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Euro e Olímpicos: exploração sexual, não obrigado!
05.07.2016
O Euro 2016 de França está aí e os Jogos Olímpicos são em agosto no Rio de Janeiro. São eventos desportivos que movimentam muitos milhões de euros e dólares e milhões de pessoas, algumas contra a sua vontade.



«Organizações da sociedade civil atestam um aumento da exploração sexual, durante os Jogos Olímpícos: 30% na Alemanha, em 2006, e 40% na África do Sul, em 2010. E após o mundial de futebol de 2014, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil divulgou os dados do Disque 100, Departamento de Ouvidoria Nacional para os Direitos Humanos, no período da copa do mundo de 2014, evidenciando um crescimento de 41,2% em comparação com o mesmo período do ano anterior.» A Ir. Eurides Alves de Oliveira é coordenadora da «Um Grito pela Vida», rede brasileira da vida consagrada contra o tráfico de pessoas.

A Irmã do Imaculado Coração de Maria afirma que «lamentavelmente o tráfico de pessoas vem, nas últimas décadas, e particularmente nos últimos anos, tornando-se um problema de dimensões cada vez maiores, a ponto de ser denominado como a “escravidão contemporânea”. A preocupação do crescimento desta prática criminosa durante os eventos dos jogos olímpicos insere-se na dinâmica dos grande fluxos, movimentos de pessoas e da necessidade de realizar em curtos prazos obras de infraestruturas ou na ganância de quem quer lucrar sem se preocupar com a dimensão ética das relações humanas». O Brasil ser visto como um país acolhedor, alegre e belo não ajuda, pois é uma «imagem carrega contradições e práticas de exploração e estereótipos culturais de discriminação e violência de género, relacionados às mulheres como objetos sexuais e de consumo».

Daí que o Brasil seja conhecido como destino que, mesmo em tempos sem eventos desportivos, atrai pelas ofertas sexuais. A Ir. Eurides conta que «um relatório de 2015 divulgou que os sites associados à pornografia e que promovem o Brasil como um lugar de destino de turismo sexual aumentou 3350 unidades em dois anos. No Estado do Rio de Janeiro continua alarmante a situação de exploração sexual de crianças e adolescentes». Só nos quatro primeiros meses de 2016, houve 77 denúncias de abuso e 97 de exploração sexual. Quantos não terão ficado por denunciar?

Lançamento da campanha «Jogue a favor da Vida», no Rio de Janeiro
 
Se é assim habitualmente, mais será em eventos que trazem mais pessoas e mais turistas. São dados que impelem à ação. Daí que tenha sido lançada uma campanha mundial para alertar para a exploração sexual e o tráfico de pessoas associados a grandes eventos desportivos. «Jogue a Favor da Vida» pretende alertar para o «um fluxo enorme de pessoas, em particular adolescentes e jovens de famílias de baixa renda que acabam sendo aliciadas para a prostituição e/ou sendo envolvidas em esquemas de grupos criminosos que vivem do comércio sexual e usam violência, ameaças e outros artifícios, para as traficarem para o mercado sexual e/ou exploração laboral dentro ou fora do país».


Escravos no nosso tempo
Além da exploração sexual, há também outro lado, o do tráfico para trabalho escravo. A Ir. Eurides diz que «foram múltiplas as denúncias de trabalho escravo para a construção das infraestruturas para a Copa do Mundo na África do Sul (2010) e no Qatar (2012)». Também nas construções para os Jogos Olímpicos do Rio houve casos detectados: «o Ministério Público do Trabalho retirou onze trabalhadores do Projeto Ilha Pura que estavam em situação comparada à de trabalho escravo.»

Ir. Gabriella no lançamento da campanha mundial

Mas porque acontece o tráfico de pessoas? E porque passa despercebido? A Ir. Gabriella Bottani é coordenadora da Talitha Kum, rede mundial da vida consagrada contra o tráfico de pessoas. A missionária comboniana explica que «o tráfico de pessoas é um grande negócio e lucrativo, principalmente na sua modalidade de exploração sexual. Um mercado ilícito que mobilita milhões de dólares em cada ano. Muito deste dinheiro, uma vez “lavado” sustenta os mercados financeiros». Torna-se difícil mostrar que há exploração quando «até as pessoas que sofrem as consequências da exploração, muitas vezes não conseguem enxergar a sua triste realidade, pois tem mais valor o perfume, ou o sapato de marca que conseguem adquirir, não importa o preço que têm que pagar. Muitas pessoas, sobretudo em situação de exploração sexual encontram-se em situação de escravidão por dívida».

No outro lado da equação estão as causas deste problema como a pobreza, a busca por melhores oportunidades de trabalho, necessidade de sustentar a família ou motivos ambientais (secas ou inundações). Tudo isto leva, muitas vezes, as pessoas a procurar melhores condições de vida. Há também quem queira conhecer outras culturas, casar-se com um estrangeiro, ou livrar-se de violência doméstica, abuso sexual. Desejos válidos, mas que são muitas vezes aproveitados pelos traficantes. «Aproveitam-se daquilo que é o bem mais precioso das pessoas,  a sua capacidade de sonhar, de querer mais, de ir mais longe. A pessoa entra exatamente nos espaços onde os sonhos ainda são negados, onde restam poucas ou nenhuma alternativa, com uma promessa que parece uma oportunidade única. Um vez frustrada esta expectativa a pessoa por medo, vergonha ou até por não saber identificar que foi vítima, prefere o silêncio e assim o crime continua algo oculto.»

Para a Ir. Gabriella, «muitos dos traficantes ou gestores das redes do tráfico de pessoas são as autoridades que deviam proteger e evitar estes crimes, o que faz as pessoas terem medo e não confiarem em fazer as denúncias». Por outro lado, «também a impunidade e o pouco rigor na aplicação das leis contribuem para a subnotificação dos casos de exploração sexual e tráfico de pessoas». Quando se somam fatores culturais que legitimam a procura por serviços sexuais e culpabilizam as vítimas tudo piora.
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: Talitha Kum
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