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Fátima e a chamada à conversão
01.05.2017
Qual a mensagem de Fátima? O Mons. Feytor Pinto explica o que Nossa Senhora quis dizer aos pastorinhos.



Foi a partir de meados do século XVIII que a Humanidade, sobretudo com o nascer de algumas ideologias, se afastou dos valores do Evangelho e pôs em questão a fé cristã. Depois, da revolução francesa, a Europa mergulhou no racionalismo, considerando o ser humano capaz de resolver sozinho todos os seus problemas. Mais tarde, em meados do século XIX, o marxismo fez passar a ideia de que a religião é o ópio do povo e por isso devia ser abandonada. Finalmente, o existencialismo nos primeiros anos do século XX reduziu o essencial ao mais fácil, considerando a liberdade como um valor absoluto, dispensando totalmente a relação com Deus. Todo este caminho histórico da comunidade humana conduziu ao desprezo pelo transcendente e pelos grandes valores cristãos, que deveriam suportar a relação com Deus e com todos os seres humanos.

Maria visita Europa
É dentro deste ambiente, esvaziado de sobrenatural, dominado pelo agnosticismo e até pelo ateísmo, que os céus se abrem e Maria vem por várias vezes visitar a Terra, na Europa. Nossa Senhora apareceu em Lourdes, a Bernardette Soubirous, junto à gruta de Massabielle, dizendo: «Eu sou a Imaculada Conceição.» Apareceu depois em Fátima, a três pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, que a consideraram: «A senhora mais brilhante que o sol.» Entre 1858 e 1917, a mensagem de Maria, em Lourdes ou em Fátima, tem como traços comuns a necessidade da penitência e da oração, fórmulas propostas por Maria para a recristianização da Humanidade. Há, porém, uma diferença: enquanto em Lourdes se afirma a intercessão de Maria, para a cura dos doentes, em Fátima o essencial é a renovação profunda da Igreja através da conversão dos pecadores.
 
A revelação de Deus nas aparições de Fátima tem dois tempos diferentes, que se completam, numa harmonia extraordinária. Em 1916, o Anjo da Paz vem encontrar-se com os pastorinhos por três vezes, em Aljustrel, preparando-os para a visita de Nossa Senhora e dando-lhes mesmo a Primeira Comunhão. Quem visita, em Fátima, a Loca do Cabeço tem oportunidade de maravilhar-se com o ambiente simples que rodeia a estátua do Anjo, a transmitir aos pastorinhos o mistério da Eucaristia. 

Os pastorinhos veem Nossa Senhora
O segundo tempo das aparições acontece na Cova da Iria, quando Nossa Senhora aparece sobre os ramos de uma azinheira. Foi entre maio e outubro que, por seis vezes, Nossa Senhora se revelou aos pastorinhos de Fátima. São momentos de uma espiritualidade intensa, só possível pelo ambiente cristão que os pequeninos vivem nas suas casas. Maria pede-lhes muita oração pela conversão dos pecadores. A nota dominante é de natureza espiritual, a conversão, a mudança de vida, a fuga do pecado, o encontro com Jesus por meio de Maria. Tudo isto se faz pela penitência e oração. A oração que Nossa Senhora pede é a reza frequente do Rosário, manancial de graça para o conhecimento dos mistérios cristãos e interpelação repetida a Nossa Senhora, para que interceda pelo Mundo junto de seu Filho. Nos pedidos de Maria aos pastorinhos está também presente a promoção da paz, a conversão da Rússia (símbolo do ateísmo), a oração pelo Papa (expressão de amor à Igreja) e finalmente a conversão da Humanidade.

A mensagem de Fátima não se esgota no diálogo de Nossa Senhora com os pastorinhos. Lúcia, depois de estar em Pontevedra no convento das Doroteias e, mais tarde, no convento das carmelitas em Coimbra, continuou a receber mensagens de Maria. Todas elas continham o pedido da conversão dos pecadores. No centro da mensagem de Fátima está, então, a conversão pessoal e a conversão coletiva. É fundamental que as pessoas, em pecado, se reencontrem com Deus. Mas é também essencial que as diversas comunidades cristãs se renovem profundamente, para melhor responder à nova evangelização. Para a conversão pessoal, o Santuário de Fátima tem sempre a disponibilidade de acolher os pecadores e lhes oferecer o sacramento da Reconciliação.

Perdão e conversão
O Papa Francisco, na proximidade da vinda a Fátima, fala deste grande sacramento do perdão, dizendo que ele é um lugar de convívio entre dois pecadores em que um deles, por mandato de Deus, pode perdoar os pecados. O Papa diz também que a Reconciliação é um tempo maravilhoso da misericórdia infinita de Deus. Afirma, finalmente, que o sacramento do perdão é também um lugar de evangelização, de anúncio de Jesus Cristo. No Santuário de Fátima, tem-se consciência da importância da conversão dos pecadores, como o pedido mais belo feito por Maria.

Não pode a conversão, porém, ter apenas uma dimensão pessoal. As comunidades cristãs têm também de converter-se, renovando-se profundamente no tríplice ministério, profético, sacerdotal e real. Por isso, o Santuário de Fátima abre as portas à renovação profunda da Igreja, forma extraordinária da conversão pedida por Maria. Esta renovação consegue-se através de oportunidades de estudo sobre a Sagrada Escritura, sobre a liturgia, sobre os movimentos laicais, sobre o dinamismo sociocaritativo das comunidades cristãs. Tudo isto é um sinal da conversão da própria Igreja na mais profunda renovação. Fátima é lugar de peregrinação, mas é sobretudo lugar de conversão, de aprofundamento da fé e de compromisso cristão na vida de todos os dias. Poderá então dizer-se que o essencial da mensagem de Fátima é mesmo a chamada à conversão. 

Mons. Feytor Pinto, pároco do Campo Grande, em Lisboa
Fotos: Ricardo Perna e CPP

 
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