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Escuteiros debatem exortação do Papa sobre a Família
14.07.2016
O Espaço 34, nos Serviços Centrais do Corpo Nacional de Escutas (CNE) em Lisboa, recebeu ontem uma sessão sobre a exortação pós-sinodal do Papa Francisco, Amoris Laetitia, e a sua relação com o Escutismo. O orador convidado foi Juan Ambrosio, dirigente do CNE e docente na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP).


Na sua intervenção inicial, Juan Ambrosio destacou a importância desta iniciativa do CNE. «É importante que os documentos papais sejam bem rececionados, e este ainda não o foi, porque parece que há receio de falar sobre ele», disse perante a plateia de dirigentes que acompanhava a sessão na sala e através das redes sociais, via streaming.
O docente da UCP elogiou a «caminhada sinodal» de que este documento era o corolário. «A caminhada em conjunto é mais de acordo com a vontade de Deus, pois ficamos mais próximos de entender essa vontade se a procurarmos de forma sinodal», afirmou. Reconhecendo que esta proposta do Papa pode colocar em causa a “visão única” da Igreja, Juan Ambrosio relembrou que «não há apenas uma forma de Cristianismo». «O Concílio de Jerusalém, de que o Papa fala na sua exortação, validou duas visões, a de Pedro e a de Paulo, sobre quem poderia pertencer e chamar-se cristão. Portanto, pode haver vários caminhos dentro da Igreja. O Papa está consciente da sua missão, de unidade, e por isso não colocar em causa essa missão, embora a estique até ao limite», sustentou o professor universitário, dirigente há mais de 30 anos no CNE.
Fazendo uma retrospetiva dos últimos tempos de Francisco, Juan Ambrosio estabeleceu uma relação com os documentos de Francisco e a temática da Misericórdia. «A relação da família (sínodo) com a construção do mundo (Laudato Si) só pode acontecer se houver misericórdia (Ano da Misericórdia). Francisco pensou isto muito bem».
 
Dúvidas sobre missão dos dirigentes e situações ditas irregulares
A sessão implicava também a possibilidade dos moderadores e da plateia, na sala ou pela internet, colocarem questões e dúvidas sobre o documento e a sua relação com o escutismo. Um dos temas que mais afeta a juventude é a questão do matrimónio, e da falta de compromisso. Questionado sobre isso, Juan Ambrosio afirma que seria interessante que o próprio sistema de progresso permitisse apresentar a vocação do matrimónio aos miúdos desde tenra idade, e que os dirigentes pudessem ser «exemplos de verdadeiro amor» nas suas famílias. «A família não pode cumprir a sua tarefa de educação dos filhos sozinha, precisa de parceiros, e o CNE deve ser um desses parceiros», referiu.
Quanto ao capítulo VIII da exortação, sobre as pessoas em situações ditas irregulares, Juan Ambrosio foi questionado sobre até que ponto é que essas pessoas poderiam ser convidadas para exercerem funções no CNE, feito o devido caminho de discernimento individual de que o Papa fala na exortação. «A chave é integrar, mesmo nos dirigentes que estejam situação dita irregular». Juan Ambrosio propõe a realização de um caminho de discernimento com vista a uma integração, mas avisa que a disponibilidade para caminhar tem de ser mútua. «Eu não posso querer um caminho de integração nas minhas condições. Tem de ser um caminho de integração na comunidade, que tem os seus requisitos e as suas condições, e as pessoas têm de entender isso», avisou.
 
CNE rejeita candidatos “irregulares”, mas panorama pode mudar
Nos últimos anos, e desde que em 2002 foi tomada uma posição pública sobre o assunto que excluía automaticamente do movimento todos os dirigentes ou candidatos a dirigente em situações ditas irregulares, a Família Cristã sabe que o CNE tem pautado a sua política de adultos pela prática de excluir candidatos a dirigente que cheguem à formação em situação dita irregular, mantendo no movimento os dirigentes que se divorciam. Uma prática que poderá estar a acabar com esta exortação.
Em entrevista à revista Flor de Lis, o Pe. Luís Marinho, assistente nacional do CNE, refere que «esta exortação traz um novo contributo para o discernimento das situações chamadas irregulares». «As orientações do Papa são para levar muito a sério no sentido de “discernir quais as diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas”, conforme ele refere no ponto 299».
É neste sentido de discernir para integrar que Juan Ambrosio falava também ontem, na conferência, tendo até “oferecido” os seus serviços e os do assistente nacional do CNE no sentido de ajudar as pessoas a perceberem o caminho que precisa de ser feito neste campo, para que, por um lado, não sejam excluídas injustamente, mas por outro percebam que as regras da Igreja existem e devem ser obedecidas. «Alguns queriam que o Papa fizesse um documento em que dissesse que mudava tudo, outros queriam que o Papa fizesse um documento onde dizia que estava tudo bem, e que nada mudava. Ele optou por algo diferente: colocar o ênfase no discernimento e na consciência de cada pessoa, com a ajuda e o acompanhamento da comunidade. Isto é novo, coloca imensas questões e dificuldades, mas é o caminho que o Papa aponta», defendeu.


CNE deve ajudar Igreja a caminhar
Algumas pessoas têm vindo a colocar em causa a validade desta exortação papal como magistério da Igreja, ou seja, como indicação clara de que o caminho é por aqui, afirmando que este documento é uma mera opinião do Papa, principalmente no que diz respeito à questão das pessoas em situações ditas irregulares. «Sejamos claros: o texto é magistério. Este e o anterior, a Evangelii Gaudium, que é citado várias vezes. E mesmo as notas de rodapé são importantes, pois em qualquer trabalho as notas de rodapé servem para confirmar e aprofundar o que é dito no texto. Se eu tenho um bispo ou um cardeal que numa conferência vem dizer que as palavras do Papa não são para levar a sério, isso é que é uma opinião. O que o Papa diz nestes documentos é magistério», reforçou.
Alguns dos participantes na conferência partilharam histórias e queixas de não serem integrados por estarem em situação dita irregular, e saiu mais uma vez reforçada a ideia de que o CNE deve integrar todos, dentro das regras que a Igreja e o movimento definem. «O CNE é um movimento da Igreja, e deve reger-se pelas regras que ela define, que atualmente são estas. Mas também porque é movimento da Igreja, e um grande movimento, tem a obrigação de chegar junto da Igreja e fazer caminho com ela, questionando-a sobre a possibilidade que se abre com este documento, percebendo se há ou não novas formas de fazer as coisas, e eu acho sinceramente que existem alternativas. Vivemos tempos históricos, de mudança epocal, e é importante que o CNE tenha uma palavra a dizer sobre isso», concluiu o orador.
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Gonçalo Vieira | Flor de Lis


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