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Igreja ainda não acolhe bem deficiência intelectual
01.07.2016
«A senhora devia evitar trazer o seu filho para estes sítios, não acha?» Que mãe gostaria de ouvir isto acerca do seu filho, enquanto espera pelo café numa fila num hipermercado? É fácil imaginar que nenhuma, menos ainda quando se é mãe de um filho com deficiência intelectual, mas esta é a realidade que ainda hoje, em pleno séc. xxi, alguns pais têm de escutar.


«Há 40 anos, as pessoas assumiam que tinham preconceitos, e hoje as pessoas envergonham-se de assumir, mas o preconceito tem expressão a partir dos gestos e atitudes. Não é que tenha desaparecido, mas tornou-se menos notório de forma explícita», explica Olga Grilo, responsável nacional pelo movimento Fé e Luz, que há 45 anos acompanha famílias com filhos com deficiência intelectual. «Tudo começou em 1971 porque um casal tentou levar os seus filhos com deficiência a uma peregrinação a Lourdes e foram impedidos de participar. Não encontraram alojamento, não foram acolhidos, e todo o ambiente foi muito hostil para com eles, porque todos antecipavam que aqueles filhos seriam um problema e ninguém queria lidar com isso», conta-nos.

A experiência foi tão traumática que o casal foi conversar com Marie-Hélène Mathieu, que trabalhava no Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência em França e estava muito sensível a estas questões. O problema chegou também aos ouvidos de Jean Vanier, um canadiano responsável pela criação das comunidades cristãs A Arca.
Juntos, resolveram fazer o impensável: juntar centenas de pessoas com deficiência, suas famílias e amigos, e peregrinar até Lourdes. «Em França reinou o pânico. A Igreja Católica não estava preparada, muito menos o santuário, e convocaram-se todas as forças policiais que havia para estarem alerta naqueles dias, porque a previsão era quase apocalíptica», recorda Olga Grilo. Mas o resultado final foi bem diferente. «Com todas as incapacidades próprias da pessoa com deficiência, vieram também a alegria, a simplicidade e a vontade de criar relação e festa, sobretudo. Essa peregrinação foi muito marcante para muitas famílias, e criou-lhes a esperança de que alguma coisa poderia mudar dali para a frente.»

Algumas dessas famílias eram portugueses e trouxeram o movimento para o nosso país. Há 40 anos, surgiam as primeiras comunidades de um movimento que procura ser um espaço de «reflexão», «oração», «partilha» e «festa, o momento mais aguardado pelos nossos amigos especiais», diz, entre risos. Se, na altura em que surgiu o movimento, o preconceito era real e visível, a realidade atual é que, deixando de ser visível, continua a ser real em muitas paróquias e igrejas. «Hoje ninguém é proibido de ir à Eucaristia, mas as pessoas sentem-se mal e desconfortáveis pelos olhares, que revelam um preconceito não assumido, da parte das outras pessoas, e acabam por se sentir mal e não ir. Antes, as pessoas eram aconselhadas a não ir, hoje não são de viva voz, mas também não conseguem tomar parte nas atividades da paróquia», critica Olga Grilo.

Olga Grilo, com a filha, e a Teresa, membros do movimento Fé e Luz
Um problema sentido por Dália Lopes na primeira pessoa. «Senti muita dificuldade em que a Igreja aceitasse o meu filho. Se estamos numa Missa e o menino bate palmas, surgem comentários depreciativos de “ah, um menino tão grande a bater palmas quando o padre está a ler o Evangelho”. Claro que a mãe não o deixa fazer isso, e depois deixa é de ir à Missa para não ouvir estas coisas, e vai à Missa nos encontros do Fé e Luz», desabafa Dália, mãe do João, que tem uma doença dentro do espectro do autismo e está hoje com 23 anos.

