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Esta política não é para cristãos?
28.09.2017
A relação entre a Igreja e a política nem sempre parece muito clara. Será que os cristãos devem envolver-se na política? A Igreja defende que sim: deve haver separação entre Estado e Igreja, mas os cristãos devem empenhar-se da defesa do bem comum em todas as áreas.

O Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo atual, afirma que «todos os cristãos devem tomar consciência do papel particular e próprio que lhes cabe na comunidade política». Assim, «são chamados a dar o exemplo, cultivando o sentido de responsabilidade e dedicação ao bem comum; mostrarão, assim, pelos factos, como se pode harmonizar a autoridade com a liberdade, a iniciativa pessoal com a solidariedade e as exigências de todo o corpo social, as vantagens da unidade com as diversidades fecundas» (Gaudium et Spes, n.º 75).

Política como caridade?
O Papa Paulo VI dizia mesmo que a política é a forma mais perfeita de caridade. Em 2002, a Congregação para a Doutrina da Fé, sob a liderança de Joseph Ratzinger, publicou uma Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política se afirma que «os fiéis leigos não podem de maneira nenhuma abdicar de participar na “política”, ou seja, na multíplice e variada ação económica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover de forma orgânica e institucional o bem comum». João Paulo II, muitas vezes, desafiou e exortou os políticos cristãos a oporem-se a leis que fossem ou sejam um «atentado à vida humana». Diz a nota pastoral da Congregação para a Doutrina da Fé que «vale a impossibilidade de participar em campanhas de opinião em favor de semelhantes leis, não sendo a ninguém consentido apoiá-las com o próprio voto».

Foi São João Paulo II quem declarou Santo Tomás More padroeiro dos governantes e dos políticos. Este santo dizia que «o homem não pode ser separado de Deus, nem a política da moral». Chegou a ocupar cargos importantes em Inglaterra, mas morreu mártir por se recusar a reconhecer o divórcio de Henrique VIII e a ideia de uma igreja liderada pelo rei e não pelo Papa de Roma.

O bem comum acima de partidos
A Igreja defende que «perante exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis, os crentes têm, efetivamente, de saber que está em jogo a essência da ordem moral, que diz respeito ao bem integral da pessoa». Na carta encíclica Deus Caritas est, o Papa Bento XVI afirma que a ação cristã «deve ser independente de partidos e de ideologias», porque é «atualização aqui e agora daquele amor de que o Homem tem sempre necessidade» (n.º 31b).

O atual Papa tem falado bastante sobre este tema. Na Evangelii gaudium, Francisco defende que «a política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum» (n.º 205). No prefácio do DOCAT, pediu aos jovens «Ide também para a política e lutai pela justiça e pela dignidade humana, sobretudo dos mais pobres.»
Também num encontro com crianças e jovens de movimentos jesuítas, o Papa Francisco defendeu que «envolver-se na política é uma obrigação para um cristão», e que não se deve fazer como Pilatos e lavar as mãos. Francisco admite dificuldades para os cristãos que se envolvem na política. «Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão.»
Texto: Cláudia Sebastião
Imagem: Nuno Almeida

 
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