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Divorciados recasados poderão contar com «a ajuda dos sacramentos»
14.07.2016
O Cardeal Schönnborn, arcebispo de Viena, concedeu uma extensa entrevista à revista Civiltà Cattolica e ao Pe. Antonio Spadaro, publicada hoje, na qual afirmou que as pessoas em situação ditas irregulares poderão ter acesso aos sacramentos como «ajuda» no caminho de discernimento que estejam a fazer.


Num excerto da entrevista publicado pelo jornal italiano Corriere della Sera ainda durante o dia de ontem, o arcebispo de Viena, conhecido por defender uma maior abertura da Igreja aos divorciados recasados, considera que este documento do Papa é Magistério da Igreja, ao contrário do que alguns responsáveis eclesiásticos têm vindo a afirmar. «É evidente que se trata de um ato do magistério!», afirmou, para de seguida defender que é «um documento pontifício de grande qualidade, de uma autêntica lição de sagrada doutrina, que nos leva à atualidade da Palavra de Deus».

Uma das questões mais mediáticas na exortação é precisamente a que se refere ao acesso aos sacramentos por parte de pessoas em situações ditas irregulares, uma catalogação que o Papa desconstrói, segundo o Cardeal Schönnborn. «Ele supera as categorias “regular” e “irregular”. (…) Andamos todos sujeitos ao pecado e todos precisamos da misericórdia. (…) Francisco não nega que haja situações regulares ou irregulares, mas vai mais além desta perspetiva para pôr em prática o Evangelho: “quem de vós nunca pecou que atire a primeira pedra”».

A diferença para o passado estará, pergunta Spadaro, no não limitar de uma regra geral? «No plano da prática, perante situações difíceis e famílias feridas, o Santo Padre escreveu que só é possível um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer que, “porque o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou os efeitos de uma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos”», afirma o prelado.

Este é um dos pontos que não é novo nos pontificados. João Paulo II e Bento XVI falavam ambos numa diferenciação da culpa, apesar de todos estarem em pecado objetiva. Uma culpa subjetiva que podia, em algumas situações como no caso dos cônjuges que são abandonados e impedidos de manter esse matrimónio, não existir. «Cada um destes casos, portanto, constitui o objeto de uma validade moral diferenciada. Abria pois a porta a uma compreensão mais ampla passando pelo discernimento das diferentes situações que não são objetivamente idênticas, e graças à consideração do foro interno», afirma o cardeal.

Esta compreensão seria sempre individualizada, e o próprio Cardeal Schönnborn afirma isso na entrevista, rejeitando o «inventário» que o Pe. Spadaro lhe pedia. Com o inventário «o risco é o de cair na casuística abstrata e, o que é mais grave ainda, criarmos — até mesmo com uma norma de exceção — um direito de receber a Eucaristia em situação objetiva de pecado. Aqui parece-me que o Papa nos põe perante a obrigação, por amor da verdade, de discernir os casos singulares em foro interno como em foro externo», sendo que, nos casos em que o discernimento da consciência, no foro interno, ilibar dessa culpa subjetiva, a pessoa pode receber a «ajuda dos sacramentos», tal como o Papa afirma na famosa nota de rodapé em que cita o ponto 47 da Evangelii Gaudium, que refere que o sacramento da Eurcaristia «não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos».

Finalmente, o cardeal Schönnborn não considera que estas ideias retirem força à doutrina da Igreja. «Francisco percebe a doutrina como um hoje da Palavra de Deus, Verbo encarnado na nossa história, e comunica-a escutando as perguntas que se lhe põem no caminho. Recusa ao contrário o olhar de rigidez sobre enunciados abstratos, separados do objeto que vive testemunhando-o no encontro com o Senhor que muda a vida. O olhar abstrato de tipo doutrinal domestica alguns enunciados para impor a sua generalização a uma élite, esquecendo que fecha os olhos perante o próximo e nos torna cegos até perante Deus, como disse Bento XVI na Deus caritas est», diz ainda o prelado neste excerto.

 
Texto e Fotos: Ricardo Perna
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