aliança, em que se atualiza a ação redentora de Cristo (cf. Lc 22,20). Constatamos, assim, os laços íntimos que existem entre a vida conjugal e a Eucaristia. O alimento da Eucaristia é força e estímulo para viver cada dia a aliança matrimonial como “igreja doméstica”».
 
Ficam estas ideias, conselhos e críticas, mas há muito mais por descobrir neste documento extenso, mas acessível, do Papa Francisco.

Texto e fotos: Ricardo Perna
Continuar a ler