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Fátima é «a denúncia mais forte do pecado no mundo»
22.03.2017
Decorrem hoje, em Fátima, as I Jornadas de Comunicação Social do Santuário de Fátima, no Centro Pastoral Paulo VI. As jornadas surgem no contexto do centenário das aparições de Fátima, na preparação da visita do Papa, mas resultam de um desejo de há algum tempo. «A relação de Fátima com os meios de comunicação social não é recente, e celebrar 100 anos é também celebrar esta relação. Desde o início, os meios de comunicação social tornaram-se presença habitual em Fátima e tornaram-se testemunho informativo que nos permite hoje escrever a história de Fátima», disse o reitor do Santuário de Fátima, o Pe. Carlos Cabecinhas.


D. António Marto foi o primeiro orador da manhã, e trouxe uma intervenção sobre a atualidade da Mensagem de Fátima nos dias de hoje. Apesar de, «à primeira vista, nada ter de especial, porque foi uma mensagem confiada a crianças pobres e analfabetas, uma mensagem adaptada ao seu mundo simples de há 100 anos», o bispo de Leiria-Fátima considera que «o seu alcance é mundial, situa-se no centro das preocupações mundiais do século XX».
 
D. António Marto apontou três grandes chaves hermenêuticas de leitura da Mensagem de Fátima. Sobre o contexto histórico, o prelado afirmou que, «numa leitura teológica, a guerra mundial torna presente e evidente um concentrado do Mal, um símbolo real da globalização do pecado experimentado pela primeira vez a nível planetário». Por isso, defendeu também que «a Mensagem de Fátima é a denúncia mais forte e impressionante do pecado no mundo, depois dos Evangelhos, que convida a Igreja e todo o mundo a um exame de consciência sobre os caminhos que estavam a percorrer», uma vez que a sociedade aceitou e justificou «a normalidade do Mal».
 
Sobre o que D. António Marto define como a «nuvem de misericórdia» que é Maria, «reflete-se na mensagem um paradoxo: o extremo e misterioso contraste entre a grande história das nações e dos seus conflitos e a história dos humildes e dos pequenos, dos pobres que estão na periferia do mundo, que foi para quem Maria falou». «Estes pequenos, pobres e sem poder são chamados a intervir da periferia para a luta pela Paz. É o poder da oração do justo para a reparação, a conversão e o próprio sacrifício pelos outros», sustentou o bispo de Leiria-Fátima.
 
Nossa Senhora «procura colaboradores» para o trabalho de conversão dos pecadores a Deus, e «essa é a primeira pergunta que faz aos pastorinhos». Por isso, diz, «o principal protagonista das aparições é Deus, e não Nossa Senhora».
 
Neste sentido, D. António Marto define como terceira chave de leitura a esperança no triunfo do amor e da paz. «Graça e misericórdia são as últimas palavras da última aparição de Nossa Senhora a Lúcia em Tui, em 1929. São a síntese da mensagem de Fátima e da revelação de Deus compassivo», afirmou, acrescentando que a última visão relatada por Lúcia, de uma Senhora que vai desaparecendo o horizonte abençoando o mundo, «concorda com a última passagem do Evangelho de Lucas», que relata a Ascensão de Jesus e refere que Jesus abençoa o mundo, e que mostra que «a misericórdia de Deus continua a abençoar o mundo».


«Fátima sugere um modo de vida crente»
O Pe. Carlos Cabecinhas abordou os eixos teológicos da Mensagem de Fátima falando da relação de Fátima com a Igreja para defender que «a Mensagem de Fátima permite conjugar dimensão mística com vertente profética de denúncia do mal que está presente na mensagem de Fátima». «Fátima é mística e é profecia e ambas as vertentes se concretizam numa espiritualidade de vida crente que Fátima oferece hoje à Igreja e aos cristãos», referiu o reitor do Santuário de Fátima.
 
Referindo que as «aparições marianas são olhadas com desconfiança por alguns setores da Igreja por nos distraírem do que é fundamental», o Pe. Carlos Cabecinhas diz que «em relação a Fátima isso é um grave preconceito». A Mensagem conduz ao que é essencial na vida cristã: no centro está o evangelho da Trindade, e é isso que aparece no centro das aparições», argumentou.
 
No centro da espiritualidade de Fátima aparece o «desafio ao testemunho» na «experiência de Igreja». «Quando falamos de Igreja, pensamos no Papa, mas isso é redutor. A primeira experiência que fazemos de Igreja é a comunidade que se reúne para celebrar a sua fé, e é isso que os peregrinos fazem aqui em Fátima, animados pelo espírito de Deus», diz o sacerdote, acrescentando que muitas «pessoas que têm pouco vínculo com a vida cristã encontram no santuário o único momento de experiência de Igreja», o que levanta também um grande desafio, segundo o reitor. «O desafio é levar quem vem a este santuário a fazer experiência de igreja reunida, que leve a que a pessoa possa querer manter essa relação nas suas comunidades. Mas nada disto é automático, e o que pretendemos é que a qualidade das celebrações deve ser de tal forma que reforce esse laço das pessoas à experiência eclesial».


Fátima também não pode ser entendida sem ter em conta a dimensão penitencial no santuário, muito presente na peregrinação. «Toda a peregrinação autêntica é caminho de conversão. Peregrinar é sair do seu espaço de conforto, para ir a um outro lugar, mas o que define a peregrinação não é simplesmente ir a um lugar diferente, mas sim ir a um lugar diferente para regressar transformado, e essa dimensão está profundamente inscrita no ADN de Fátima», defendeu o Pe. Carlos Cabecinhas.
 
Tão forte como essa dimensão é a caridade para com os doentes. «A atenção aos doentes teve sempre lugar especial em Fátima, e desde que Lúcia pediu a Nossa Senhora que curasse alguns doentes, foi sempre em crescendo o número de pedidos de intercessão e o número de doentes que se deslocam a Fátima para apresentar os seus motivos de sofrimento. É escola de caridade e de serviço aos irmãos», afirmou.
 
A manhã terminou com a intervenção de Marco Daniel Duarte, diretor do Centro de Estudos e Difusão do Santuário de Fátima, que falou aos participantes sobre as fontes usadas para o estudo de Fátima.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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