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PHDA: Irrequietos ou hiperativos?
03.02.2016
A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) ou, como alguns utilizam, “a hiperatividade” é uma perturbação neurológica que atinge cerca de 1 em cada 20 (a média situa-se entre os 5% e os 7%) crianças. Por isso, não é um termo desconhecido do grande público. Mas saberemos realmente do que se trata? Texto Rita Bruno Dizer que a PHDA «é uma perturbação do neurodesenvolvimento das crianças que resulta de alterações no funcionamento do sistema nervoso» (definição do Clube PHDA, da Cuf Descobertas) e que tem uma forte componente genética é o mesmo que dizer que existem fatores físicos prévios à personalidade, vontade ou tipo de educação da criança. No entanto, os seus sintomas manifestam-se em larga medida nos aspetos comportamentais, o que faz com que a linha entre a perturbação e a irrequietude nem sempre seja clara para quem não dispõe de formação clínica. E por vezes gera-se confusão na perceção e utilização de termos. Há quem passe a vislumbrar em qualquer criança irrequieta uma criança “hiperativa” e quem ache que a PHDA é uma doença dos tempos modernos resultante de pais permissivos e de crianças mal-educadas. É preciso atenção na utilização dos termos e na atribuição de rótulos ou etiquetas, até porque eles se referem a pessoas. «Não devemos rotular por aquilo que nos parece, temos de ter a certeza do que estamos a dizer», defende Linda Serrão, presidente da Associação Portuguesa da Criança Hiperativa (APDCH), que considera ainda que nesta área, muitas vezes, «falta bom senso na nossa sociedade». Só através de um diagnóstico médico, feito por especialistas, se pode afirmar se uma criança é ou não “hiperativa”. E o mesmo, muitas vezes, é difícil e implica um trabalho exaustivo e detalhado.

Para não haver erros, e porque não há nenhum exame concreto de diagnóstico, como um raio X ou uma TAC, por exemplo. A análise tem em atenção a história de vida, de desenvolvimento e de comportamento da criança nas várias áreas do quotidiano. É o que nos explica Filipe Glória e Silva, pediatra do desenvolvimento e responsável pelo Clube PHDA. «O que é necessário para nós não falharmos nesta área é reunir informação suficiente do início, antes de decidir o que é que é para fazer. E considerar depois também outros diagnósticos alternativos para os mesmos sintomas e que podem passar por outros problemas do desenvolvimento, emocionais, de ansiedade, de perturbações da vinculação, de perturbações do espectro do autismo que também se podem manifestar com este componente de desatenção e hiperatividade.» Linda Serrão explica-nos que no caso da APDCH a avaliação «demora geralmente cerca de um mês e não é feita só por um técnico, é feita por uma equipa multidisciplinar». Na dúvida, pedem-se mais exames complementares e espera-se pela «evolução da situação», explica o médico.


É o que acontece, por exemplo com crianças muito pequenas, cujas variações de comportamento são muito frequentes e não permitem um diagnóstico seguro. «Em crianças pequenas, nós não fazemos diagnósticos destes. Temos uma atitude um bocadinho expectante», continua Filipe Glória e Silva, que indica no entanto que estes primeiros episódios em crianças mais pequenas poderão servir para ajudar num diagnóstico futuro. «É muito raro, e é de duvidar o diagnóstico, se encontrarmos uma criança em idade escolar em que nunca houve nenhuma queixa para trás nem de desatenção, nem de irrequietude e de repente ficou hiperativa ou desatenta, ou com dificuldades de aprendizagem súbitas.» É o que os especialistas chamam de «história coerente» para chegar às conclusões. Mas se o diagnóstico por vezes é complicado, o que distingue, então, uma criança com PHDA de uma criança muito irrequieta, reguila ou até malcomportada? Segundo o pediatra, a «intensidade das queixas e o impacto» que elas têm na vida e no desenvolvimento da criança. Aqui, delimita-se geralmente uma fronteira entre feitio e perturbação. «Não é muito frequente, mas por vezes vamos recebendo nas consultas crianças que são mais ativas do que a média, são reguilas, são irrequietas, são distraídas, mas na verdade os pais, com um bocadinho mais de trabalho, dão conta do recado, os professores também conseguem com estratégias diferenciadas ajudar a criança a aprender… nesse caso não pode haver diagnóstico.»

