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«Fé torna-se mais forte quando é testada»
23.06.2015
D. Joseph Coutts é o presidente da Conferência Episcopal do Paquistão e esteve em Portugal a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Num país de maioria muçulmana onde uma Lei da Blasfémia condena todos os que não creem no Islão, fomos saber como vivem os cristãos nesta democracia que consagra o direito à liberdade religiosa mas que vê fundamentalistas entrarem em igreja e matarem todos os cristãos que conseguirem.



Como é a situação dos cristãos no Paquistão?
De uma forma geral a situação não é boa, por causa dos ataques recentes à igreja. Vivemos em tensão, sem saber o que vai acontecer a seguir. Sabemos que algo vai acontecer, mas não sabemos quando nem onde. É esse tipo de tensão que nos ocupa o pensamento, por causa dos acontecimentos que se têm sucedido nos últimos anos.

Estes problemas apenas acontecem há poucos anos?
Houve uma enorme mudança na situação do país. Em 1947, o nosso fundador, Mohammed Ali Jinnah, fez um discurso bonito em que dizia que éramos livres de ir a um templo, a uma mesquita ou a uma igreja. "Aquilo em que acreditamos nada tem a ver com quem somos", dizia. Agora somos todos paquistaneses, e temos de aprender a ser paquistaneses num país livre. Foram palavras muito encorajadoras, que mostravam uma abertura muito grande para todas as religiões. Apesar do país ser 95% muçulmano, também éramos paquistaneses. Isto foi muito reconfortante de saber. Mas o que tem acontecido nos últimos anos é uma mudança desta posição. Alguns grupos muçulmanos têm feito pressão para transformar o Paquistão num país estritamente muçulmano, e isto foi mais forte durante a ditadura militar do general Zia-ul-Haq, entre 1979 e 1988. Durante a sua presidência, ele transformou o país num estado islâmico. Algumas leis islâmicas foram introduzidas, como a lei da blasfémia, e isso degenerou numa maior intolerância.

Esse foi o momento da viragem?
Não quero dizer com isto que aquele ditador foi o único responsável, pois houve outras coisas que aconteceram. Nos anos 80 tivemos a invasão dos russos ao Afeganistão, e esta ideia de comunistas a invadirem um país muçulmano originou uma reação do Paquistão, que, com a ajuda dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, combateu contra os soviéticos. A ideia de jiad foi oficialmente introduzida nesta altura, para permitir que jovens combatentes fossem para o terreno defender o Afeganistão.

D. Joseph Coutts, presidente da Conferência Episcopal do PaquistãoE como é que isso trouxe consequências negativas para os cristãos paquistaneses?
Há uma perceção em muitos muçulmanos de que o Ocidente é todo cristão. Portanto, quando os americanos começaram a bombardear o Afeganistão, depois do 11 de setembro, para apanharem o Bin Laden, começaram a chegar milhões de refugiados, 3 milhões de uma só vez, e as pessoas começaram a revoltar-se contra os cristãos, porque achavam que nestes países são todos cristãos. E isso teve efeito em nós, porque voltaram-se contra nós e disseram que de alguma forma estávamos ligados a esses "poderes" cristãos que estavam a causar toda aquela situação.
Sentimos uma crescente intolerância. Mas também é verdade que não vem da parte do governo. Os grupos radicais muçulmanos são contra o governo, pois pretendem um estado islâmico, e o Paquistão é uma democracia, o que não é um problema para a maioria dos muçulmanos no país. Mas para esta forma particular do Islão isto é um problema. Eles lembram-se dos dias antigos do Califado e reclamam um novo Estado. O problema, portanto, não é entre o Islão e o Cristianismo, mas entre esta forma radical e fanática do Islão que se quer estabelecer e os cristãos, o governo e todos os outros muçulmanos que não concordam com eles.

Sente que o governo é portanto sensível à liberdade religiosa?
A nossa Constituição diz que somos livres de praticar a nossa fé. E a verdade é que somos livres de professar a nossa fé, temos igrejas, escolas, e cristãos, muçulmanos e hindus vivem e trabalham juntos. Todos os nossos serviços – educação, saúde, ajuda aos deficientes, ajuda aos toxicodependentes – estão abertos a todos, até porque a maior parte das pessoas são muçulmanas.

E todos trabalham em conjunto?
Sim, todos juntos.

