Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Jacinta na Estrela: a menina que «tocou a eternidade»
09.05.2017
A dias da canonização dos pastorinhos de Fátima, a FAMÍLIA CRISTÃ foi ao encontro de um dos segredos cada vez menos secretos de Lisboa. Na Estrela, ao lado do jardim e de frente para a Basílica, fica o Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, das Irmãs Clarissas, um antigo orfanato para crianças gerido pela Madre Godinho, onde Jacinta Marto passou 12 dias antes de ser transferida para o hospital D. Estefânia, onde viria a falecer.

No dia 21 de janeiro de 1920, este orfanato recebe a sua mais ilustre criança. Jacinta Marto, a pedido dos pais e do seu médico, vem para Lisboa para ser internada no hospital D. Estefânia, para se tentar a cura da broncopneumonia que a afetava, mas não foi admitida de imediato no hospital. «Enquanto ela não tivesse vaga no hospital, foi preciso encontrar uma casa que a pudesse acolher em Lisboa, para que depois o transporte para o hospital fosse mais rápido», explica-nos a Ir. Rita de Assis, a clarissa que nos recebe para a visita aos espaços onde Jacinta Marto esteve.
 
O objetivo do Cónego Formigão, o sacerdote que acompanhava Jacinta, era acolhê-la numa família amiga de Lisboa, para que ficasse mais bem acompanhada, mas tal não foi possível, «penso que por dois motivos: o facto de a doença ser contagiosa e o facto de as aparições ainda serem um ponto de interrogação. Não era fácil estar a acolher uma vidente que não era aceite pela Igreja», explica-nos a Ir. Rita enquanto nos sentamos na sala onde Jacinta vinha admirar o jardim da Estrela.
 
Segundo a própria menina, os 12 dias aqui passados foram «os 12 dias em que mais sofreu, não só dores físicas da doença, mas o sofrimento causado pela solidão, o afastamento de Fátima, da família, dos primos». Mas no meio do sofrimento havia a «consolação da presença da Mãe, que manteve o seu compromisso de acompanhar os pastorinhos».
 
Da parte da Madre Godinho, a religiosa que geria o orfanato com mais irmãs da Ordem Terceira Franciscana, nunca houve dúvidas de que Jacinta fosse vidente. «A Madre Godinho acreditou sempre que ela era vidente de Fátima». Principalmente quando falava com uma menina de 9 anos que lhe dava tantos e bons conselhos. «”Seja amiga do silêncio, da santa pobreza”, e a Madre Godinho, impressionada com a sabedoria de uma criança tão pequena, perguntava-lhe como é que ela sabia tantas coisas. A Jacinta, com simplicidade, dizia que “foi Nossa Senhora quem mas revelou”», e isso aumentava a certeza, até porque aqui, diz a Ir. Rita, «a Jacinta tocou a eternidade e o Céu, como em Fátima, e isso levou à transformação da sua vida. “Se as pessoas soubessem o que é a eternidade, mudariam de vida”, dizia à Madre Godinho».

 
Até que, um dia, a Madre Godinho foi surpreendida por uma revelação inesperada. «Num dos dias, quando a Madre apareceu para a visitar e se foi sentar numa cadeira, a Jacinta impede-a e diz “Não se sente aí, que foi aí que Nossa Senhora esteve sentada”. A partir desta referência da Jacinta, a Madre Godinho percebeu que Nossa Senhora a acompanhava ainda aqui em Lisboa», conta a Ir. Rita de Assis.
 
Foram poucos os dias que Jacinta passou na Estrela, mas frutuosos. «Ela era uma criança que falava pouco, mas teve uma relação muito próxima e familiar com a Madre Godinho. O facto de estar numa casa com sacrário era uma alegria, e passava muitas horas ali na grade [ao lado do quarto da Jacinta, uma janela com grades permite olhar para dentro da capela do mosteiro] a olhar para Jesus Eucaristia, a assistir à Eucaristia e a receber a comunhão das mãos do sacerdote», conta a religiosa.

O local de onde Jacinta assistia à eucaristia na capela do orfanato.

Espaço de peregrinação, graças e milagres
Percebendo que este era um espaço importante de ser preservado, as Irmãs Clarissas, ao fundarem o mosteiro, mantiveram o quarto da Jacinta e o espaço adjacente, com a janela que dava para o interior da sua capela, como estavam na altura da Jacinta lá ter estado. Para além disso, arrumaram num armário algumas das relíquias da futura santa, como um fato, um terço e as cartas que a Madre Godinho trocou com os pais e as autoridades eclesiásticas de Fátima, entre outros objetos.
 
Apesar de serem uma ordem contemplativa, abrem as portas a todos os peregrinos que desejem visitar ou rezar no quarto da Jacinta. «Para nós, acolher as pessoas de fora é uma graça. Uma irmã Clarissa é uma mulher contemplativa, de oração, e a oração leva-nos automaticamente ao acolhimento daqueles que batem à porta, e por isso oração e acolhimento não estão desligados», sustenta a Ir. Rita.

A Ir. Rita de Assis, Clarissa, acompanha os grupos que querem visitar o local onde Jacinta esteve.
Mesmo que isso signifique abrir a porta... todos os dias. «Diariamente as pessoas batem-nos à porta. Os grupos organizados vêm mais do estrangeiro. Os portugueses vêm sozinhos, porque passam por aqui, batem à porta e pedem a alguma irmã para os acompanhar. Principalmente neste ano do Centenário, os portugueses estão mais despertos para a Mensagem e para revisitar todos os locais que foram tocados pelo Céu e pelas vidas dos pastorinhos», conta.
 
Visitas que impressionam pelos relatos de graças e milagres. «Os grupos estrangeiros vêm com uma fé imensa, de que este é um lugar de graça, e que aqui obterão as graças que pedirem. É impressionante ver as conversões e os pequenos milagres que Deus vai operando através da fé daqueles que se confiam no quarto da Jacinta, ou nas orações que pedem às Irmãs», confessa esta irmã Clarissa, que adianta que «as pessoas pedem graças e depois vêm dizer-nos que elas foram concedidas». «Uns escrevem-nos cartas, e temos estrangeiros que voltam no ano seguinte noutra peregrinação, já com a família, só para agradecer», relata.

Percorra a galeria de fotos para conhecer melhor este espaço das Irmãs Clarissas em Lisboa.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
Continuar a ler