Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Guerra da água perto do fim em Damasco
17.01.2017
Depois de algumas semanas com pouco ou nenhum abastecimento de água, parece estar a chegar ao fim mais um problema para os habitantes de Damasco. Chegam-nos relatos de hoje que falam de uma ofensiva militar na região de Wadi Barada para eliminar o que resta das tropas de um braço da Al-Nusra, frente jihadista que não assinou o cessar-fogo e que estava a controlar a região, tudo para garantir o normal abastecimento de água na cidade.
 
A UNICEF começou a abastecer de emergência escolas em Damasco na semana passada.
Segundo a estação de notícias Aljazeera, o governo sírio conseguiu negociar há três dias um acordo com os rebeldes que controlam a área de Wadi Barada, onde estão as instalações da estação de tratamento de águas de Ain al-Fijah, mas só hoje será eventualmente assegurado controle do local. Há algumas semanas, segundo relatos que nos chegam do terreno pela voz da Ir. Myri, uma religiosa portuguesa a viver em Damasco, por altura do Natal, «fizeram explodir a nascente e a seguir despejaram uma cisterna de gasóleo na água» que abastece a cidade de Damasco, afetando 5,5 milhões de pessoas, a maioria já a viver em condições difíceis. «As primeiras pessoas afetadas, envenenadas das primeiras casas que receberam a água, foram ao hospital e o hospital, dando-se conta, avisou o governo, que agiu imediatamente cortando a água e avisando toda a população através da companhia telefónica por mensagens ou mesmo telefonando. Houve mortos, mas poucos, por causa da rápida reação para avisar toda a gente», conta a religiosa.
 
Depois desta situação, «as pessoas viveram cerca de 2 semanas a comprar água engarrafada para beber e a restante recebendo-a através de camião cisterna, mas entretanto o governo reparou e mudou as canalizações que receberam o gasóleo, inclusive das casas afetadas, desviou a água da nascente afetada para os esgotos e abriu a água da outra nascente que é menos abundante e de menor qualidade... mas ao menos vai-se vivendo», relata a Ir. Myri.
 
Não é clara a autoria dos bombardeamentos à nascente em Wadi Barada. Apesar dos relatos das forças governamentais irem no sentido de justificar a ofensiva com o facto de os rebeldes terem envenenado a água, existem relatos contrários que indicam que o bombardeamento foi a estratégia que o presidente sírio encontrou para forçar os rebeldes a abandonarem o local. Apesar de existirem vídeos a mostrar o bombardeamento, não há forma de saber quando foram feitos ou de quem são aqueles rockets que explodiram. Algumas fontes argumentam que não poderiam ter sido os rebeldes a destruir a sua única vantagem na região, que era a nascente, mas outras fontes argumentam que o bombardeamento terá ocorrido depois dos rebeldes terem envenenado a água, como resposta a avanços do exército sírio sobre outras áreas.

Independentemente das culpas, a verdade é que, apesar do cessar-fogo, a situação em Damasco continua muito difícil, principalmente com a chegada do Inverno e do frio. «Tem havido grandes cortes de eletricidade, e como é um inverno frio não é fácil», relata a Ir. Myri, que aponta o problema da falta de combustível como uma agravante nestes dias. «A escassez de combustível para os carros é também uma dura realidade num país produtor de gás e petróleo. É preciso ter sempre uma reserva porque muitas vezes não se encontra nas bombas. Uma vez que viajei vi uma fila enorme para uma bomba junto à autoestrada. As matérias-primas existem, mas as estruturas de fabricação e distribuição volta e meia são bombardeadas», relata esta religiosa à FAMÍLIA CRISTÃ.

Sobre isto, as Nações Unidas pronunciaram-se pela voz de Jan Egeland, chefe da missão humanitária da ONU na Síria, que avisou que «cortar o acesso à água é um crime de guerra, porque são os civis os mais afetados», ao mesmo tempo que informava não ser possível ainda determinar de quem tinha sido a culpa em toda esta situação, confrontado que tem sido com tanta informação e contra-informação.
 
Sem eletricidade, gás ou combustível, o frio torna-se impossível de combater. «O mazout [combustível] que utilizam nas caldeiras a petróleo já não é tão barato nem abundante como no passado, altura em que o governo ajudava monetariamente as famílias para o terem suficiente para se aquecer no inverno. E as pessoas estavam habituadas aquecer-se bem», lamenta.
 
As crianças começam a ter acesso a água nas escolas. Apesar disso, algumas têm de fazer muitos quilómetros para encherem depósitos para ajudar as famílias em casa.
Na região do Qalamun, onde se encontra o mosteiro da Ir. Myri, a vida é «menos má», uma vez que «há mais segurança, pois o exército tem reconquistado terreno aos rebeldes», mas os relatos que as equipas de voluntários do mosteiro trazem do terreno são bem piores, segundo conta esta religiosa. «Disseram-me que se encontram pessoas a dormir em edifícios sem portas nem janelas e às vezes em manga curta por não terem outra coisa para vestir. Os refugiados que não têm nada nunca poderiam sobreviver sem ajuda alimentar humanitária, um dos trabalhos da nossa equipa é precisamente descobri-los e ajudá-los», conta, isto numa região que regista para os próximos dias temperaturas mínimas de 3ºC. «Vi pessoas, que têm a sorte de trabalhar, ganharem unicamente para dar de comer a si e aos seus filhos, nem sequer podiam arranjar colchões ou coberturas para dormir», denuncia.
 
Mhardeh em perigo
 
A juntar à situação de Damasco, uma das maiores vilas cristãs da Síria, Mhardeh, tem sido alvo de ataques terroristas nos últimos dias, à medida que as forças rebeldes ligadas à Al-Qaeda se vão juntando no terreno e bombardeando posições na cidade. A Sana, agência de notícias síria, confirma que foram disparados rockets sobre a cidade, não provocando mortos, mas sim destruição de património.
A organização não governamental SOS Cristãos Oriente divulgou imagens dos ataques que alegadamente ocorreram durante uma ação de entrega de cobertores e outros materiais da organização, com os feridos a serem deslocados para os hospitais mais próximos. A organização diz que «caíram 7 rockets em 1 hora».
 
   
A Ir. Myri relata que a situação na cidade não é fácil, pelos relatos que vai recebendo. «Não há combustível nem eletricidade, a vida não está nada fácil lá…»
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: © Unicef/Muhannad Al- Asadi
 
 
Continuar a ler