Então o problema está na interpretação do Islão que alguns fazem?
Este novo tipo de militância do Islão, que acredita no uso da força para mudar o regime, na jiad, nos bombistas suicidas, algo que o Islão condena, porque tal como o Cristianismo não aprova o suicídio. Eles estão a usar estes métodos e justificam com a defesa da sua religião, o que é errado.

A intervenção de países estrangeiros nestes conflitos é uma realidade no Paquistão?
A intervenção existe e, não sendo a causa do problema, está a agravá-lo com as ajudas que chegam de fora para estes grupos. Nós tivemos o problema do combate ao comunismo, que trouxe muitos talibans para lutar nas nossas fronteiras, e que, com o fim do conflito, a retirada dos soviéticos e a chegadas das tropas da NATO iniciaram um novo conflito e vieram para o Paquistão. O governo aprovou a vinda destes soldados, mas isto depois virou-se contra nós, por causa da sua visão do Islão.

É fácil perceber qual é a verdadeira face do Islão?
O Islão não é como a Igreja Católica, não tem uma autoridade central como nós. Tem diferentes escolas de pensamentos, diferentes seitas. Portanto, não há ninguém que possa dizer "esta forma de Islão não está correta". Eu posso ter 50 imãs a concordar com uma coisa e 500 do outro lado a concordar com outra, e nenhum está errado. Há alguns centros com autoridade, como a Universidade Al-Azhar, no Cairo, mas o Islão não tem essa centralidade.

Mas sem esse controlo ou centralidade, como é possível acabar com isto?
Não é uma pergunta fácil de responder. Quando vimos, no Paquistão, que os grupos extremistas estavam a ameaçar o governo, eles lançaram uma ofensiva com 30 mil soldados para acabar com estes soldados que vivem nas montanhas e fazem as suas bombas caseiras em pequenas oficinas locais. Foi uma investida que está em andamento e conseguiu alguns resultados, mas como eles estão escondidos nas montanhas é difícil... mas o governo tomou ações contra eles, e uma ação forte.

Aquando dos atentados em Lahore, o Papa disse que estes eram crimes que o mundo estava a esconder... concorda?
Bom, nem tanto. Quando falamos em liberdade religiosa, nós temos essa liberdade, apesar de tudo. Temos liberdade para fazer ouvir a nossa voz, de protestar. Em todas as grandes cidades do Paquistão, os cristãos saíram para protestar contra esses atentados, e muitos muçulmanos solidarizaram-se connosco. A imprensa local e nacional deu cobertura. Muitos muçulmanos saíram à rua connosco e em Karachi até uma associação de advogados escreveu uma carta a condenar estes ataques, e muitas organizações de direitos humanos o fizeram.

Imãs também?
Um grande número de imãs disseram "o Islão não nos ensina a atacar locais de culto quando as pessoas estão a rezar".



Estes ataques minam a fé dos cristãos?
Nada, e posso dar um exemplo. A primeira experiência de termos uma igreja a ser atacada foi em 2001, depois do 11 de setembro e dos EUA terem começado a bombardear o Afeganistão. Foi em outubro que começámos a receber refugiados e começou uma sensação de raiva para com os Estados Unidos e, por associação, como já expliquei acima, para com os cristãos. E foi assim que, numa manhã de domingo, duas pessoas entraram numa igreja protestante e mataram 14 pessoas e feriram muitas. Essa foi a nossa primeira experiência, não tínhamos seguranças nem nada, porque ninguém previa isto.
Depois disto, e quando estávamos na altura do Natal, questionámo-nos se deveríamos fazer a Missa do Galo, por causa da segurança. Muita gente na rua, à noite, eram alvos fáceis. Não decidimos nada, mas quando as pessoas souberam que estávamos a ponderar isso, algumas pessoas vieram ter connosco a perguntar o porquê de cancelarmos a missa. Eu expliquei-lhes que estávamos a ponderar isso por causa da sua segurança, mas eles responderam: "sr. Bispo, se os terroristas nos quiserem matar, preferimos morrer na igreja do que em casa", e muitas pessoas vieram à celebração.

Esse é um grande exemplo para todos os que vivem sossegados e até se esquecem da sua fé...
A fé mostra-se mais forte quando é testada, e nós vivemos tempos em que estamos a ser constantemente desafiados pela nossa fé.

 




Entevista e Fotos: Ricardo Perna
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