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Jovens portugueses fazem balanço positivo a meio do Pré-Sínodo
21.03.2018
Numa altura em que se estão a concluir os trabalhos nos grupos linguísticos, a Família Cristã esteve com os três jovens portugueses que estão a participar na assembleia pré-sinodal que decorre esta semana em Roma. Durante estes quase três dias, estiveram em debate «profundo» e «enriquecedor», nas suas palavras, para procurarem perceber o estado da Igreja jovem e a forma como podem ajudar a preparar o trabalho dos bispos que se irão reunir em outubro.

 
Até agora, dizem, o balanço é muito positivo. «Como o Papa pediu para falarmos sem vergonha, as pessoas têm partilhado o que é bom e o que são as maiores dificuldades dos seus países. Somos muito diferentes, mas ao mesmo tempo os nossos problemas e as nossas realidades são muito semelhantes», diz Joana Serôdio, que está a representar os jovens portugueses, inserida num grupo linguístico de espanhol com brasileiros, argentinos, uma moçambicana e uma pastora luterana, que tem «trazido muita riqueza não só a nível pessoal mas para todo o grupo», afirma.
 
Rui Teixeira veio em representação dos escuteiros católicos de todo o mundo, e explica que o grupo de língua inglesa onde ficou inserido lhe trouxe «muita diversidade». «Tem sido muito interessante, porque para além de se falar dos tópicos que estão nas 15 perguntas, 5 por cada parte da reflexão, às vezes complementamos com preocupações sobre para onde é que a Igreja deve ir, como é que se deve relacionar com os jovens, etc, sobretudo no tópico do modus operandi na Igreja. Perguntas que não estavam ali, mas que deram discussões extremamente interessantes», refere.
 
Tomás Virtuoso, que está a representar o movimento internacional das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, está muito contente precisamente com a «profundidade das reflexões». «A grande honestidade de cada um pôr ali aquilo que verdadeiramente achava sobre os problemas, com uma grande profundidade, com uma grande capacidade de ir ao fundo das questões, foi uma das coisas que me deixou muito contente, não havia banalidades. Pôr ali a sua vida, e por isso tem sido uma experiência extraordinária», destaca este jovem.

 
Propostas para o Papa estão a ser elaboradas
O objetivo estes dias de reflexão é o de produzir um documento que não apenas trace um retrato da juventude, mas também aponte caminhos aos bispos que irão estar reunidos em Sínodo.

Neste sentido, e embora sejam ainda propostas dos grupos, que podem não estar no documento final, foi possível já perceber que tipo de pedidos vão ser feitos no documento final a entregar ao Papa. «No meu grupo, falámos de haver uma formação geral para todos os cristãos no sentido do acompanhamento dos jovens. Formar todos os cristãos para poderem acompanhar os jovens», conta Joana Serôdio, que destacou a preocupação de muitos com a questão do acompanhamento dos jovens pós-Crisma, também partilhada no grupo de Rui Teixeira. «Quase todas as realidades falaram muito da descontinuidade que existe após o acompanhamento dos jovens até ao Crisma. Falou-se do Crisma como uma graduation, e há falta de respostas a nível diocesano para a juventude», disse.
 
No grupo do Tomás, houve muitas críticas ao modelo de catequese atual, fruto da experiência de muitos dos seus membros, também eles catequistas. «A grande maioria é catequista e criticou muito a forma como a catequese é dada, e o anacronismo dos manuais e formatos que se usam, que levam a uma pastoral sacramental que não se converte em pastoral juvenil. É mais uma corrida aos sacramentos que uma proposta de vida para o jovem, que faça sentido no seu todo», conta.
 
No seu grupo, uma das ideias mais presentes foi a de dar voz aos jovens, que muitas vezes são apenas «carne para canhão», uma ideia que Tomás confessa que não tinha «tanta noção», mas que reconhece ser realidade também em Portugal. «Os da América Latina diziam com piada “sempre que é preciso limpar as pratas da Igreja, chamam os jovens”, mas depois ficam por aí. Repetiu-se muito que os jovens têm de estar nos lugares onde se decidem as coisas, e na maior parte dos conselhos paroquiais ou diocesanos normalmente não há jovens, ou são muito poucos e não são representativos de toda a vida jovem», disse.
 
No grupo do Rui, falou-se da necessidade de tornar estes eventos de escuta dos jovens mais frequentes. «Seria bom que, daqui por um tempo, voltássemos a encontrar-nos para debater outros tópicos, porque a Igreja caminha desta forma sinodal, o Papa quer bastante isso, e é preciso que os jovens se mantenham num diálogo autêntico e aberto entre eles», defendeu.


 
Amizades para a vida e exemplos de cooperação
Todos os três portugueses concordam quando afirmam que estão a fazer amizades para a vida. Desde logo, entre eles. «Em primeiro lugar, entre nós, porque não nos conhecíamos», diz o Rui, entre risos.
 
Tomás fala num novo «mapa mundo de amigos», um novo registo de amigos sul-americanos que lhe despertaram a reflexão e o recado para a Europa jovem. «Faz muita impressão a força que a América Latina tem como uma Igreja que caminha em conjunto e coopera umas com as outras. Posso estar enganado, mas não sinto isso na Europa, essa dimensão da Igreja europeia a caminhar junta. Sei que há uma conferência europeia, mas na América Latina há a noção de que os países caminharem um para cada lado é muito pior que caminharem em conjunto. A certa altura, os tipos todos tiraram um livro a apontar o que estava lá escrito, e tinham todos o mesmo livro, mesmo sendo de países diferentes. É uma Igreja que caminha em conjunto, não fica na sua capelinha», nota.
 
Para a Joana, mais que criar amigos, quer criar «pontes». «Pontes que me vão permitir conhecer outras realidades e deixar que essas pessoas possam entrar na realidade portuguesa e os nossos jovens possam enriquecer com elas», refere.
 
As reflexões dos grupos linguísticos darão agora lugar à criação de um documento final, que deverá ser votado e aprovado por todos os participantes até sábado, altura em que será apresentado publicamente. O trabalho do pré-sínodo está a meio, mas as reflexões e as inquietações ainda agora estarão a começar na mente de cada um destes jovens.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna

A FAMÍLIA CRISTÃ está em Roma a acompanhar todos os momentos desta reunião pré-sinodal do Papa com jovens de todo o mundo. Acompanhe tudo na secção especial do nosso site em http://familiacrista.paulus.pt/sinodo-dos-jovens.
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