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Estudo mundial: Sociedade desvaloriza tempo em família
02.06.2017
As mulheres portuguesas trabalham em casa mais seis horas por semana em média do que os homens. É uma das conclusões do Global Home Index sobre o nosso país. As mulheres trabalham, em média, em casa, 18 horas por semana e os homens 13. É a diferença entre sexos mais baixa a nível internacional. Mas 90% acha que a sociedade valoriza menos o trabalho em casa do que o profissional e 80% afirma mesmo que a vida profissional dificulta dar atenção necessária à família e à casa.


Globalmente, as mulheres dedicam entre 14 e 26 horas, por semana, ao lar, enquanto os homens dedicam entre 6 e 16 horas. Uma esmagadora maioria, 76% considera que a sociedade valoriza mais o sucesso profissional do que a família. Apesar de mais de 80% de homens e mulheres considerarem importante o trabalho em casa e 60% considerarem que ajuda as desenvolver competências de outras áreas, apenas 20% partilham tarefas com os outros membros da família. Também muito poucos se formam nas tarefas domésticas.

Valorizar o trabalho doméstico
O estudo preliminar foi apresentado esta sexta-feira, em Lisboa. Patricia Debeljuh, a responsável, afirma que «o trabalho doméstico é como o ar: quando falta o ar é que damos conta que existe. O mesmo se passa em casa. Quando falta algo, pode ser no frigorífico, ou o lixo que não foi tirado, alguém dá conta. Quanto tudo funciona, parece normal que assim seja».

A investigadora sublinha a importância da família e do lar para as pessoas e para a sociedade: «Somos primeiro do que temos. O verdadeiro valor está no que somos. Aos meus alunos, grandes empresários, digo: “No fim da vida, ninguém diz que gostaria de ter passado mais tempo no escritório. Todos dizem que gostariam de ter estado mais tempo com as pessoas de que gostam.” Não pensemos nisso no último dia da vida, mas façamos algo antes.»

Portugueses fazem refeições em família
Francisco Vilhena da Cunha, vice-presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, apresentou os dados nacionais. Houve 865 respostas, 70% de mulheres. Mais de 90% dos inquiridos considera que a vida em família desenvolve competências úteis para outras vertentes da vida. Quanto às atividades em família feitas em casa, 90% faz as refeições em família, mas as mulheres cozinham mais do que os homens.


Na distribuição de tarefas, as mulheres estão mais envolvidas na arrumação, limpeza, organização e compras e os homens na manutenção da casa. A percentagem de famílias com distribuição de tarefas é muito superior ao global do estudo. Em Portugal, 65% distribui pelos membros o que há para fazer.

Todos se queixam da falta de tempo
A investigação partiu de entrevistas a 50 especialistas de várias áreas e de 37 países. Todos diziam que lhes faltava tempo. «Queríamos fazer pensar as pessoas. Falta-nos tempo na sociedade de hoje até para pensar. Vivemos numa sociedade em que o ritmo de vida nos leva a nem sequer pensar para onde vamos», afirma Patricia.

O estudo agora apresentado é preliminar porque tem 20 países. Mas neste momento ainda é possível responder na internet e já há respostas de 100 países. O objetivo era perceber o que fazem as pessoas em casa e como percebem o tempo que dedicam ao seu lar. «As tarefas de casa são invisíveis, não entram nas contas públicas de nenhum país e são pouco valorizadas», defende a investigadora. Assim, outro dos objetivos era «a revalorização social do trabalho doméstico», através de políticas públicas mais amigas das famílias.


Estudo ainda em aberto
O Global Home Index conta com o apoio das Nações Unidas e foi levado a cabo pela Home Renaissance Foundation do Reino Unido, Centro Walmart Conciliação Família e Empresa do IAE Business School da Argentina e Centro Cultura, Trabalho e Cuidado do INALDE Business School da Colômbia.

Em Portugal, o estudo tem como parceiros a BeFamily e a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas e foi apresentado pela Plataforma Pensar & Debater. O questionário foi também distribuído em três colégios. Os inquiridos tinham pessoas a cargo, quer crianças quer idosos. Graça Varão, da BeFamily, defendeu que este estudo «exige uma mudança de mentalidade e fazer a apologia do cuidado».

Patricia Debeljuh é professora, investigadora e diretora do Centro de Conciliação Família e Empresa, na Argentina. Desde maio que tem andado pelo mundo a apresentar o estudo nos vários países que participaram.

Se quiser participar, basta clicar aqui. Para ter acesso ao estudo preliminar na totalidade, pode clicar aqui.
 
Reportagem e fotos: Cláudia Sebastião
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