O problema não se limita aos fiéis, mas também a alguns sacerdotes. «Quando o João cresceu e já ia à Missa, quis comungar, mas o padre da minha paróquia estava renitente em aceitá-lo na catequese. Até que em Arroios, onde estava a comunidade Fé e Luz a que eu pertencia, já havia uma catequista e o padre não se importava que ele estivesse na catequese. Mas eu morava nas Paivas, na Amora, e era muito longe para ir de um lado para o outro. Falei de novo com o meu pároco e disse-lhe que em Lisboa o aceitariam, e ele lá o aceitou. Mas quando chegou o momento da comunhão, ele não lhe queria dar o sacramento. Tive de falar algumas vezes com ele, e ele lá acedeu, mas teve de haver alguma pressão da minha parte», lamenta. Atualmente, o João já vai à Eucaristia e já poucos estranham alguma atitude mais “fora do normal” ou os «abraços e beijinhos que dá a todas as pessoas na igreja no momento da paz», brinca Dália. Dália Lopes e o seu filho João
Mas esta é uma pressão que muitos pais podem não conseguir fazer, optando simplesmente por excluir o filho da participação na Eucaristia. «Se nós perguntarmos a um sacerdote se tem na sua paróquia pessoas com deficiência intelectual, é provável que digam que não têm. E depois começamos a procurar e descobrimos que há, mas não aparecem nas celebrações, estão escondidos», diz Olga Grilo.
Uma tendência que o movimento Fé e Luz tem procurado esbater. «Quando o João nasceu, questionei-me muito e ganhei alguma revolta. Foi uma irmã que me falou no Fé e Luz, e em boa hora o fez. Grande parte de revolta foi-se embora, porque em Fé e Luz eu vi que o meu filho era aceite. Com as suas birras, que ele era um terrorista que nem lhe passa pela cabeça, mas era aceite. O que senti é que o aceitaram com os momentos de alegrias e de birra, e não houve nenhuma mãe ou elementos do movimento a apontarem o dedo, a dizerem que ele era malcriado, que eu não o sabia ensinar, que é o que se vê por aí», defende Dália Lopes.

Muito amor e alegria é o que se sente nos encontros do Fé e Luz, a julgar pelas palavras da Teresa Romão, também ela uma “menina especial”. «Estou desde o início no grupo de Évora. Vou à Missa e gosto muito de acolitar. Já faço há algum tempo, mas às vezes ainda me engano», diz a rir. Mais importante ainda é o que sente por participar nos encontros. «Se não fosse o Fé e Luz, eu não era nada. Eles têm sido uma ajuda muito grande, têm-me ajudado muito, principalmente os amigos jovens, porque quando tenho problemas, eles vêm ajudar-me, quando estou triste eles vêm ajudar-me, e eu também os ajudo a eles», conta a Teresa.
E como é que podem ser os próximos 40 anos do movimento? «Não ter medo de dar visibilidade às pessoas com deficiência intelectual. Esporadicamente, vemos uma pessoa a passear com o seu filho com deficiência, e menos ainda na Eucaristia. A Igreja deveria facilitar essa presença das pessoas, por exemplo através da catequese. São raras as paróquias que têm um catequista capacitado com indicações para dar catequese a pessoas com deficiência intelectual», diz a responsável nacional do Fé e Luz.

D. José Traquina, bispo auxiliar de Lisboa, na peregrinação que o Movimento Fé e Luz organizou a Fátima.
Olga Grilo sugere ainda que na criação de redes paroquiais entre os diversos movimentos, o Fé e Luz não seja esquecido. «Não acontece intencionalmente, mas porque estas pessoas não estão tão capacitadas, há tendência para não atribuir grandes responsabilidades à comunidade Fé e Luz, o que pode fazer sentido, mas depois não se atribui mais nada. É preciso rever o que se pode pedir às pessoas, porque senão continuamos sem pedir nada às pessoas com deficiência intelectual, nem às suas famílias, porque elas são capazes apenas de fazer “estas” coisas, mas nem essas elas fazem, porque não há oportunidade disso.»
Desafios lançados a todos os fiéis, e uma porta que está aberta para todos os pais que têm filhos com deficiência intelectual, e para todos os que desejem descobrir este «tesouro escondido» que é participar nos encontros Fé e Luz, pois nem só de pessoas com deficiência intelectual e seus pais é feito este movimento. «O que faz os amigos ficarem nas comunidades é a experiência de descobrir, desafiados por uma pessoa com deficiência intelectual que não tem o registo que a sociedade nos encaminha a ter da eficiência, da eficácia, da inteligência, do bonito, que somos impelidos a ter outro tipo de registo, mais simples, e que o que importa é ser capaz de criar uma relação verdadeira, baseada numa ternura recíproca, que não é comum encontrar nas relações mais casuais que vamos tendo.»


Texto: Ricardo Perna
Fotos: Movimento Fé e Luz e Ricardo Perna
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