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Homens pai e mãe
19.03.2018
São 57.242 as famílias monoparentais masculinas. Ou seja, pais que vivem sozinhos com os filhos. João Paulo Sacadura é um deles. Há 12 anos, a mulher morreu e ficou sozinho com os filhos gémeos de sete anos. «Sou aquela coisa que se pode chamar um pai e mãe ao mesmo tempo», diz a rir. Maria Francisca, Cuca como lhe chama, tinha cancro no pâncreas. Estes anos todos depois, o pai é um pai babado, muito babado. Os gémeos têm agora 19 anos, «um foi convidado para estudar Neurociência em Londres e o outro está a estudar Psicologia em Lisboa». João Paulo diz ter «muita sorte de ter estes dois filhos que fizeram comigo esta aprendizagem do que é ser pai e mãe. Mas eu, por melhor pai que seja, nunca serei uma boa mãe».

João Paulo Sacadura e os filhos (D. R.)

Lutou para que nada faltasse aos filhos. Sempre com apoios fundamentais. «Tive sorte porque fui sempre muito acompanhado pela minha família mais próxima e amigos. Tenho um grupo de casais, comunidade de vida cristã, CVX, e foi uma grande ajuda. Fui ouvindo umas dicas e ideias que fui aproveitando.» Por um lado, havia a questão psicológica e de luto. «Não quis que eles estivessem na Missa do enterro. Fizemos uma Missa à parte com o padre todo vestido de branco e uma fotografia da mãe. Antes disso, foram à igreja despedir-se e o pai explicar “está aqui a mãe e vai ser sepultada”.» Depois, ao longo dos anos, há um ritual que faz parte do dia da mãe, «vamos pôr umas flores no jazigo da família» e o pai ia à escola. João Paulo diz que foi tudo muito natural e vê que os filhos tiveram desde cedo esse luto feito pela forma como falavam da mãe. «Eles costumam dizer que têm a Mãe do Céu e a mãe no céu. Têm duas mães a quem podem recorrer e tenho sentido sempre que eles têm esta ajuda e este apoio.» Há histórias divertidas que João Paulo conta a rir: «Fomos à Disneyland, em Paris, no ano seguinte, e fomos andar de montanhas-russas. A mãe odiava montanhas-russas. E eles diziam: “Ó pai, a mãe, se não tivesse morrido, morria agora. Morria duas vezes ao fazer estas montanhas-russas.” Era bom ouvir isto. Era sinal que estava arrumado. Eles sentiam esta presença não física que lá estava.»

Ser pai e mãe implicou ter de adaptar a sua vida pessoal e profissional a estar sozinho com dois filhos que dependiam dele. «De repente, percebes que não há mais ninguém e tens de ser tu. Isso a única coisa que tira é tempo e dedicação. Tens de aprender a fazer as coisas. Fartei-me de telefonar a amigas minhas a perguntar “olha lá, tenho aqui estes ingredientes o que é que eu faço com isto?” E produtos para a máquina: “Oh mãe, a gente tem de pôr sempre detergente para o calcário em todas as lavagens?” Aí és tu que tens de pensar na comida, nas roupas, nas compras, nos trabalhos de casa, enquanto estás a trabalhar e isso é uma tarefa e uma ocupação que te absorve muito. Senti essa pressão de ter de estar preocupado em muitas frentes.»

Rui Borges não tem esse apoio. Está sozinho com o filho desde a separação há seis anos. Nesta entrevista não quer expor o lado conjugal e materno. Por isso, não falamos da mãe. Rafael tinha quatro anos e tem agora dez. Está connosco à conversa. «É complicado porque é preciso muita dedicação», afirma o pai. O filho acrescenta, a sorrir, «e trabalho». O dia começa pelas sete da manhã quando acordam. Preparam-se para a escola e para o trabalho. O percurso para o estabelecimento de ensino é curto e feito a pé, sozinho. Ao final do dia, duas vezes por semana, a criança fica num centro de estudos e com a avó. Esta família tem o apoio da avó paterna, mas «é um apoio muito frágil e limitado porque também já é idosa e precisa ela mais do nosso apoio do que propriamente ela dar apoio».

Rui diz que não mudou muita coisa estar sozinho com o filho, porque «desde o primeiro dia do nascimento dele eu estive sempre muito presente». A gestão doméstica não tem sido um problema. «Eu sempre fui muito autónomo. A lida da casa não me assusta, mas claro que a entreajuda de duas pessoas adultas é totalmente diferente», acaba por admitir.

