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França: «Há perigo de católicos serem percebidos como extraterrestres»
24.11.2017
Jean Mercier tem 53 anos e trabalha há 20 no jornal cristão semanal francês La Vie. Publicou um livro sobre celibato dos padres, fazendo a defesa desta regra, e outro sobre a crise dos padres. Senhor bispo, o pároco fugiu (originalmente Monseiur curé fait sa crise) satiriza a fuga de um sacerdote "enterrado" em burocracias e farto de se sentir funcionário administrativo e de não ter tempo para rezar. Nesta entrevista à FAMÍLIA CRISTÃ, Jean Mercier fala sobre a Igreja em França, a crise dos sacerdotes e as mudanças profundas que estão a acontecer. O autor alerta para o fosso cada vez maior entre católicos e franceses de base, numa sociedade muito secularizada.
 
Jean Mercier é jornalista e escritor.Qual foi a sua inspiração para este livro?
Comecei a escrever os primeiros capítulos num dia de outono de 2011 quando voltava de uma Missa em que me apercebi de uma pequena disputa entre duas senhoras da paróquia… Era apenas para me divertir e brincar… Dei a ler a uma amiga que me aconselhou a continuar porque ela se tinha rido. Mas tinha de terminar um enorme trabalho sobre o celibato sacerdotal, que me ocupou seis anos da minha vida. Terminei esse livro Célibat des prêtres, la discipline de l'Eglise doit elle changer? (Celibato dos padres, a regra da Igreja deve mudar?), em julho de 2014 e, no mês seguinte, escrevi a minha pequena fábula. Em primeiro lugar, para me divertir. Era um jogo. De seguida, mudei muito o texto, sobretudo o final porque fui atingido por um cancro no final de 2014 e isso mudou o meu olhar sobre a vida e sobre Deus.

Os sacerdotes são homens e esquecem isso? Ou são os paroquianos muito exigentes e pedem que eles sejam como Deus?
Os padres são homens, de facto. Mas como se encontram num cargo único em que encarnam Cristo para os homens e as mulheres do nosso tempo, estão sob uma enorme pressão de exemplaridade. Eles interiorizam o dever de ser perfeitos ou, pelo menos, assemelhar-se a Jesus, se é que isso é possível. É um sofrimento terrível. Por causa desta pressão, os padres (sobretudo os jovens) são tentados a cair no ativismo, a esquecer as suas necessidades de base (sono, descontração, alimentação, desporto). O risco é, a seguir, o esgotamento ou uma grave crise de identidade. Tudo isto é agravado pela penúria de padres em França.
Do lado dos paroquianos, há também uma responsabilidade porque nos tornámos consumistas e esperamos muito dos nossos padres, nomeadamente um reconhecimento do que somos ou fazemos. Ora, isso é muito cansativo para um pároco (ou um bispo) dar permanentemente reconhecimento, porque é preciso implicar-se afetivamente, estabelecer relações verdadeiras.

O livro foi lançado no final de outubro em Portugal.

Benjamim Bucquoy é um exemplo dos padres de hoje, sem tempo para a sua missão, a oração, a salvação das almas (como ele diz)?

Sim, ele está absorvido pela gestão, a manutenção de um sistema paroquial que está sem fôlego, sobretudo fora das cidades. É o sistema – nomeadamente baseado sobre a malha geográfica das paróquias – que está a chegar ao seu fim, em França, que é um país muito grande, com poucos padres e poucos católicos verdadeiramente praticantes para fazer andar a máquina, ainda que a procura do sagrado continue a ser forte, pelos católicos sociológicos que perderam o contacto com a Igreja e que já não compreendem a sua coerência interna, mas que querem, apesar disso, casar-se diante do Senhor Prior ou batizar o seu bebé. Neste quadro, os padres são confrontados com questões cada vez mais personalizadas. Há 50 anos, todos os casamentos, batismos e funerais eram feitos da mesma maneira. Hoje em dia, o narcisismo, o consumismo e o individualismo dos nossos contemporâneos são tão grandes que as pessoas querem que a Igreja se adapte aos seus desejos e aos seus caprichos. Já não estão dispostos a receber a liturgia tal qual a Igreja a prevê. Por exemplo, querem cantar a canção preferida da sua mãe no funeral, mesmo se a música nada tem que ver com Deus: e nesse caso o pároco tem de dispensar muita energia a explicar-lhe que «Não, a igreja não permite isso», etc., etc. É esgotante porque o padre está permanentemente na situação de se justificar.
No fundo, os padres gastam uma energia importante nestas interações com um mundo que procura o sagrado, mas não forçosamente Deus. Isso exige muita flexibilidade e amor e, talvez, os padres já não possam mais e precisem de dizer STOP! Eles devem também ter jogo de cintura em situações complexas: pessoas que vivem uma relação amorosa sem casamento, os divorciados recasados – dar-lhes os sacramentos ou não? É um quebra-cabeças!
Tudo isto reforça a impressão, para os párocos, que são administradores ou distribuidores dos sacramentos, mas que passam ao lado do essencial, que é de permitir às almas reencontrar Jesus Cristo. Porque, no fundo, o desejo de Deus é uma coisa complexa e exigente. Se os padres reencontrassem todas as manhãs uma nova pessoa que lhes pedisse: «Quero amar Deus, quero tornar-me um santo, ensine-me», eles seriam mais felizes e não teriam nenhuma crise de identidade, acredite!

