Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Direito laboral
16.10.2017
E começou um novo presente, isto é, o futuro. As férias foram mais que um interregno da rotina. Levámos tempos a alimentá-las e a senti-las como um espaço de fecho e recomeço. O cansaço dos útimos tempos, os dias que pareciam infindos e os problemas cada vez com mais ar de insolúveis. E, de repente, como que se abriu uma porta para um ar puro, uma paisagem inédita e uma esperança que já pensávamos que não existia. Foram os dias de espera, expectativa, como o advento sequioso daquele povo que esperava o Messias. Eram poucos os dias de repouso que nos esperavam, mas tinham tom de eterno. Aconteceu no primeiro dia, em que tínhamos a sensação de que as férias nunca mais terminariam e que até nos exigiam alguma imaginacão para que o tédio não acontecesse.

Foram os abraços, os espaços velhos tidos como novidade, os trajes, as paisagens, os regressos à infância, as rugas dos amigos que velozmente sulcaram os seus rostos. E até a lembrança deselegante de que talvez o mesmo estivesse a acontecer no nosso rosto. E a casa, os recantos, as recordações, alguns brinquedos de infância que por milagre escaparam à voracidade do envelhecimento e da morte.

Essa viagem, ainda que não longa no espaço e no tempo, também nos acordou às mudanças mil que aconteceram, mas a que resistiram as duras pedras, os objectos clássicos da economia doméstica, o velho forno que fumegava a frescura do nosso pão, o armário com a mesma fechadura que rangia, mas vedava a entrada a estranhos. Essa solidez de granito ou basalto que atravessou os tempos, indesgastavelmente, sorri da fragilidade dos nossos braços que mal empurram as portas, das rugas do nosso rosto, da inveja de não termos, como eles, resistido ao desgaste do tempo.

Foi o regressar a esse universo que nos faz sorrir de piedade pelo atraso em que se passou a infância, mas pela frescura que significou esse tempo que não admite recuo e aponta sempre, implacavalmente, para o futuro.

 No pressentimento de outono foi dada a última volta à chave, e ao tempo breve que foi essa visita. A um presente com traje de passado, entramos no nosso futuro. Fascinante, mas sem a mais pequena certeza do minuto que aí vem, das transformações que nos farão estremecer, das surpresas de dor e festa que chegam sem avisar. E o ranger da porta precedido de todas as fantasias da incerteza acompanha-nos na viagem ao nosso mundo já vivido. À noite teremos a mesma sopa comprada à pressa no hiper, a porta aberta com um código eletrónico, as decorações pacientemente à nossa espera. E a vida é como um primeiro de janeiro de ano novo, apenas com o anúncio do que de inesperado nos vai passar na alma. Aí sim, outra chave abre outro universo fascinante, onde o mesmo nunca se repete, a alegria se traja de fascínio, o amanhecer repara no sol da janela que se abre, a criatividade diz que nada se repete na existência. E até o sorriso cinzento do chefe se reveste de um tom que nunca antes se tinha notado. É isso o recomeço. As férias não são um simples direito laboral do trabalhador. São um tempo privilegiado de encontro com a vida que tantas vezes na rotina é ignorado.