Para além da irrequietude, desatenção, impulsividade, falta de concentração, «a PHDA acaba por estar associada a outras coisas. É frequente haver dificuldades específicas de aprendizagem, dislexia, dificuldades na matemática, é relativamente frequente haver alguns comportamentos de oposição e de desafio, e isso torna as coisas mais complicadas», garante o pediatra. Rita Antunes, neuropsicóloga do Clube PHDA, acrescenta que uma criança com PHDA se vê a braços com o comprometimento de várias aprendizagens, pelo que o seu desempenho nas diferentes áreas da vida e algumas das suas competências fica abaixo da média. São crianças que «mais facilmente desistem do que persistem, não porque não saibam, mas porque não persistiram, não pensaram, porque não leram a pergunta até ao fim, ou o que leram de alguma forma ficou deturpado. Aí, uma outra função fica comprometida, a memória de trabalho verbal. A criança com PHDA tem esta competência abaixo do esperado e portanto, muitas vezes, não memoriza o que lhe pedem. A resposta é inadequada ao contexto.» E quanto maior o impacto na vida da criança, maior também se torna na vida dos pais. Porque a sociedade é rápida a julgar e a advogar-se detentora de soluções. Se fosse meu filho… «Muitas vezes, as famílias até se inibem na socialização mais alargada, porque efetivamente têm a noção de que não conseguem gerir nem controlar o comportamento dos filhos e isso depois aos olhos da sociedade acarreta um peso acrescido», revela Rita Antunes.

E os pais são uma peça fundamental para o sucesso dos filhos a lidar com o problema. Linda Serrão diz mesmo que eles têm de ser «os primeiros a ser ajudados para aprenderem a lidar com os filhos». É «importante estarem bastante informados do que é a hiperatividade, o que é que podem e não podem fazer, o que é permitido e o que não é, que regras devem aplicar, para depois as nossas crianças, quando se tornam pré-adolescentes, adolescentes, adultos poderem lidar com essa patologia», um apoio que também é dado pela APDCH. É por isso que o acompanhamento na PHDA deve ser multidisciplinar e abranger filhos e pais. João e Isabel são pais de um menino com diagnóstico confirmado de PHDA desde os seis anos. «Detetámos que ele tinha alguns comportamentos não muito normais. Não se concentrava, estava sempre muito irrequieto. Os professores também achavam que ele não estava concentrado», começam por descrever. «Depois, na escola, a parte da leitura começou a ser um problema. Todas as disciplinas têm um enunciado, uma pergunta a que ele não sabe responder, que não consegue perceber. Começou a ter dificuldades em todas, porque não conseguia interpretar aquilo que lhe estavam a perguntar.» E os dias de escola, principalmente os fins de semana «passaram a ser de bradar aos céus», desabafa a mãe.

Tudo gira em torno do estudo e da tentativa de que o filho se concentre, numa luta constante para que ele retenha informação e obtenha aproveitamento. A juntar ao défice de atenção e à hiperatividade (num grau mais reduzido), o filho tem comportamentos de oposição e desafio. «O que pode ser destruidor para o ambiente familiar» assume o pai naturalmente, «porque às tantas cria grandes conflitos dentro da família, porque qualquer resposta dele a qualquer coisa que nós damos para fazer é sempre não», e porque acaba por ter comentários menos corretos. Também a relação com o irmão é muitas vezes pautada por conflitos, da parte de um, porque tem um comportamento desafiador, e do outro, porque, embora conviva diariamente com a PHDA atribui muitas vezes o comportamento do irmão a falta de educação. Estes pais não escondem que é muito difícil gerir a PHDA e o que ela faz à relação pais-filho, mas baixar os braços não é opção, porque aos pais cabe «fazer tudo o que deve ser feito», principalmente quando um filho «não percebe as consequências para além do hoje». Aprenderam a não «dar muita relevância a certas coisas que se calhar não são tão importantes como isso. Se calhar há algumas coisas que a maior parte dos pais não deixa passar e nós temos de deixar passar senão cria-se ali a terceira guerra mundial.» Conseguem evitar as escaladas de “irritação” e potenciar «o lado muito meigo» que o filho também tem, criaram rotinas e uma organização que ajudam o filho. João e Isabel protelaram ao máximo o recurso a medicação (só aos dez anos aceitaram recorrer), mas reconhecem que embora ainda lhes pese muito (ver caixa), ela tem ajudado a equilibrar as coisas, em conjunto com o acompanhamento médico e com a aprendizagem que já fizeram. Felizmente, e ao fim de alguns anos, as coisas começam a normalizar, não têm corrido mal e acreditam que o filho está a ganhar mais autonomia. Em 50% dos casos de PHDA, os sintomas desaparecem na idade adulta, mantendo-se nos restantes.
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