A Igreja em França está a mudar

Bispos franceses estão preocupados com formação dos padres.
Os bispos franceses estiveram reunidos em assembleia plenária em Lourdes para debater a formação dos padres. Houve alguma mudança?

No futuro, é certo que as dioceses deverão fechar cerca de 15 seminários onde já não há candidatos ao sacerdócio. Isso vai obrigar os bispos da geração jovem a trabalhar juntos. Durante anos, um certo número de bispos quiseram, por orgulho, trabalhar cada um por seu lado a formar padres segundo a sua própria visão.
A outra tomada de consciência está ligada à desafetação dos seminários diocesanos em proveito de outros lugares de formação que não dependem das dioceses. Por exemplo, o seminário que acolhe mais candidatos ao sacerdócio (uma centena) é o da Comunidade Saint Martin, na qual os jovens se formam para ser padres sem relação privilegiada com uma diocese, sabendo que irão de diocese em diocese, sempre em equipas de três para missões de curta duração. Este seminário atrai por causa da qualidade do ensino, mas também porque os futuros padres começam a “projetar-se” no futuro. É muito importante psicologicamente. Pelo contrário, é difícil de se projetar no futuro de uma diocese (mesmo se é aquela em que se nasceu) se a diocese perde população, tem problemas financeiros e se o bispo tem falta de carisma (é frequente).
A mim, parece-me que a estrutura da Igreja por divisão das dioceses está totalmente esclerosada e ultrapassada. Corresponde à expansão territorial da Igreja nos três primeiros séculos, com problemas de jurisdição. Mas, nos nossos dias, sobretudo com a internet, a nossa relação com o território e a geografia mudou completamente. Já não pertencemos a uma diocese, porque nos movemos: para o trabalho, os estudos. Eu, por exemplo, tenho 53 anos, mudei dez vezes de diocese ao longo da minha vida e o bispo do meu local de trabalho não é o mesmo do local onde habito. E o meu diretor espiritual depende de um terceiro bispo. É preciso repensar tudo.
 
Além dessas, que outras dificuldades tem a Igreja francesa?
Em França, o fosso aumenta entre os católicos convictos, que têm muito a refletir sobre o que é o ser humano (um ser dotado de uma alma que recebe a sua vida de Deus como um dom e cuja liberdade é fazer a vontade de Deus), e os franceses de base (para quem a vida não é um dom, cada um faz o que quer, em plena autonomia). Chega-se a um diálogo de surdos completo, nomeadamente sobre questões de moral, porque a antropologia cristã não é compreendida. Isto aconteceu muito depressa, no espaço de uma dezena de anos. Vimo-lo, em 2013, na altura dos debates sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em que a posição católica foi percebida pela sociedade como puramente reacionária e homofóbica, mesmo que os católicos tenham usado argumentos fundados sobre a razão (nomeadamente em torno do “bem comum” dos filhos por oposição às reivindicações do lóbi LGBT). Vemo-lo ainda hoje com a questão da eutanásia, em que a posição católica não é compreendida. Há um perigo que, muito rapidamente, os católicos muito crentes sejam percebidos pela sociedade como extraterrestres, pessoas incompreensíveis que se arriscam a ser rejeitados como antissociais.

No romance, os bispos também estão muito ocupados com burocracias e longe dos seus sacerdotes.
​A geração jovem de bispos está decidida a mudar e a fazer esforços porque está à beira do precipício. As dioceses francesas são muito vastas do ponto de vista geográfico. Até agora prevaleceu a lógica: é preciso cobrir todo o território da diocese. Mas isso tornou-se impossível.
Um jovem bispo disse-me no outro dia: «Em cinco anos – isso é já amanhã! – não terei mais do que 10 padres “de pé” na minha diocese. Quando digo “de pé” quero dizer sólidos e em quem posso contar, porque tenho dezenas que são “coxos” (idosos, doentes, deprimidos, com problemas graves, etc…). Se disperso esses 10 padres para “cobrir” todo o território, estou certo que a metade deles estará KO em menos de dois anos. A única solução é a de os pôr em equipas de dois, em três locais nevrálgicos da diocese. E é tudo.» Esta visão é realista e inteligente, mesmo se é cruel para aqueles que deverão aceitar não ter padre à mão. Teremos de nos deslocar, fazer esforços suplementares para ir à Missa. É pena que certos bispos não tenham tido a coragem de decidir mais cedo estas mudanças.
 
Entrevista conduzida por Cláudia Sebastião
Fotos: D. R. /ricardo Perna e PTFreeimages-optitech
 
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