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«Estamos perante uma ditadura» na Venezuela
24.10.2017
D. Raul Castillo é bispo de La Guaira, na Venezuela. Esteve em Portugal a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre e falou com a FAMÍLIA CRISTÃ sobre a difícil situação que vive o país, com a pobreza e a fome que toca a todos, até aos religiosos.


Que tipo de revolução é aquela que está a acontecer na Venezuela?
Há dezoito anos, o presidente Hugo Chávez ganhou as eleições no meio de uma crise económica que já se vinha a sentir. E onde se sentia, poderíamos dizer, o abandono dos mais pobres; por causa da riqueza mal distribuída, o presidente Chávez, ainda como candidato, propôs uma mudança para procurar uma maior atenção pelos pobres.
Em síntese, foi o propósito do governo de implementar um modelo comunista/socialista de forte centralização, de forte controle do Estado, de isolamento internacional, que provocou uma grande crise económica e social no país.
 
Um modelo que está a conduzir a uma ditadura?
Ao perder as eleições, e sem o apoio popular, o executivo absorveu os outros poderes e na prática o que temos é uma ditadura, como denunciámos [nós] os bispos, em distintas ocasiões.
 
Como é possível que o Governo se mantenha no poder? Como se explica, a quem está de fora?
Como se explica? Explica-se porque têm as armas! Porque legitimamente foram eleitos, mas foram perdendo a legitimidade por tudo aquilo que tem acontecido. O povo pediu, e deveríamos ter tido, umas eleições de governadores em 2016 que não aconteceram; deveria ter havido um referendo para ver se o presidente continuava ou não e suspenderam-no por manobras legais.
Temos muitos presos políticos e não temos as condições suficientes para poder ouvir o povo e deixar que ele se possa expressar sobre que modelo político e social quer para a nação.
 
Tem medo de que a única solução que o povo consiga arranjar seja através das armas?
Não acredito que se chegue a uma guerra civil, porque as armas estão apenas de um lado, é isso que se vê nestas manifestações. O povo sai às ruas a protestar pacificamente e é reprimido pela parte militar, ou seja, pela polícia, através de uma pressão brutal.

 
As dificuldades que o povo vive nas cidades e no interior são as mesmas?
Em todo o país há uma grande carência de alimentos e medicamentos. Existem situações diferentes: nas cidades podemos conseguir alimentos a um preço mais alto, duas, três ou quatro vezes mais do que aquilo que custam, e nos campos não existem estes alimentos. Mas, depois, de alguma maneira, os agricultores podem fazer face a esta situação com alguns alimentos que cultivam nas suas hortas ou com a criação de algum animal, coisas que não acontecem nas cidades.
Sem dúvida que esta grande crise tem origem num modelo económico que quer controlar todas as coisas, e muitas vezes quer controlar o preço, atribuindo preços inferiores ao custo de produção. Ao mesmo tempo, o governo tem favorecido uma economia de porto, atribuindo fundos para que se comprem determinados produtos de fora aos amigos do governo. Isto tem criado uma forte corrupção que nos está a prejudicar muitíssimo.
 
Pode descrever situações de carências maiores de pessoas com que se deparou nos últimos tempos?
Todos os dias, quando saímos à rua, deparamo-nos com pessoas a procurar algo para comer no lixo; pessoas que vêm todos os dias às nossas paróquias pedir algo, porque não comem há dois ou três dias; doentes que não têm medicamentos.
Mas a pobreza não se vê apenas entres os que estão na rua. Apercebemo-nos dela também nos sacerdotes e nas religiosas. Nós sofremos as mesmas carências que os outros. Recentemente encontrei um sacerdote, vinha a chorar, pensei que tinha um problema mais grave e que lhe tinha acontecido alguma coisa, e ele disse-me «eu não como há dois dias». Levei-o para minha casa e disse-lhe «olha, tenho dois quilos de farinha, leva-os». Quando a pobreza já não são os outros, quando os pobres somos nós próprios, isso de alguma forma faz com que o nosso coração desfaleça e então apercebemo-nos de que não há razões para buscar os pobres: os pobres somos nós.
 
Chegaram até nós alguns relatos de que o Governo está a proibir a Igreja de ajudar. Isto é verdade?
No ano passado, a Igreja, a Conferência Episcopal, através da Cáritas Internacional, conseguiu receber alguns contentores com medicamentos para serem distribuídos pelas diversas Cáritas. O Governo não autorizou que os contentores chegassem até nós, e ficaram mais de um ano nos portos. Depois, o governo confiscou-os, afirmando que ninguém os tinha reclamado.
 
Como faz então a Igreja para levar para a frente os seus pequenos projetos de ajuda?
Através da solidariedade das pessoas. As pessoas partilham um pouco aquilo que têm, consegue-se comprar a preços mais altos, porque agora, na Venezuela, dada a escassez de comida, o Governo tem alguns alimentos que não disponibiliza a todos, que os dá somente aos que estão inscritos no seu partido.
A Igreja encontra pessoas que, apesar da pobreza, são capazes de partilhar, e aquilo que nós temos dividimos. Aquilo que é mais belo neste momento é partilhar, pelo menos, o tempo. Às vezes não temos nada para partilhar, mas é sempre possível fazer algo pelos outros.

 
E os religiosos que se mantêm ali, apesar das dificuldades, são verdadeiros agentes de Cristo?
Certamente. A mim comove-me, sobretudo, alguns sacerdotes e religiosas anciãs a quem as superioras-gerais lhes dizem: “venham-se embora porque estão a passar fome”, e elas dizem: “queremos estar aqui, com o povo”.
Um pai de família não pode abandonar os seus filhos para salvar-se a si próprio. Eu creio que é heroico da parte de algumas religiosas que estão nos bairros mais pobres, porque de alguma forma sabem que a sua presença aí ajuda a que o povo não perca a esperança.

Pode ler toda a entrevista a D. Raul Castillo na edição de outubro da revista Família Cristã.
 
Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Diocese de La Guaira
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