Mais difícil neste percurso de vida a dois está a ser a pré-adolescência. «Recebe influências de fora e torna-se mais complicado. Às vezes, eu digo que não é assim e ele diz “mas o outro faz”.» «Tu tens regras muito diferentes dos outros meninos», interrompe o miúdo. O pai explica: «Pois tenho, e depois há outros meninos que se portam muito mal. E tu és bem comportado e tens regras que o teu pai te ensinou.»

Rui é professor e a realidade que enfrenta todos os dias preocupa-o. «As coisas estão muito complicadas, com a falta de respeito, falta de valores. As famílias provocam isso, muitas vezes, por negligência, outras vezes porque não têm tempo», afirma. Este pai diz que vê isso em si mesmo: «Também saio de manhã e chego à noite. Mas tenho de dedicar a minha vida totalmente a esta tarefa de ser pai. Isso exige tempo e trabalho. Exige muita presença.» Rui lamenta a falta de tempo: «Gostava de o acompanhar mais. Mas chego a casa, é fazer os trabalhos de casa, fazer o jantar e está na hora de ir para a cama…» O filho corrobora e diz que «quase não brinco com o meu pai». No final da conversa, pergunto ao Rafael se quer dizer algo sobre como é viver sozinho com o pai. «Gostava de ver a minha mãe e de estar mais tempo com a família», diz. O pai responde «pois, quer ver a mãe… e temos de esperar pelas festas e férias para estar mais com a família».

Sónia Vladimira estudou famílias monoparentais masculinas. (D. R.)

Segundo dados da Pordata, Base de Dados de Portugal Contemporâneo, 13,1% das famílias monoparentais são masculinas, com pais e filhos. O número de famílias monoparentais tem vindo sempre a crescer. Em 1992, existiam 203.654. Em 2016, eram 436.375. Dessas, 57.242 eram pais a viver sozinhos com os seus filhos. Em 1992, apenas 29.618 agregados familiares eram assim. Sónia Vladimira Correia é doutorada em Sociologia e tem feito investigação neste campo. A sua tese de doutoramento foi sobre Conciliação família-trabalho em famílias monoparentais. Uma abordagem comparativa de género. À FAMÍLIA CRISTÃ, explica que os dados do Censos 2011 revelam «um aumento significativo do número de famílias de pai só com filhos com 18 e mais anos, o que pode representar um sinal de transformação na monoparentalidade masculina». Por outro lado, «nas famílias monoparentais com filhos de todas as idades, verificamos um maior peso de pais sós; nas famílias com filhos dos 25 e mais anos, a proporção de pais sós aumenta para 15%». Por isso, a taxa de variação é «ligeiramente mais elevada (37%) do que as mães sós (34%)».

Se os pais sós com filhos têm aumentado, a sociedade aceita-os bem? João Paulo Sacadura diz ser olhado com curiosidade. «Diziam-me “os teus filhos estão com quem?” “Moram comigo obviamente. Então morariam com quem?” “Vivem contigo? Não entregaste aos avós ou a uma tia?!” Ainda não era natural pensar que ficariam com o pai.» Rui nunca sentiu ser olhado de forma diferente ou com curiosidade. No meio laboral, Sónia defende que entre os empregadores ainda «persiste a atitude resistente a uma masculinidade cuidadora». Isso revela-se em comportamentos concretos como uma «maior dificuldade em reconhecer que o usufruto das licenças destinadas ao pai é um direito consagrado na lei». Mesmo assim, a investigadora afirma que se «assiste à disseminação de uma masculinidade cada vez mais cuidadora» e isso é facilmente comprovado com «a maioria dos homens goza a licença exclusiva do pai, não apenas os dias obrigatórios, mas também os dias facultativos». 

Rui não tem dúvida em dizer, sorrindo até com os olhos, que «o melhor de ser pai é a companhia do meu filho». «Não vou dizer, que nem mártir, que me anulei pela felicidade dos meus filhos. Não fui nada um coitadinho. É uma carga que não é dolorosa mas gratificante. Sou bafejado pela sorte e por Deus, nas pessoas que velam por mim e me vão acompanhando», afirma João Paulo.  

Reportagem: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perda e D. R.

 
Este é um excerto de uma reportagem que pode ler na íntegra na FAMÍLIA CRISTÃ de março de 2018.
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